Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Livro aprofunda o debate sobre criminalização e transformação do funk

Os bailes, a rua e os intrincados interesses em legislar o gênero musical são tratados em nova obra sobre o tema

Foto: Vincent Rosenblatt
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Tem-se um marco do início da perseguição ao funk. Foi quando no verão de 1992 um arrastão na praia do Arpoador, na zona sul do Rio de Janeiro, que passou ostensivamente na televisão, envolveu funkeiros de bailes do subúrbio. A partir dali, as classes média e alta, além do governo, começaram a classificar o crescente movimento como ameaça “à ordem”.

O livro ‘O Funk na Batida: Baile, Rua e Parlamento’ (Edições Sesc), de Danilo Cymrot, traz um relato denso e muito equilibrado sobre o funk e sua criminalização. A obra tem como ponto de partida o emblemático acontecimento no Arpoador. O autor é doutor pelo Departamento de Direito Penal, Medicina Forense e Criminologia da USP.

Subgêneros do funk – proibidão, melody, ostentação, consciente – foram surgindo e se estabelecendo, no Rio e São Paulo (capital e Baixada Santista), na medida em que discussões diversas em torno do tema iam ocorrendo com o poder vigente.

Preconceito

Cymrot faz comparativos com outros gêneros musicais, com temáticas semelhantes ao funk, mas tratamentos distintos, como o axé music, de coreografias de alto cunho erótico e duplo sentido, envolvendo até crianças, e o sertanejo, com suas constantes referencias à bebida alcoólica. 

Impressiona no trabalho os casos de polícia ocorridos no funk e as inúmeras propostas de legislar os bailes do gênero. Enquanto busca-se regulação dos espaços de funk, notadamente ocupados pela população negra, pobre e periférica, as festas raves, do open bar e consumo livre de drogas, ocorrem para as classes abastadas com bem menos incômodos da segurança pública.

O livro não é um tratado de proteção ao funk. Estão apresentados todos os casos, desde o início dos anos 1990, quando o gênero estourou na periferia do Rio, até hoje, de MCs, DJs e cantores acusados de envolvimento com tráfico e exploração de menores em bailes. 

Os pancadões e as festas de rua de funk tornaram-se frequentes com a crise que começou a acometer de forma aguda o País a partir de 2014 – e manteve-se forte durante a pandemia. Sem dinheiro para pagar entrada de bailes, a via pública tornou-se o único espaço possível de entretenimento. Mas a poluição sonora veio junta.

A obra de Cymrot relaciona um número expressivo de projetos de lei propostos por parlamentares. O fato é que políticos usam um problema complexo para ganhar visibilidade por meio de um regramento inócuo.

No Poder Executivo, o direcionamento às políticas de repressão em vez de construir uma intermediação salutar é a tônica apresentada no livro. 

O funk é uma manifestação cultural de uma população excluída e oprimida, com letras de amor, pornográficas, de exaltação ao consumo (às vezes de luxo), da realidade (ou caos) social, da forma de viver (difícil e nada romantizada).

O livro O Funk na Batida: Baile, Rua e Parlamento expõe um Brasil que terá que lidar com o assunto, em algum momento, de forma menos contraditória, já que o gênero musical segue sendo disseminado, tornando-se cada vez mais referência de muita gente depois de três décadas de existência.

 

Augusto Diniz

Augusto Diniz
Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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