Augusto Diniz | Música brasileira
Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.
Augusto Diniz | Música brasileira
Livro analisa a relevância política consolidada por Elza Soares no fim da vida
O álbum ‘A Mulher do Fim do Mundo’ (2015) redefiniu a imagem pública da cantora e deu forma explícita à dimensão política que sempre atravessou sua vida e sua obra
Quando Elza Soares lançou o álbum A Mulher do Fim do Mundo (2015), aos 85 anos, a cantora dava mais uma reviravolta na sua carreira – a última, mas derradeira.
Foi o seu primeiro disco só de músicas inéditas. O trabalho, produzido por Guilherme Kastrup, trazia moderna sonoridade e canções de contestação e representatividade racial. Reuniu 11 faixas entre o samba, o rock e experimentações eletrônicas. As letras abordavam violência doméstica, feminismo, sexualidade, negritude e transexualidade.
É esse momento de transformação que a jornalista Lígia Moreli examina no recém-lançado Elza Soares: Insurreição na Garganta (Edições Sesc São Paulo, 160 páginas). Mestre em Comunicação e Semiótica e gestora de comunicação do Sesc São Paulo, a autora investiga a construção da estética política assumida pela cantora na etapa final de sua trajetória.
Elza Soares veio do “planeta fome”, como disse num programa de calouros, quando tentava a sorte na música, em 1953. A menina nascida numa favela da Zona Oeste do Rio de Janeiro, que perdeu aos 15 anos um filho (o segundo) em decorrência de inanição e sofreu violência doméstica e muito preconceito, teve altos e baixos na música e na vida.
Já na maturidade, reinventou-se a partir do disco Do Cóccix Até o Pescoço (2002). Mas foi em A Mulher do Fim do Mundo (2015) que o trabalho da cantora ganharia uma forte estética política – de acordo com o livro – ao interpretar canções insurgentes, num misto de revolta e celebração do poder feminino e negro.
Elza Soares viveu muitas transformações ao longo da vida, mas a análise de Lígia Moreli é agregadora porque, de fato, a cantora acabou ganhando maior relevância política neste século. Isso, no fim, valorizou uma trajetória de vida que sempre foi política (a biografia de Elza é uma sucessão de interferências do nosso sistema de poder), mas que não havia se manifestado tanto quanto nos últimos anos de sua existência.
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