Augusto Diniz | Música brasileira
Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.
Augusto Diniz | Música brasileira
A academia deveria focar mais na oralidade, diz o pesquisador de música Ivan Vilela
A falta de registros históricos e o grafocentrismo dificultam o conhecimento da herança cultural brasileira
O livro História e Cultura no Som da Viola – Ensaios e Relatos sobre Cultura Popular (Ateliê Editorial), do compositor, violeiro, pesquisador e professor da USP Ivan Vilela, ganhou recentemente sua segunda edição. O autor, além de apresentar as relações sociais da viola em Portugal e no Brasil, se aprofunda na história do instrumento em território brasileiro.
“A viola era um instrumento do povo (em Portugal). E quando chega ao Brasil, mantém essa característica”, disse Vilela em entrevista a CartaCapital.
Esse traço dificultou o registro da história da viola no Brasil, uma vez que muitos escritos do passado partem das práticas culturais do colonizador, não da vida do “cidadão comum”.
No período imperial, o violão substituiu a viola nas cidades, a partir da chegada da família real ao Brasil, explica Vilela.
Com a República, houve intencionalmente, de acordo com o pesquisador, um foco no ensino a partir do que havia em texto, com um “apagamento do mundo da oralidade” até então existente — que estava em poder da população mais pobre. Somente no século seguinte, com as primeiras gravações da música caipira, é que o País começou a dar importância à viola.
Para entender a história da viola desde a chegada dos portugueses ao Brasil, Vilela reuniu informações dispersas de costumes, culinárias, falas, gravuras e jornais da época. Para ele, não só a história da viola no Brasil se perdeu no tempo, mas também a cultura popular, cuja base é a tradição oral.
“No momento em que as universidades foram instituídas no Brasil, não havia material escrito, apenas experiências”, ressalta. Segundo Vilela, somente no fim do século passado é que a academia passou a estudar com mais atenção a oralidade musical transmitida pelos antepassados.
O pesquisador ainda identifica nas universidades uma cultura grafocêntrica no estudo da música. “Quando se estuda música popular na universidade, lê-se textos de pessoas que estudaram o disco. Mas por que o estudante não pode escutar o disco antes?”
Ivan leciona história popular de música e seu método privilegia a escuta antes da leitura, para extrair a percepção inicial. Ouvir o registro fonográfico, portanto, é fonte primária.
“A música não está descolada da história da sociedade. Ela é um fruto da sociedade, então não tem como entender a música se não souber a história daquele período em que ela brota”, sustenta. “É claro que texto é importante, mas ele deve vir depois. Vamos escutar a música primeiro para ver se a gente concorda com o que está escrito.”
Ivan Vilela prepara agora um livro sobre o Clube da Esquina, marco musical no País e objeto de seus estudos.
Assista à entrevista de Ivan Vilela a CartaCapital:
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