A Redoma de Livros por Clarissa Wolff

Liane Moriarty e a tal da “literatura feminina”

A diferenciação feita pelo mercado ao tratar de livros de e sobre mulheres

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Monique Wittig, em um de seus textos feministas, defende a teoria de que existe um só gênero: o feminino, já que ser homem é o padrão. As frases dos livros de história sempre falam de conquistas dos homens, as teorias sobre a condição humana elaboram sobre as motivações dos homens. “Homem” é o coletivo de “seres humanos”, “eles” substitui “eles e elas”. Ser homem é ser normal. Ser mulher é ter um gênero.

Da mesma forma, a literatura per se é a literatura feita por homens e sobre homens. Quando existe alguma diferença em qualquer um dos fatores – se o personagem principal é do sexo feminino, se quem escreve é uma autora – automaticamente o livro leva a alcunha de “literatura feminina”, porque afinal apenas mulheres se interessariam pelas questões próprias de outras mulheres.

Escrever sobre a condição humana é legitimado na pele de homens. As angústias humanas são traduzidas e validadas quando na pele de personagens do sexo masculino. Porque, no nosso inconsciente coletivo, é dos homens o direito de sentir as coisas profundamente e de refletir sobre elas.

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O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger (que era um abusador, aliás, mas isso é história pra outro dia), traz o protagonista Holden Caulfield refletindo sobre a vida, sua solidão, seu futuro. Se trata de um romance psicológico que discute em grande parte sobre a existência humana. Do outro lado, temos um romance que é considerado alma gêmea de Salinger por alguns estudiosos de literatura, A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath. O livro aprofunda e traduz em imagens fortíssimas a realidade da depressão. Também se trata de um romance psicológico que discute a existência humana.

Salinger é considerado um grande escritor de romances psicológicos, e a literatura que produziu é incontestável. Plath, que nasceu apenas 13 anos depois, é considerada escritora de literatura confessional e sua importância literária é altamente contestada – mesmo ela tendo um Pulitzer Prize e ele não.

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A falsa simetria no mundo artístico entre homens e mulheres não é novidade. Existe um artigo da Pitchfork que analisava essa discrepância no mundo da música: “Homens que trabalham questões sobre arte e se tornam famosos são canonizados quando morrem; mulheres são contestadas, diminuídas. É provável que essa parcialidade ao tratar o assunto seja ligada à noção puritana da ‘mulher artista’, em que a capacidade de ter um bebê indica que ela não deveria e nem poderia mergulhar tão fundo na arte quanto homens. Uma vez, uma pessoa especializada em história da arte me disse lamentar o fato de que Yoko Ono jamais seria tão respeitada quanto seus conterrâneos homens por ser mãe: ‘Mulheres que vivem da arte e colocam seu trabalho em primeiro lugar são vistas como egoístas e negligentes com a família. Homens que fazem a mesma coisa são chamados de gênios consumidos pelo trabalho.’”

Uma pesquisa feita no Brasil em 2013 analisando mais de 250 romances brasileiros a partir da década de 90 revelou que 93.9% dos escritores são brancos e 72.7% são homens. Em relação aos personagens, o cenário é o mesmo: 62.1% são homens; 25.1% das personagens mulheres são donas de casa; apenas 7.9% dos personagens são negros, sendo que só 5.8% são protagonistas e 2.7% narradores.

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Há alguns anos li O Segredo do Meu Marido, que explora a vida de três mulheres de realidades muito diferentes, dramas diferentes e personalidades diferentes, que se cruzam ao decorrer da história. Discutindo gênero e história na trama, Liane Moriarty nos brinda também com estereótipos quebrados, reflexões sobre distúrbios de ansiedade e uma narração irônica em que as próprias personagens são vistas de forma completamente diferente dependendo do ponto de vista que lemos. A capa da edição original, porém, com tipografia arredondada, uma flor e bastante rosa, jamais transpareceria tudo isso.

Depois de ter um livro adaptado como série da HBO nas mãos de Reese Whiterspoon e Nicole Kidman, que acreditaram na história, pode-se perceber um respeito maior por parte do público. Big Little Lies e suas discussões de gênero que são, sim, a voz de uma geração – uma geração de mulheres silenciadas – foi merecidamente um sucesso.

A Editora Intrínseca trouxe seu novo romance, “Nove Desconhecidos”, como quinto lançamento de seu clube literário, o Intrínsecos. É o primeiro livro escrito por uma mulher que faz parte do projeto.

Nesse romance, Moriarty explora a indústria do bem-estar colocando nove estranhos em um spa de luxo, discutindo (e desmanchando) uma série de verdades invisíveis criadas social e individualmente, e mergulhando no que acontece quando uma pessoa acredita que é extraordinária, iluminada.

Fica a pergunta: seriam esses assuntos apenas interessantes para mulheres?

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