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Augusto Cury e a fabricação da sensação de maioria

A manipulação digital não envolve apenas desinformação, mas também ampliar artificialmente a dimensão e o alcance de fatos reais

Augusto Cury e a fabricação da sensação de maioria
Augusto Cury e a fabricação da sensação de maioria
Augusto Cury, candidato do Avante à Presidência, antes de debate na 'TV Band', em 23 de agosto de 2026. Foto: Renato Pizzutto/Band
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Eleições 2026

Augusto Cury protagoniza um dos fenômenos mais desconcertantes desta eleição. Em pouco mais de uma semana, ganhou cerca de 2,5 milhões de seguidores no Instagram, ultrapassou a barreira dos 10 milhões, multiplicou seu engajamento e saltou de 2% para 11% das intenções de voto na pesquisa BTG/Nexus. Não se trata de um levantamento isolado. Na Quaest e na Real Time Big Data, o escritor ultrapassou a barreira dos dois dígitos.

Ao mesmo tempo, centenas de influenciadores passaram a publicar conteúdos favoráveis à sua candidatura, muitos deles vindos de universos aparentemente distantes da política.

Naturalmente surgiram suspeitas. Adversários passaram a falar em robôs, coordenação artificial e eventual remuneração de influenciadores. A campanha de Cury nega manipulação, afirma não ter comprado seguidores e sustenta que o fenômeno seria uma “revolução silenciosa” provocada por um eleitorado cansado da polarização.

É importante começar pelo óbvio: suspeita não é prova. Cury já era um escritor de enorme alcance, possuía milhões de seguidores antes de ser candidato e sua exposição televisiva realmente produziu interesse público mensurável. O crescimento das buscas pelo seu nome e sua posterior expansão nas pesquisas demonstram que existe uma dimensão orgânica no fenômeno.

“Mas Cury usa ou não robôs?”

Além disso, reduzir a discussão à essa pergunta talvez seja perder a parte mais importante da história. A política digital contemporânea já não funciona apenas pela oposição entre verdadeiro e falso, humano e máquina, espontâneo e fabricado. Cada vez mais, organicidade e artificialidade podem coexistir no mesmo movimento.

Uma tendência genuína pode ser identificada, acelerada e artificialmente amplificada. Nesse caso, a tecnologia não inventa o fenômeno; aumenta sua velocidade e, sobretudo, sua aparência de inevitabilidade.

Uma auditoria do Sentinela Eleitoral sobre o ecossistema de Cury encontrou precisamente essa ambiguidade. Entre os comentaristas, 14% das contas foram sinalizadas nas faixas de risco comportamental, o menor percentual entre oito ecossistemas políticos pesquisados. Numa amostra de seguidores, porém, a incidência chegou a 24%.

Entre esses seguidores sinalizados, 46% nunca haviam realizado uma publicação, contra apenas 2% entre aqueles classificados como humanos. E somente dez contas apareciam simultaneamente na amostra de seguidores e entre os comentaristas.

Nenhum desses dados autoriza concluir que Cury tenha comprado seguidores ou que os milhões de novos perfis tenham sido artificialmente produzidos. A auditoria nem sequer isolou especificamente a população incorporada durante o crescimento recente.

Mais revelador: entre as contas sinalizadas que efetivamente comentavam, o apoio a Cury era proporcionalmente menor do que entre os usuários considerados humanos. A hipótese simplista de uma tropa automatizada promovendo o candidato nos comentários não se confirmou.

É justamente aí que o caso se torna politicamente interessante. Nas redes sociais, o número de seguidores não é apenas uma estatística. É um sinal social. Dez milhões de seguidores comunicam popularidade, importância, influência e capacidade de mobilização.

Centenas de influenciadores aparentemente independentes falando sobre o mesmo candidato comunicam outra coisa: a sensação de que uma descoberta coletiva está ocorrendo. E quando essa sensação aparece simultaneamente em diferentes nichos, a repetição pode ser interpretada como confirmação espontânea.

A Folha de S.Paulo identificou uma intensa presença de influenciadores promovendo Cury e seu número eleitoral, enquanto adversários passaram a discutir possíveis questionamentos à Justiça Eleitoral. A campanha afirma que se trata de uma rede de adesão espontânea e nega pagamentos irregulares.

Mesmo que toda essa mobilização seja legítima, o fenômeno evidencia uma transformação profunda: a política deixa de disputar apenas aquilo que o eleitor pensa e passa a disputar também aquilo que ele acredita que os outros estão pensando.

A questão fundamental que se coloca

Esse é o território da integridade cognitiva. Durante anos, concentramos a discussão democrática na desinformação: a notícia é verdadeira ou falsa? A inteligência artificial e as novas estruturas de distribuição exigem uma segunda pergunta: a reação social que estamos vendo ao redor daquela informação é realmente espontânea?

Uma opinião verdadeira pode ser artificialmente repetida. Uma candidatura genuinamente popular pode receber uma camada artificial de audiência. Uma rejeição real pode ser ampliada até parecer majoritária. O conteúdo continua verdadeiro; o que muda é a dimensão social percebida ao redor dele.

Há algo particularmente poderoso nessa engenharia. Pessoas não escolhem apenas a partir de programas, discursos ou ideologias. Também observam tendências. Quem está crescendo? Quem parece competitivo? Quem virou assunto? Quem todo mundo está compartilhando?

Na política, percepção de viabilidade produz viabilidade. Uma candidatura que começa a parecer competitiva passa a receber atenção da imprensa, de financiadores, de apoiadores e de eleitores que antes não a consideravam.

O crescimento virtual pode produzir interesse real; o interesse real gera novas pesquisas; a pesquisa produz novas manchetes; as manchetes alimentam novamente as redes. Forma-se um circuito no qual percepção e realidade começam a produzir uma à outra.

É por isso que o fenômeno Augusto Cury merece investigação sem preconceitos e sem conclusões previamente escolhidas. Pode estar ocorrendo uma extraordinária mobilização humana. Pode haver, misturada a ela, alguma camada de amplificação artificial. Pode ainda existir coordenação legítima entre apoiadores e influenciadores.

A percepção de avanço eleitoral importa

Essas hipóteses não são mutuamente excludentes. A verdadeira novidade talvez seja justamente essa: o ambiente digital tornou-se tão híbrido que já não conseguimos separar visualmente, com facilidade, aquilo que nasceu espontaneamente daquilo que foi tecnologicamente potencializado.

A eleição de 2026 pode estar inaugurando uma fase em que candidatos não precisarão apenas conquistar votos. Precisarão conquistar também a percepção de que estão conquistando votos. Essa diferença parece pequena, mas altera profundamente a disputa democrática. Porque uma vez produzida a sensação de crescimento, ela pode transformar-se em crescimento verdadeiro.

A questão que o caso Cury deixa, portanto, é maior que sua candidatura. Quando vemos milhões de seguidores, centenas de influenciadores e uma onda aparentemente espontânea ocupando as redes, estamos olhando para uma sociedade mobilizada ou para uma sociedade parcialmente amplificada por infraestrutura?

Talvez as duas coisas ao mesmo tempo. E é justamente essa possibilidade que deveria nos preocupar. A maior sofisticação da manipulação digital pode não estar em inventar uma realidade falsa, mas em pegar uma realidade verdadeira e fazê-la parecer muito maior do que ela é.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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