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Por que a extrema direita se mobiliza contra o voto feminino?
A propagação de teses mirabolantes, como ‘um voto por família’, é uma reação política ao fato de as mulheres terem se tornado decisivas nas eleições
Por Stella Ferreira Gontijo*
Desde pelo menos 2018, tem crescido a discussão a respeito do papel das mulheres como eleitoras no Brasil. Esse movimento pode ser localizado nos grandes atos do #EleNão, que tinham como pauta principal a oposição à candidatura do então deputado federal Jair Bolsonaro. Esse momento, para a pesquisadora Céli Pinto (UFRGS), pode ser considerado como das maiores manifestações de mulheres na história do Brasil, movimento que reverberou de diversas maneiras: nos movimentos sociais, na sociedade civil, nos partidos políticos, nas candidaturas femininas, na política institucional e nas três esferas de governo.
Não à toa a ministra Rosa Weber, presidente do Tribunal Superior Eleitoral em 2019, institucionalizou a pauta das mulheres na política da Corte, ao instaurar a Comissão Gestora de Política de Gênero, o “TSE Mulheres”, com o objetivo de “atuar no planejamento e acompanhamento de ações relacionadas ao incentivo à participação feminina na política e à participação institucional feminina na Justiça Eleitoral”.
Da mesma forma, a preocupação com o comportamento do eleitorado feminino aumentou. Desde 2022 o monitoramento das eleições tem observado o voto das mulheres, que ao final foi considerado fundamental para a vitória do presidente Lula.
Na pesquisa Datafolha realizada às vésperas do segundo turno de 2022, 55% das eleitoras declaravam voto em Lula e 45% em Jair Bolsonaro. Neste ano o cenário não é diferente. A pesquisa Datafolha de 25 de agosto de 2026 aponta, na intenção de voto espontânea, 32% dos votos femininos para Lula, contra 14% para Flávio Bolsonaro. Este cenário é relevante não apenas pelo fato de as mulheres serem 51,5% da população (IBGE), mas também porque, segundo os dados do TSE, são 53% do eleitorado de 2026.
Os ataques ao voto feminino
Nesse contexto, a ofensiva contra o voto feminino expressa uma reação política ao fato de as mulheres terem se tornado decisivas nas eleições, perceptíveis em duas movimentações no campo da extrema direita, em consonância global.
Primeiro, o questionamento da credibilidade do voto feminino. Para a pesquisadora Tatiana Vargas-Maia (UFRGS) esses ataques “ajudam a mobilizar a base de apoio de partidos de extrema-direita para mantê-los engajados e motivados a votar.”
Esse discurso tem forte veiculação por políticos e influenciadores masculinistas nos Estados Unidos e, aos poucos, tem chegado ao Brasil, sobretudo através da chamada “machosfera”. Um estudo da FGV já identificou grupos no Telegram voltados à disseminação desse ideal.
O argumento central baseia-se nas ideias de “voto familiar” e “democracia familiar” que, combinadas com a misoginia – ou o ódio às mulheres – vinculam a capacidade de escolher um(a) representante às características tradicionalmente vinculadas ao feminino, como emoção, infantilização e questionamento da autonomia. Nesse sentido, reafirma a exclusão feminina dos espaços públicos e decisórios, confirmando a ideia do masculino como superior, dotando os homens de autoridade e poder, ideais que têm crescido com o movimento “RedPill”, alimentado nas redes sociais.
Não por acaso esse questionamento se amplia em um contexto em que o comportamento político e eleitoral das mulheres ameaça e, no caso brasileiro, ajudou a derrotar, projetos conservadores representados por lideranças de extrema direita.
O direito ao voto feminino não decorreu automaticamente da constituição da República brasileira. Pelo contrário, foi negado às brasileiras até 1932, tendo sido conquistado a partir de um longo processo de luta das mulheres, que remonta às sufragistas do século XIX. Mesmo assim, “só permitia que votassem ou fossem votadas as mulheres casadas com o aval do marido ou as viúvas e solteiras com renda própria” (Memorial TRE-GO). Foi em 1934 que essas determinações foram suspensas, mas o voto feminino permaneceu facultativo até 1946.
Essa demora teve efeitos duradouros sobre a representação política das mulheres, agravados pela proeminência masculina e pela ausência histórica de políticas de incentivo às candidaturas femininas. Hoje, apesar de representarem mais de 30% das candidaturas e serem mais da metade do colégio eleitoral, as mulheres são apenas 16% do Congresso Nacional.
Esse cenário demonstra as dificuldades em superar as relações de gênero e patriarcais que organizam a sociedade brasileira, que permanece elegendo majoritariamente homens, escancarando um impasse para os desafios do Brasil contemporâneo.
A mobilização das mulheres da direita
Em segundo lugar, há um movimento, no Brasil dirigido por Michelle Bolsonaro, que organiza um campo eleitoral feminino entre as mulheres evangélicas, a fim de mitigar a vantagem do campo progressista. Visto que apenas 27% dos(as) evangélicos(as) declararam intenção de voto em Lula, contra 43% para Flávio Bolsonaro, existe um potencial de crescimento nesse setor social.
Isso mostra que a extrema direita não rejeita a participação de todas as mulheres. Ao contrário, por meio de um discurso autointitulado “antifeminista”, esse campo reproduz ideais conservadores de feminilidade que envolve concepções de família, maternidade, domesticidade e subordinação. Esses discursos também são mobilizados a partir do ciberativismo, mas, no caso de Michele, sobretudo a partir da articulação com as Igrejas evangélicas, seja por meio do PL Mulher ou de seu recente movimento “Imparáveis”.
Essa disputa pelo voto feminino, em um país cindido, ocorre em um momento em que a crise da democracia tem questionado o papel do Estado e o consenso em torno dele – como tem trabalhado o Prof. Leonardo Avritzer (UFMG). A crise aberta em 2013, durante o governo Dilma Rousseff, expôs a dimensão misógina da reação conservadora brasileira que questiona a legitimidade pública das mulheres.
Ao mesmo tempo em as mulheres da direita cresceram em relevância política, a esquerda tem buscado preservar conquistas asseguradas na Constituição Cidadã de 1988. Esse avanço da misoginia contribui para essa ameaça da democracia, se compreendemos que esta pressupõe ampla participação pública e igualdade de direitos.
Em um momento em que o “pêndulo da democracia” tende às “inversões antidemocráticas”, o voto feminino tornou-se uma trincheira de defesa da democracia. Ele reafirma a autonomia política das mulheres, resiste aos projetos autoritários e, em alguns casos, confronta uma concepção patriarcal de sociedade, representação e autoridade. Mas essa disputa não pode se limitar ao Executivo.
Em 2026, diante de uma eleição decisiva para o Congresso Nacional, é indispensável eleger um Legislativo comprometido com a igualdade de gênero e a participação política das mulheres, questões fundamentais para a defesa da democracia.
* Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFMG e pós-doutoranda na “Cátedra Darcy Ribeiro: soberania, educação e política” (IEAT/UFMG). Foi pesquisadora visitante na New Mexico University (UNM/EUA, Fulbright), é mestre em História Social pela UFF, especialista em Epistemologias do Sul pela CLACSO e licenciada em História pela UFMG.
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