A Redoma de Livros por Clarissa Wolff

Retrato do viciado quando filho: “Pretérito Imperfeito”, de B. Kucinski

A narrativa furiosa, mesmo que racional, fala de vício, adoção e paternidade

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Um dia, o jornal The Guardian perguntou pra Christiane F., a drogada mais famosa do mundo, se ela se arrependia de ter começado a usar a heroína. É uma pergunta que parece óbvia: hoje ela tem hepatite, cirrose, vive com dores e inflamação nas veias, os órgãos apresentam problemas atrás de problemas e ela continua dependente de metadona pra se manter – na maior parte do tempo – longe da heroína.

Apenas heroína, porque cocaína, muito álcool e outras drogas permanecem na sua rotina. Diferente de outros junkiestars, para usar o termo que a mídia internacional usa para falar de Christiane, ela não tinha um grande talento como o de Keith Richards ou Kurt Cobain. Por isso, a resposta que ela deu não foi tão óbvia: “Heroína é parte de quem eu sou, como poderia me arrepender? Ela me fez rica, me fez famosa. Eu viajei no jatinho do David Bowie, e tudo por causa dela.”

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Falar de vício ainda é complicado. Quando a lista de grandes artistas pode ser dividida pelo tipo de droga que usavam, é fácil entender porque Cazuza cantava “Meus heróis morreram de overdose”. Em “A doença como metáfora”, Susan Sontag explica que o câncer assume o lugar que pertencia à tuberculose, por causa dos mistérios envolvendo a doença.

São as dúvidas que levam a doença a ter esse status – de tabu, de morte, e de glamurização. Nesse sentido, o vício viveria no mesmo pedestal, tanto no céu quanto no inferno. Estatísticas indicam que só 10% das pessoas com problemas de drogas recebem tratamento e que a taxa de sucesso é de 30%, em que sucesso significa completar o programa na reabilitação.

O vício é uma condição crônica em que recidivas não são só aceitas como esperadas. Mas o consenso que vem surgindo é que o vício não é, sozinho, a doença: a maioria esmagadora dos adictos usa drogas como medicação, mesmo que inconscientemente, para seus próprios traumas.

Trauma é uma palavra curiosa. Embora signifique em termos médicos algum tipo de lesão músculo-esquelética, geralmente evoca no imaginário popular situações que ocorreram na infância que vão desde abuso sexual a problemas de saúde e abandono.

O trauma que se relaciona com o vício não é tão fácil de pontuar: depressão, TOC, ansiedade generalizada e outros distúrbios mentais, também crônicos, muitas vezes funcionam como causa subjacente do uso de drogas.

No caso do filho do narrador de “Pretérito imperfeito”, de B. Kucinski, o trauma era fácil de identificar: adotado à brasileira, ou seja, de forma ilegal, ele teve problemas sérios de saúde na primeira infância que foram responsáveis por tratamentos que sozinhos já seriam traumáticos. A derrocada até as drogas não é elaborada ou explicada no livro: a história não é sobre ele.

Diferente de Christiane F. e outros adictos que narraram a própria história em uma tradição literária já consolidada, como é o caso de Bill Clegg e James Frey, o viciado aqui não tem voz nenhuma. Sua história é contada por seu pai, o narrador, que se vê obrigado a cortar todos os laços, em algum momento, com o filho que escolheu para si.

Começando com uma carta em que termina a relação entre eles, a história percorre em pulos cronológicos todas as impressões desse pai sobre o seu filho, em uma investigação emocional e desestruturada sobre o passado em família e, em certo nível, do futuro. Com quase 40 anos, esse filho ainda vive em um equilíbrio delicado – como é o caso da maioria dos adictos pro resto da vida -, a milhares de quilômetros de distância.

A distância é interessante. Fisicamente, ela é a responsável por finalmente aproximar os laços desatados dessa família. Mas é a distância emocional e genética, cultivada à despeito dos esforços dos pais, que faz florescer a sequência de eventos de tudo o que acontece. E é com uma nova tentativa de distância, também emocional, que o narrador encara todas as pequenas mortes simbólicas que marcaram sua experiência com a paternidade.

Se entender o vício de um ponto de vista médico ainda é desafiador, sobra a arte pra resolver o problema da compreensão. As narrativas de vício podem fugir aos sentimentalismos baratos de uma superação em que tudo acontece bem no final, mas é impossível que fujam aos clichês.

Os viciados, diferentes dos outros tipos de doentes, são todos iguais, e essa é um dos fundamentos em que o NA é construído. A identificação e, principalmente, a conexão com o outro é talvez o ponto mais importante do processo de tratamento. Da visão de quem está em volta, também existem confluências óbvias demais para que sejam ignoradas – o medo, a negação, a impotência, o desespero.

É o que Kucinski faz com os sentimentos que torna esse livro um relato furioso, mesmo que controlado e bastante racional, da experiência de ver alguém que você ama sumir aos poucos e ser engolido por um monstro que não consegue ser bem definido.

 

preteritoimperfeitobkucinski

PRETÉRITO IMPERFEITO, B. Kucinski

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 152

Preço: R$39,90

E-book: R$27,90

 

 

Não é surpreendente, portanto, descobrir que o livro se trata de uma auto-ficção baseada em fatos muito reais. Embora não seja dada a sentimentalismos, a emoção presente, mesmo racionalizada de forma intelectual, emana um tipo de dor que insiste em fugir do controle da mente.

A capa, um ser humano rascunhado sobre um fundo chapado de vermelho, parece a imagem perfeita do que o livro tenta mostrar: o vício não existe como algo bem delimitado, com uma cara definitiva, com uma definição adequada do que é e pra onde vai. E o viciado, vítima de si mesmo, perde os contornos humanos.

O final, como toda história de vício precisa, só pode ser aberto. E a epígrafe, que inaugura essa epopeia sobre a natureza humana, é a tradução perfeita da verdade máxima que Kucinski transpira em cada página: “quando se aprende a viver, é tarde demais.”

É verdade. Não existe uma narrativa feliz sobre vício, uma própria morte em vida. O que existe – e que coisa mais linda é isso, não é? – é um dia de cada vez.

Ninguém pode pedir mais.

CartaCapital
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