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Yasmin Nigri: “A poesia é exigente.”

A Redoma de Livros por Clarissa Wolff,Cultura

“A única pessoa que eu conheci através da poesia fui eu”, fala Yasmin Nigri. Seu livro de estreia, Bigornas, foi publicado no ano passado pela Editora 34 e abraçado pela crítica. Aqui, ela conta sobre sua relação com poesia e arte.

CartaCapital: Como você começou a escrever e como decidiu se dedicar à carreira?

Yasnin Nigri: Escrevi diversos diários com intervalos cada vez mais longos e abandonei todos. Eles se tornaram insuportáveis quando percebi que não havia, nem nunca haveria, valor literário naquela escrita. Ao 14 anos eu li Platão pela primeira vez e decidi que dedicaria o resto da minha vida à filosofia. Pra mim, ler sempre foi mais importante do que escrever. A poesia só entrou na minha vida em 2015 e desde então encontrei minha forma de expressão. Poesia e filosofia são dois modos de ser da verdade que se complementam, eu não saberia viver sem nenhuma das duas. Não sei se foi uma decisão, mas aconteceu.

CC: Para uma nova autora, a publicação é uma validação bastante grande. Como aconteceu o seu processo de publicação?

YN: Eu sou uma exceção. Seis meses depois de escrever meu primeiro poema resolvi juntar o material que eu tinha e comecei a enviar por e-mail pra diversas revistas digitais que eu acompanhava. Quase tudo foi publicado integralmente. Eu continuei mandando e continuaram publicando. Diversos convites foram surgindo. Eu não queria publicar um livro até ter um projeto que satisfizesse meus próprios critérios, e foram vários.

Muitas pessoas me ajudaram nesse processo. Uma delas foi o Cide, que leu meus poemas na internet e me adicionou no Facebook. Nós já trocávamos escritos quando eu mostrei a ele aquilo que eu chamava de projeto de livro. Ele ficou interessado e começamos a trabalhar juntos. Um tempo depois ele perguntou se podia mostrar o projeto pra um amigo, esse amigo mostrou pra outra amiga e assim sucessivamente. O resultado disso foi a participação na antologia 50 Poemas de Revolta (Cia das Letras, 2017) e o meu livro de estreia, Bigornas (Editora 34, 2018). Quando eu comecei tinha zero contatos no meio.

CC: Por que poesia e não prosa?

YN: Conheci diversos personagens por meio da prosa, fiquei amiga e órfã de muitos. A única pessoa que eu conheci através da poesia fui eu.

“Bigornas”, Yasmin Nigri

Editora34

120 páginas

R$ 36

 

 

 

CC: A poesia por muito tempo foi considerada muito elitista. Com o surgimento de Instapoetas como Rupi Kaur, isso está mudando. Como você vê esse fenômeno e o preconceito contra esse tipo de literatura?

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YN: Poesia não é elitista. Samba é poesia pura. Acontece que a sensibilidade poética não é algo a priori, ela tem de ser desenvolvida. Cada um é responsável pela própria experiência e toma da arte apenas aquilo que tem em si. A poesia é exigente. Quanto maior o contato com os diversos meios de expansão da realidade maior a capacidade de sentir e ser afetado por imagens poéticas. O processo de refinamento dos sentidos precisa começar de algum lugar. Eu acredito que os instapoemas possam ser a porta de entrada para drogas mais pesadas, risos.

CC: Você já sofreu esse tipo de preconceito na sua arte?

YN: Não. Eu costumo brincar que para uma mulher eu sou bastante respeitada.

CC: Como é seu processo criativo do poema? Como você sabe que ele está pronto?

YN: Nunca sei, por isso a presença do editor é fundamental na minha vida.

Escrita não é só talento, é treinamento.

CC: A vida dos jovens adultos e seus dramas pessoais são um grande tema do que você escreve. O quanto sua escrita reflete sua vida? 

YN: Eu minto o tempo inteiro e, no entanto, tudo que eu escrevo reflete a minha experiência de mundo. Minha única certeza é que o eu escrevo sabe mais sobre mim do que eu sei sobre o que eu escrevo.

CC: O que você diria para alguém que quer escrever poesia?

YN: Nada disso é garantia, mas vou dar alguns palpites. Eu diria leia. Leia muito. Traduza se souber outras línguas. Acompanhe o trabalho dos seus contemporâneos. Pesquise. Estreite relações com todas as formas de arte. Dialogue. Reproduza procedimentos, busque críticas, aceite as crítica, reescreva, revise, não tenha medo de jogar fora seus escritos. Paciência e humildade.

Escrita não é só talento, é treinamento. Nem tudo o que se versifica é poema. A poesia é, antes de qualquer coisa, uma experiência de mundo, um dos modos de saber que não passam pela razão. É preciso afinar os sentidos.

CC: Você tem algum projeto novo em andamento?

YN: Parece que sim, mas ainda é muito cedo pra afirmar.

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Escritora, autora do romance "Todo mundo merece morrer" (Verus, Grupo Editorial Record - 2018) e participante da antologia "Tragédias brasileiras" (Coleção Identidade Amazon - 2019).

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