Artigo

Dia da Consciência Negra: continuamos sem respirar

‘Neste 20 de Novembro, dia que é nosso, ganhamos como ‘presente’ a morte violenta de mais um corpo negro’, escreve Luana Tolentino

João Alberto Silveira Freitas foi espancado até a morte. Foto: Reprodução
 João Alberto Silveira Freitas foi espancado até a morte. Foto: Reprodução
João Alberto Silveira Freitas foi espancado até a morte. Foto: Reprodução João Alberto Silveira Freitas foi espancado até a morte. Foto: Reprodução

Não era este texto que eu gostaria de escrever. Pouco antes de enviar minha coluna para CartaCapital, deparei-me com a notícia da morte de João Alberto Silveira, homem negro barbaramente espancado por seguranças de uma unidade do Carrefour, em Porto Alegre.

Segundo relatos, no vídeo que não tenho coragem de assistir, João Alberto pede por socorro, clama para que seus algozes brancos, entre eles um policial militar, parem com as agressões. Em vão. O coração de João não bate mais. Lembro das palavras de George Floyd que comoveram o mundo. João Alberto já não consegue respirar. Presos em flagrante, os seguranças irão responder pelo crime de homicídio.

Na segunda, comecei a dedilhar mentalmente o texto que seria publicado hoje. Estava animada com a ideia de traduzir em palavras a esperança que os resultados das eleições trouxeram para mim, apesar do inferno que nos atormenta. Era um texto sobre celebração: “20 de novembro: Dia de celebrar a vitória das vereadoras negras eleitas” – foi o título que escolhi. Entre os nossos ancestrais, a festa também era uma forma de resistência.

Em um país que desde sempre tem como projeto nos exterminar, toda conquista deve ser reconhecida e valorizada. Na falta de espaço para registrar o nome e a trajetória de todas, elegi três jovens mulheres, que ao tornarem-se vereadoras romperam com os signos do racismo, da pobreza, do analfabetismo, do silêncio, questões que ainda marcam sobremaneira a travessia das afro-brasileiras.

Fiz um breve perfil sobre Edenia Alcântara, candidata mais votada entre as vereadoras eleitas em Itaúna-MG. Funcionária efetiva da Prefeitura, a estudante de Gestão Pública já esteve à frente do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres. Ao comemorar a vitória nas redes sociais, Edenia, que tem 30 anos e é mãe de dois filhos, registrou: “A favela venceu!”.

Registrei a trajetória de Jô Oliveira, primeira mulher negra que irá ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de Campina Grande, importante polo industrial da Paraíba. Mestra em Serviço Social pela UEPB, Jô traçou sua caminhada no Movimento Estadual. No seu mandato, pretende levar a plenário pautas que não tinham vez no dia a dia do município.

Registrei ainda o êxito de Carol Dartora, primeira e única negra a vencer as eleições para vereadora em Curitiba, cidade que tem 300 anos. Assim como eu, Carol, que obteve 8.874 mil votos, é professora de História e doutoranda em Educação. Para os próximos quatro anos, ela promete atuar contra a violência racial e pela redução dos preços das passagens que dificultam, sobretudo, a circulação da população periférica pela capital curitibana.

Além de negras, Edenia, Jô e Carol são filhas das políticas públicas de expansão do ensino superior no Brasil, o que evidencia que oportunizar o acesso do povo negro à educação é um dos meios mais eficazes de combater o racismo e garantir a ascensão desse grupo social. A mudança na estrutura racista do nosso país requer a presença de mais pretos e pretas comprometidos com a justiça social nos espaços de poder e decisão.

Infelizmente, o texto precisou ser abortado. Neste 20 de Novembro, dia que é nosso, não posso falar em celebração. Ganhamos como “presente” a morte violenta de mais um corpo negro. O genocídio, que desde o século XIX é um projeto de Estado, segue em curso, sem que haja qualquer medida para que cesse. Tristeza é o que sinto.

Em nota, o Carrefour se limitou a dizer que irá romper o contrato com a empresa responsável pela segurança da rede. Protestos em frente ao hipermercado estão marcados para hoje a tarde. Lembro que essa luta não é somente nossa. Não fomos nós que inventamos o racismo.

Penso nos gritos de João Alberto que não tenho coragem de ouvir. Penso na família, que em razão da Covid-19, não poderá ao menos realizar os rituais de despedida. Mais uma vez, penso nas últimas palavras de George Floyd: estamos cansados. Não conseguimos respirar.

Luana Tolentino

Luana Tolentino
Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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