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Calabar redivivo
Não é certo transformar conflito político em conspiração
Em momentos de qualquer ataque internacional, a primeira obrigação de lideranças políticas brasileiras é defender a soberania nacional. Divergências ideológicas, disputas eleitorais, são inerentes à política. O que não pode acontecer, e que fragiliza a democracia, é transformar conflitos políticos internos em conspiração contra o próprio país.
Ao longo da história, o Brasil foi vítima de traidores da pátria. O alagoano Domingos Fernandes Calabar é um dos mais conhecidos. Durante a invasão dos holandeses ao Nordeste, ele se juntou ao exército inimigo e lutou contra o próprio País, para favorecer o domínio e os negócios dos invasores. O coronel latifundiário e garimpeiro mineiro Joaquim Silvério dos Reis, conhecido como o delator da Inconfidência Mineira, pertenceu ao movimento pela independência e proclamação da República, liderado pelo alferes Tiradentes, mas o traiu em troca do perdão de uma fortuna em dívidas com a coroa portuguesa. O traidor foi responsável pela prisão dos inconfidentes, pelo enforcamento e esquartejamento de Tiradentes.
A essa altura da nossa história, eis que surge do túmulo da ditadura militar a família Bolsonaro. Flávio, Eduardo e o neto do ditador João Figueiredo, Paulo Figueiredo, conspirando com o governo dos Estados Unidos contra nossa soberania, a fim de impor sanções a autoridades, instituições brasileiras e tarifas a nossas exportações, para tentar desestabilizar o governo do presidente Lula.
O comportamento da família Bolsonaro não é de oposição política, que respeita o diálogo e cultiva valores democráticos, mas de golpista, como demonstrou Jair Bolsonaro em 8 de janeiro de 2023. Flávio se comporta como gerente de interesses econômicos estratégicos dos Estados Unidos, no Brasil. Para ele, não importa os danos devastadores à economia e às instituições nacionais. Para ele, não importa o desemprego de milhares de famílias brasileiras, sacrificadas pela gana por poder, a fim de defender os interesses dos norte-americanos no Brasil.
A cronologia dos fatos revela a militância dos falsos patriotas. Em fevereiro de 2025, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo mantiveram encontros com representantes do governo de Donald Trump e defenderam sanções a autoridades brasileiras, especialmente a ministros do Supremo Tribunal Federal. Ao longo dos meses seguintes, diversas declarações públicas de integrantes da família Bolsonaro revelaram a estratégia de arregimentar apoio externo para influenciar a política interna no Brasil.
A obrigação das lideranças políticas é defender a soberania
Após o anúncio das tarifas, em julho de 2025, integrantes do mesmo grupo político classificaram a medida como acertada. Em vez de condenar a decisão do governo dos Estados Unidos, que atingia diretamente empresas, exportadores, trabalhadoras e trabalhadores brasileiros, manifestaram apoio à decisão de Donald Trump de taxar os nossos produtos. No dia seguinte, Flávio Bolsonaro utilizou a comparação com o Japão, derrotado na Segunda Guerra Mundial, para defender que o Brasil deveria se render às pressões norte-americanas, tratando a disputa comercial como uma negociação entre vencedor e vencido. A metáfora foi interpretada por adversários como um sinal de resignação diante de medidas que afetavam a soberania econômica do País. Também foram registradas manifestações públicas nas quais Eduardo Bolsonaro afirmou trabalhar para dificultar iniciativas de diálogo entre representantes brasileiros e autoridades de Washington.
Posteriormente, em entrevista ao podcast Inteligência Ltda., ele e Paulo Figueiredo disseram que a imposição das tarifas havia sido discutida previamente com integrantes do governo Trump antes do anúncio oficial.
As recentes declarações de Flávio Bolsonaro, atribuindo ao presidente Lula a responsabilidade pelo chamado “tarifaço”, imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, são mais um movimento traiçoeiro, desonesto, de quem está desesperado, tentando, com isso, uma narrativa para esconder os rastros da conspiração, da traição à pátria, e jogar um manto sobre o envolvimento dele com o escândalo do Banco Master.
Imagens e áudios, recém-publicados, revelam sua intimidade com Daniel Vorcaro e seus comparsas. Em junho de 2026, o Supremo Tribunal Federal indicou o ministro André Mendonça como o relator do processo que trata especificamente do repasse de 61 milhões de reais de Vorcaro para a produção do filme Dark Horse. Nas investigações, Flávio aparece pedindo dinheiro a Vorcaro. O temor é de que essa caixa de segredos pode revelar mais fatos comprometedores da íntima amizade do senador com o banqueiro. Ou seja, o pré-candidato à Presidência da República, investigado pelo envolvimento com o líder da facção que tramou o maior escândalo financeiro do País e também envolvido com integrantes do governo Donald Trump para articular sanções e tarifas contra o Brasil, se desespera e faz acusações levianas ao presidente Lula na tentativa de se desembaraçar do liame que ele mesmo criou. O impacto na campanha eleitoral pode desmanchar os arranjos de chapas regionais. Desembarques à vista.
Por mais que se esforcem na tentativa de construir narrativas enganosas, a verdade vencerá. Os lugares de Flávio e da família Bolsonaro estão reservados na história ao lado de Domingos Fernandes Calabar e Joaquim Silvério dos Reis como traidores da pátria, por tudo que fizeram e ainda fazem contra o Brasil.
A soberania não pertence a um governo nem a um partido. Ela pertence ao Estado brasileiro e à sociedade. O debate político é legítimo e indispensável, mas jamais deveria ultrapassar a linha que separa a disputa democrática da atuação que possa enfraquecer a capacidade do País de defender sua economia, suas instituições e seus cidadãos perante pressões externas. Nosso dever é defender o Brasil. •
*Advogado, deputado federal pelo PT/CE e ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República.
Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Calabar redivivo’
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