Bom para Bolsonaro, péssimo para o Brasil: assim podemos resumir 2020

'Bolsonaro festeja, enquanto o País lamenta 200 mil mortes e 7 milhões de doentes, a economia afunda e nada anda', escreve Marcos Coimbra

Presidente Jair Bolsonaro. Foto: Sergio Lima

Presidente Jair Bolsonaro. Foto: Sergio Lima

Artigo

Um dia, no futuro longínquo, talvez percebamos que algo de bom aconteceu no Brasil em 2020. Hoje, não dá para ver nada. Foi um ano que começou mal, piorou dramaticamente e termina horroroso. Fizemos uma eleição municipal, mas nem ela trouxe alento. Feita às pressas, acochambrada, com recordes de não participação, sem debates e sem contraditório, só podia dar no que deu, a vitória da Arena e do PFL.  

 

 

Bolsonaro festeja, enquanto o País lamenta 200 mil mortes e 7 milhões de doentes, a economia real afunda e nada anda. Não foi derrubado, manteve azeitados os negócios da família, aproveitou-se dos luxos do poder, o que mais alguém como ele poderia querer?  

A pandemia foi-lhe favorável. De um lado, adiou as cobranças, se não de resultados, ao menos de projetos e planos minimamente consistentes. Ao término do primeiro ano do governo (por assim dizer), as pesquisas mostraram que a paciência dos eleitores com sua incompetência e verborragia estava perto de se esgotar, e parecia que chegaríamos à metade de 2020 com crise aguda de popularidade. 

Com a pandemia, a pauta da opinião pública mudou e sua responsabilidade se diluiu, pois não há nada melhor que uma tragédia mundial para minimizar as falhas de um governante. Continuamos a ter uma economia parada, o desemprego em alta, a renda em queda, sem política de educação, saúde, meio ambiente e tudo o mais. Só que a culpa de Bolsonaro ficou menor. 

De outro lado, a epidemia obrigou-o a fazer o que nunca quis e que seus economistas abominavam: destinar recursos aos mais necessitados, dando-lhes condições de sobrevivência. O trocado que pretendiam dar foi aumentado pelo Congresso e o medo da reação popular fez com que a cobertura do programa crescesse. Assim, surgiu um auxílio emergencial substancialmente maior e mais duradouro, que fez bem à sua avaliação.   

Se olharmos a mais recente pesquisa do Datafolha, realizada agora em dezembro, vemos o saldo de popularidade que o auxílio propiciou: no Nordeste, onde o fenômeno foi mais visível, a reprovação diminuiu de 52%, em junho, para 34%. Como estava em 35% em agosto, parece que o ganho de popularidade foi mesmo de 17 a 18 pontos porcentuais e não subiu nos últimos meses. No total, portanto, considerando o peso do Nordeste na população brasileira, o auxílio teria dado ao capitão entre 4 e 5 pontos porcentuais de melhora na taxa nacional. Ou seja, o auxílio reverteu a tendência de queda que vinha de 2019 e ainda o fez crescer uns pontinhos.      

O que acontecerá com seus números de agora em diante? A epidemia, à medida que o tempo passar, ainda poderá ser usada como desculpa? E o que vai acontecer quando o auxílio for interrompido, pois é insustentável em seu patamar atual de custos, da ordem de 50 bilhões de reais ao mês?  

Mas houve outro ganho para o ex-capitão em 2020: ao longo do ano, em parte em razão de suas reações à pandemia, surgiu um novo tipo de bolsonarismo. Mais irracional, mais xucro, mais ignorante. Menor do que aquele que chegou a existir na eleição de 2018, quando ainda havia quem acreditasse que Bolsonaro era “novo”, “diferente” e “merecia uma chance”, mesmo que fosse “grosseirão”. O ano sepultou essas fantasias, à medida que o governo se revelou um amontoado de generais ridículos, políticos picaretas e burocratas terraplanistas. O que fizeram no enfrentamento do coronavirus, do gasto de milhões em remédios inúteis ao incentivo a comportamentos idiotas, é evidência de sua falta de qualificação. 

Não há mais ilusões a respeito de Bolsonaro. Há quem esteja com ele por pequenos interesses e não precisam disfarçar, como os militares que apenas querem uma boquinha. Há os muito ricos que só esperam lucrar com as jogadas do governo, toleram-lhe a breguice e partem em seus jatos para o conforto de Miami. Há os bilionários da mídia e seus leais funcionários, que se horrorizam com ele, mas não o descartam, pois podem ter de usá-lo para derrotar a esquerda.      

O bolsonarismo renovou-se: quem acompanha e admira o ex-capitão, com tudo que é e representa, é um tipo de gente peculiar. São autoritários, supremacistas, misóginos, detestam pobres, negros, indígenas, homossexuais, mulheres que não aceitam “seu lugar”, artistas. Andam com pistolas na cintura e enfiam o dedo na cara dos fracos. Não usam máscaras e não se vacinam.  

É um equívoco supor que o modesto crescimento da avaliação positiva de Bolsonaro entre os mais pobres seja uma “popularização”. Há gente pobre que pode se parecer com os bolsonaristas de hoje, mas são minoria. Quem o aprovou quando veio o auxílio vai desaprovar quando acabar. 

Tomara que 2021 seja o inverso de 2020: bom para o Brasil e péssimo para Bolsonaro. Feliz Ano-Novo.

Publicado na edição n.º1137 de CartaCapital, de 23 de dezembro de 2020

 

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi e também colunista do Correio Braziliense.

Compartilhar postagem