Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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‘Funk é a válvula de escape do pessoal da favela’, diz MC Hariel

Artista do funk consciente lançou um dos mais marcantes projetos audiovisuais de música do ano

Foto: Divulgação
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O DVD Mundão Girou, de MC Hariel, foi lançado em fevereiro. O registro foi feito em uma grandiosa casa de espetáculo em São Paulo. Chama atenção o roteiro do audiovisual, com representação teatral, dança, poesia urbana e música de forte tom crítico-social. Um dos grandes projetos musicais do ano.

O trabalho marca os 10 anos de carreira do funkeiro, talvez o mais representativo hoje do segmento. Ele foi criado na Vila Aurora, na zona norte de São Paulo. No Mundão Girou, ele interpreta sucessos de sua carreira e músicas inéditas em 21 faixas.

Com a presença de algumas crianças, a abertura é com um texto de Hariel, interpretado pela poeta de slam Kimani: “Favela cansou de perder/ A gente cansou de perder/ Favela só quer ganhar”.

Mais adiante, um garoto simula ser um lavador de vidro de carro no farol e um entregador do Ifood. Hariel canta com DJ Alok no comando do som. A próxima, o MC atende o telefone fixo no palco e faz uma analogia à vida dura de um atendente de telemarketing, com participação do rapper Rael. Juntos, cantam uma música de título sugestivo: Pirâmide Social.

Hariel faz, em seguida, com dois MCs, homenagem ao amigo falecido MC Kevin. Outros convidados – como Filipe Ret e Neguinho do Kaxeta – e novas coreografias. Surge ainda um contemplativo Mano Brown no palco.

Quase no final, a simulação teatral da Cracolândia, com a música Ilusão, que resume esse marcante projeto audiovisual: “Essa eu fiz pra molecada que tá na ilusão/ Que deixou de correr pro sonho pra correr pro crime/

Cadeia não é mamão e o crime não é bombom/ Então usa a mente pro certo que a vida não é filme.”

Ritmo afetivo

MC Hariel, 24 anos, faz questão de enfatizar que o DVD – que teve versão deluxe lançada dias atrás – só saiu por causa das pessoas envolvidas, embora ele tenha concebido o projeto. “Contei com uma galera que pôde roteirizar o que eu tinha em mente”, afirma.

As músicas, parte autobiográficas parte do que vivenciou, são recheadas de letras do universo de dentro das periferias. “E a cada esquina uma oportunidade/ De lotar minha geladeira/ E com o resto do lucro ainda curtir um baile/ É que eu penso no hoje/ Mas penso mais tarde/ Tenho de exemplo vários que morreram/ Desapareceram ou estão atrás das grades” (trecho da canção Oportunidade).

“O que me preocupo bastante hoje é com a maneira com que o funk está se tornando inacessível para o jovem de periferia. O funk é o segmento que mudou minha vida”, diz. “O funk é válvula de escape mais interessante do pessoal de favela, do pessoal de periferia”, conta.

O músico ressalta que o funk segue sendo produzido dentro das comunidades. “Mas acessível que outros segmentos. Não que os outros segmentos não estejam presentes na favela. A gente tem de tudo. Não é que quem nasce na favela tem que ser obrigatoriamente funkeiro, mas a gente vê que é um ritmo mais afetivo”, diz.

“Meu grande sonho é conversar com a cultura latino-americana”, revela Hariel, que teve seu primeiro DVD gravado no deserto da Bolívia em 2019. Ele acha o Brasil completamente à parte dos países vizinhos e crê que o funk poderia se difundir no mundo com maior intercâmbio internacional.

“Não quero que o funk me dê só dinheiro. Quero aprender coisas por meio do funk”, diz. “Atrás do funk, da curtição, do baile, da festa, tem uma galera que vive disso, que mudou a vida por conta disso. Tenho muito sonho pela frente, como dar oportunidade para outros moleques fazerem funk. O que tenho na minha cabeça é encontrar uma maneira de trazer mais gente (para o funk)”, conclui.

Augusto Diniz

Augusto Diniz
Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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