Ter postura antirracista é uma obrigação no Brasil

'Quem fugir desta luta não merece ser chamado de cidadão', reflete Esther Solano

João Alberto Silveira Freitas foi espancado até a morte. Foto: Reprodução

João Alberto Silveira Freitas foi espancado até a morte. Foto: Reprodução

Artigo

Barata não, de graça. A carne de João Alberto Silveira Freitas foi de graça. A carne da população negra brasileira exterminada, brutalizada, é totalmente de graça.

 

 

A cena do assassinado de João Alberto é a imagem de um Brasil que se autodestrói em um racismo brutal. Os dois suspeitos, um de 24 anos e outro de 30, foram presos em flagrante. Um deles é policial militar. A Brigada Militar, como é chamada a PM no Rio Grande do Sul, informou que o policial envolvido na agressão era “temporário” e estava fora do horário de trabalho. Ou seja, João Alberto foi morto por um policial militar. Por um PM que fazia bico de segurança privada. Os famosos bicos nos quais os policiais matam e morrem. Os bicos que deveriam ser abolidos se a polícia brasileira passasse por um mínimo processo de modernização e democratização.

Obviamente, o comportamento desse PM é um caso isolado, não representa a corporação, certo? Milhares de casos isolados nunca representam a corporação. Um policial racista, milhares de policiais racistas, jamais uma corporação racista. João Alberto Silveira, um negro morto por um policial. Os números do Atlas da Violência de 2019 indicam que 75% das vítimas de homicídio no País são negras. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública no seu infográfico “Violência e Desigualdade Racial no Brasil”, divulgado no Dia da Consciência Negra de 2020, mostra que os negros são 79% das vítimas das mortes causadas por ações policiais. É isso, os números gritam, esbravejam, mas ainda assim seu grito é ignorado. As matemáticas são evidentes e brutais, mas por que não ignorá-las? O outro segurança da loja é um civil, o que nos leva a outro assunto. Muito se fala da necropolítica, da política da morte do Estado brasileiro, mas devemos falar urgentemente da política da morte, da gestão da letalidade pela segurança privada. A morte do negro é política pública, mas também política privada. Ambos, o policial militar e o civil, são funcionários de uma empresa terceirizada, o Grupo Vector Segurança. Que se saibam os nomes, pois a morte de João Alberto não foi nem uma tragédia nem um acidente, foi um homicídio.

Não é a primeira vez que o Carrefour utiliza a política da morte nos seus estabelecimentos. Em 2019, um vídeo nas redes sociais mostrou um adolescente com a calça abaixada levando golpes de chicote do segurança em uma loja da rede em São Paulo e chocou o Brasil. Em 2020, outra unidade, também em São Paulo, continuou aberta mesmo após a morte de um homem em seu interior. Estes, imagino, também devem ser casos isolados que não representam à companhia. O CEO do Carrefour Brasil, Noël Prioux, foi, inclusive, um dos autores do livro chamado A Empresa Antirracista. Na obra, Prioux escreve: “No Carrefour temos um forte propósito de cuidar e valorizar todas as pessoas, zelando pela boa qualidade das relações que mantemos com todos”. Imagina, o Carrefour tem as mãos limpas, o CEO brasileiro talvez tenha até amigos negros.

Além do Carrefour e dos assassinos, há os espectadores. Será que a mulher que filmou o homicídio pensou em algum momento em parar de filmar e tentar salvar João Alberto? Provavelmente, não, filmar uma cena era mais importante. Ter o vídeo no celular era mais importante que uma vida. O espetáculo era mais importante que a realidade, sobretudo se essa realidade dizia respeito a um corpo negro. Será que os clientes que estavam no Carrefour e que assistiram, passivamente, ao homicídio pensaram em se lançar contra os agressores e parar o massacre? Provavelmente, não. Quem se importa tanto para deixar de assistir e interromper uma morte? É uma morte negra… A omissão e a indiferença, doentes, mórbidas e absolutamente selvagens, dos brasileiros são de uma desumanidade indescritível. Os cidadãos de bem se sentem indignados quando veem vidraças quebradas, mas não se abalam quando encontram um corpo negro quebrado. Que viva a sacra propriedade privada

Não sei muito mais o que escrever. As palavras não bastam, são muito pequenas neste momento. A única coisa que quero dizer é que a luta antirracista é o dever mais urgente de todo aquele que, no Brasil, se considera democrata, humano, aliás. Os partidos do campo democrático devem colocar essa luta no centro inquestionável de seus programas. O antirracismo, no Brasil, é obrigação de todos. Ninguém deve fugir a ela. Quem fugir desta luta não merece ser chamado de cidadão. Um partido que fuja dessa obrigação não merece ser chamado de nada mais que indecente. Neste 2020, o Dia da Consciência Negra foi manchado de sangue negro, mas, no Brasil, todos os dias estão manchados de sangre negro. Sangue barato, sangue de graça.

 

Publicado na edição n.º134 de CartaCapital, em 27 de novembro de 2020.

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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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