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A Inteligência Artificial e o custo do atraso institucional

A manipulação algorítmica transformou-se na arma química da era digital: invisível, inodora e letal para o debate público saudável

A Inteligência Artificial e o custo do atraso institucional
A Inteligência Artificial e o custo do atraso institucional
Assim como o antecessor Arthur Lira, o atual presidente da Câmara, Hugo Motta, não parece disposto a mover uma palha para combater a desinformação e o discurso de ódio nas redes – Imagem: iStockphoto e Kayo Magalhães/Agência Câmara
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Eleições 2026

Há anos, quando a Inteligência Artificial ainda era tratada como uma curiosidade tecnológica nos bastidores do poder, eu já aplicava algoritmos e modelos preditivos à complexa engrenagem da comunicação política brasileira. Minha trajetória como pioneiro nessa área não se construiu sobre teorias abstratas, mas sobre a prática acumulada em cases robustos que demonstraram, muito antes da atual febre digital, o poder transformador — e os riscos sistêmicos — dessa tecnologia. Foi justamente essa visão de futuro e a percepção da urgência de um balizamento ético que me levaram a fundar, há pouco mais de três anos, o IRIA — Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial. O Instituto nasceu como uma expressão concreta de uma preocupação institucional: a de que a inovação não pode atropelar a civilidade.

Hoje, ao ver a recente reportagem da CartaCapital sobre a “profissionalização do submundo digital”, não sinto o impacto da surpresa, mas o peso de um diagnóstico confirmado. O que a imprensa agora expõe como uma novidade sombria é, na verdade, o atestado de óbito da nossa inocência institucional. O que antes era uma ameaça latente, mapeada por nós no IRIA, tornou-se uma indústria estruturada, operando nas sombras para corroer os pilares da nossa democracia. Minha jornada em defesa da integridade eleitoral tem sido uma corrida contra um relógio que não para, e o que testemunhamos agora é a evolução predatória do que chamo de synthfakes e da manipulação algorítmica de alta precisão.

Não estamos mais falando apenas de vídeos grosseiros ou áudios mal editados; estamos diante de uma arquitetura de desinformação capaz de mimetizar a realidade com tal perfeição que o discernimento humano torna-se obsoleto. A manipulação algorítmica transformou-se na arma química da era digital: invisível, inodora e letal para o debate público saudável. Ao longo deste tempo, bati às portas do poder alertando que a tecnologia caminha em progressão geométrica, enquanto nossas leis e processos burocráticos rastejam em progressão aritmética. O resultado desse descompasso é o atraso institucional que agora nos cobra o preço. A democracia brasileira permitiu que o vácuo regulatório fosse preenchido pela audácia daqueles que lucram com o caos.

Neste cenário de incertezas, é imperativo reconhecer o valor político, embora tardio,  da postura adotada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta. Sua decisão de priorizar a pauta da regulamentação da IA no Congresso Nacional é um gesto de liderança que merece ser sublinhado. Hugo Motta demonstrou uma sensibilidade estratégica ao compreender que a tecnologia não é um tema setorial, mas uma questão de soberania nacional. Ao pautar o debate com urgência, ele retira o Legislativo da inércia e coloca o Brasil, ainda que tardiamente, na trilha das nações que buscam domesticar o poder dos algoritmos em favor do bem comum. Sua condução é um sopro de lucidez em um ambiente muitas vezes paralisado por interesses menores.

Entretanto, a honestidade intelectual que pauta minha atuação me obriga a um vaticínio amargo: perdemos o timing eleitoral. Por mais que a liderança de Hugo Motta consiga acelerar os marcos legais, o ciclo de 2026 já foi contaminado pela ausência de regras pretéritas. A regulamentação que agora buscamos, embora essencial para o futuro a longo prazo, chega como um colete à prova de balas entregue após o início do tiroteio. As estruturas de manipulação já estão montadas, os modelos de linguagem já foram treinados com o ódio nacional e as redes de distribuição de deepfakes já operam em escala industrial. O atraso na compreensão da gravidade do problema nos deixou vulneráveis.

A integridade eleitoral não se constrói na véspera do pleito; ela é fruto de uma cultura de vigilância e de um arcabouço jurídico que antecipe o dano. O que enfrentaremos nos próximos meses é uma guerra de guerrilha digital onde a verdade será a primeira vítima e, possivelmente, a última a ser resgatada. A sofisticação dos ataques que previ anos atrás agora se materializa em campanhas que não buscam apenas convencer o eleitor, mas destruir a própria noção de realidade. Quando tudo pode ser simulado, nada é acreditável, e é nesse vácuo de crença que o autoritarismo e a manipulação florescem.

Não se trata de ser pessimista, mas de ser realista diante da densidade política do desafio. A regulação da IA deve ser encarada como um pacto civilizatório. Precisamos de mecanismos que garantam a rastreabilidade, a transparência dos algoritmos e a responsabilização severa dos arquitetos do caos. O esforço atual do Congresso, sob a batuta de Hugo Motta, é louvável e necessário para que 2026 não seja o fim, mas o início de uma reconstrução. Contudo, o país precisa entender que a tecnologia não espera por sessões deliberativas ou consensos partidários.

Concluo com a convicção de quem viu o futuro chegar antes do tempo: a batalha pela democracia agora se trava no código-fonte. O reconhecimento da urgência por parte do comando da Câmara é um avanço histórico, mas a lição que fica é a de que, na era da Inteligência Artificial, a omissão é a forma mais rápida de suicídio institucional. O tempo é o nosso recurso mais escasso e, nesta corrida, a democracia brasileira ainda tenta recuperar o fôlego enquanto os algoritmos já cruzaram a linha de chegada. Que a lei que nasce agora seja, ao menos, o alicerce para que as próximas gerações não herdem um deserto de verdades.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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