Abayomi Juristas Negras e o enegrecimento do sistema de justiça

Coletivo de juristas negras é um dos cinco finalistas do Desafio Lideranças Públicas Negras

Abayomi Juristas Negras

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Artigo,Justiça,Opinião

“Meu corpo não nasceu para senzala sou filha de Alafin oyo Xangô. A liberdade é o meu axé de fala, Kaô Kabecilê kao!”

Lepê Correia

 

Quantas juízas negras vocês conhecem? Quantas procuradoras, promotoras, delegadas, desembargadoras, advogadas. Afinal, quantas juristas negras ocupam espaços estratégicos de poder no Brasil? Respondemos. Menos de 2% dos cargos do sistema de justiça são ocupados por mulheres negras. Enquanto isso, mais de 2/3 da população carcerária do país é de pessoas negras.

E é nesse contexto desigual que nós assumimos a missão de combater estrategicamente o racismo, ofertando capacitação, aperfeiçoamento e treinamento de alta qualidade, de forma a criar condições efetivas de inclusão da população negra em espaços de poder e saber, com foco na ocupação do Sistema de Justiça Brasileiro.

Dentre as nossas ações, destaca-se a Metodologia Abayomi de Aprovação – MADA, que consiste em uma ferramenta de aprendizagem fundada em quatro pilares: o intelectual, que consiste no ensino jurídico e sócio-político, o mental, o físico e o espiritual, que buscam resgatar a identidade e autoestima o povo negro, colaborando para o rompimento de diversas crenças limitantes.

Sabemos que quanto mais somos submetidas a experiências ruins, mais acumulamos uma imagem mental negativa sobre nós mesmas. Se você escuta na infância que não é inteligente o suficiente, muito provavelmente você chegará à idade adulta com algumas convicções inconscientes, como: “eu não consigo aprender” ou “eu não sou boa o bastante”. A grande questão é que, em um país estruturalmente racista e machista, essas crenças são reforçadas por estereótipos sociais que recaem de forma mais intensa sobre as mulheres negras.

Ao longo do acompanhamento da nossa Coletiva, a psicóloga Jussiara Leal identificou que as ressonâncias psicológicas do racismo são evidentes, sendo explicitadas de muitas formas. Em uma avaliação de aspectos da inteligência positiva, realizada com 12 mulheres negras que se preparam para o concurso de magistratura do TJPE, foi constatada uma alta prevalência do estado hipervigilante, definido como um estado de “ansiedade intensa e contínua em relação a todos os perigos que cercam você e em relação a tudo o que poderia dar errado. […] Isso resulta em uma grande quantidade de estresse contínuo que exaure você e os outros”, como explica Chamine.

Além disso, foi encontrada uma ocorrência significativa da prestatividade, que se manifesta de modo prejudicial à individualidade. Segundo Chamine, a pessoa prestativa é compreendida como aquela que possui a necessidade de aceitação e afeto pelos demais, buscando ajudar, agradar, salvar ou elogiar constantemente.

Ainda nessa compreensão, outro desdobramento que se encontra com frequência é a autocobrança excessiva. A imposição de altos padrões de cobrança consigo mesma desencadeiam uma busca constante para alcançá-los, causando muitas vezes frustração, insatisfação e angústia.

Diante desse cenário, nós surgimos como um sopro de esperança ao recuperarmos estratégias ancestrais de aquilombamento e aplicarmos na preparação para concursos públicos. A Abayomi Juristas Negras é quilombo, um quilombo político-jurídico, digital, estratégico, acolhedor e potente, que luta para romper os grilhões que aprisionam as nossas mentes e nos impedem de sonhar.

Nosso trabalho atende pessoas negras de todo o país e vem sendo reconhecido por várias iniciativas, organizações e instituições. Atualmente somos uma das cinco finalistas do “Desafio Nacional Lideranças Públicas Negras”, direcionado às iniciativas que tenham promovido a cultura de equidade racial, gerando a ampliação da entrada e/ou crescimento profissional de pessoas negras no setor.

Esse é um desafio simbolicamente muito importante para nós. Por isso pedimos a você que acesse a página do desafio e vote em nós. Leva menos de 30 segundos. A votação vai até domingo, dia 31/01/2021 e pode ser acessada por esse link: https://forms.gle/WaajdQfwffab2d8S8

É tempo de justiça. E a justiça chegará pelas mãos de mulheres negras. A justiça virá pela espada de oyá, eparrey. Iansã, e pelo Machado de Xangô! Kaô Kabecilê.

Axé,

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Doutoranda em Ciências Jurídico-políticas pela Universidade de Lisboa, em Co-tutoria com a Universidade de Roma/La Sapienza, Mestra e Bacharela em Direito. Integrante do grupo Abayomi Juristas Negras.

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