Editorial – O Brasil se tornou um manicômio de proporções continentais

Os responsáveis são inúmeros, desde o exército de ocupação até uma chamada classe média arrogante, feroz e ignorante

Foto: EVARISTO SA / AFP

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Artigo

Não mais tarde do que sábado passado, dia 2 de janeiro, o ex-primeiro-ministro da Itália e comissário para a Economia da União Europeia, Paolo Gentiloni, afirmou seu espanto diante da situação criada pela pandemia no Brasil: “Tenho visto imagens vergonhosas do Brasil – postou Gentiloni –, média da última semana de 36 mil casos e 700 mortos por dia”.

 

 

Os números registrados por Gentiloni já foram largamente superados no espaço de um punhado de dias. O quadro, no entanto, é muito mais sombrio se citássemos a situação criada pelo atraso das vacinações, a começar pela falta de seringas, de agulhas adequadas e até mesmo da própria vacina, que, sabemos, poderá ser qualquer uma entre as já anunciadas pela mídia. Do ponto de vista da guerra à pandemia, verifica-se, sem maiores investigações, o estado lamentável em que vive o País, este infeliz país sem nação, vergonhoso exemplo de irresponsabilidade, descalabro, descaso, à beira da demência.

A pretensão não é espantar os leitores: os cidadãos conscientes já sabem o que se dá de fato. O Brasil de Jair Bolsonaro é apenas o resultado de um longo processo que começa com a colonização predatória, a gerar o latifúndio e quatro séculos de escravidão ainda não encerrada. O ouro mineiro serviu para reconstruir Lisboa, destruída pelo terremoto de 1755, e incentivar as artimanhas do Marquês de Pombal.

Neste exato instante, a viver o retiro forçado pela pandemia, toma-me o súbito impulso de escrever algo a respeito desta contingência. Ainda não sei qual rumo acabarei por seguir, embora me colha a ideia de perseguir dois enredos distintos, relativos a personagens díspares, conquanto ambas castigadas pela desgraça interpretada à luz do alcance de cada qual. De pesadelo trata-se, mas somente um dos protagonistas entende ser o fenômeno exclusivo, isto é, um sonho nefasto a puni-lo, a ele e ninguém mais.

É uma aventura solitária que a outra personagem não hesita em partilhar com todos, sem exceção, ricos e pobres, tanto faz. O desconforto atinge-os aparentemente por igual, mas nem um nem outro se dão conta da essência do pesadelo, da razão mais profunda e tormentosa, ainda assim, por mais áspera que seja a contingência, não percebem a raiz do sentimento aflitivo. Trata-se, para ambos, de um tremor de superfície, quando, de fato, o pesadelo é o próprio país que lhes impõe a cidadania, obviamente inconsciente e impotente como libélula na ventania.

No fundo, até agora atiro a esmo, falta-me o impulso maior para precipitar a escrita. Ainda assim, sinto, entre o fígado e a alma, que cenário algum é mais convincente, mais adequado para o sonho maligno: o País nos prende ao seu chão sem gerar a sensação do pertencimento. Somos ainda, e sempre receio, vítimas de um equívoco. Não nos desvencilhamos da condição de colônia, enjaulados em uma ratoeira em vez de uma simples gaiola. A nossa medievalidade, de terra da casa-grande e da senzala, é o grilhão da maioria. Poucos esticam as redes entre as árvores dos seus jardins.

 

O BOLSONARISMO SERIA O ÚLTIMO CAPÍTULO DE UMA HISTÓRIA DE PROGRESSIVA DEMÊNCIA, OU AINDA SOFREREMOS MAIS?

 

O resto caminha cabisbaixo, curvado sob o peso da sua mochila, inseparável corcova, e aceita qualquer prepotência qual fosse vontade divina. Faltaram os líderes da revolta salutar, a despeito de quem se dizia de esquerda com a boca cheia. As roupas comuns dependuradas nos varais dos morros formam ainda o festival de trapos coloridos a lembrar que na favela é sempre feriado nacional, Orestes Barbosa ensina.

Pela cronologia, Bolsonaro é mais um capítulo. Temo não ser o final, difícil imaginar que possa sê-lo. Impossível, de fato, já que o Brasil se tornou um manicômio de proporções continentais. Os responsáveis são inúmeros, desde o exército de ocupação até uma chamada classe média arrogante, feroz, entregue a uma ignorância compacta e irrecuperável. Sugiro a visão dos programas esportivos a enfeitarem a tevê nativa.

Com andamento capaz de agradar a Ionesco, com seus enredos sem nexo e sem senso, debatem até altíssimas horas da noite os mesmos assuntos com os mesmos argumentos. Ali no meio há dois ou três jornalistas autênticos em lugar de torcedores reunidos na hora do chope, sem contar a presença de alguns profissionais do futebol habilitados a pronunciar sentenças coerentes. De todo modo, a irradiação dos jogos se faz aos berros clangorosos. Mesmo na hora do comentário a catadura permanece fechada, como se do outro lado do vídeo houvesse indômitos contestadores. E lá vem o momento fatídico e o uivo a celebrar o gol estica os “ós” mais eficazmente que os estilingues da minha adolescência, até o mais distante horizonte visível, engolido finalmente por um além insondável.

Enquanto isso, o presidente da República anuncia o País quebrado, e logo admite que não sabe como sair da enrascada.

 

Publicado na edição n.º 1139 de CartaCapital, de 13 de janeiro de 2021

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