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A Inteligência Artificial nutre o submundo da guerrilha eleitoral
Negra, idosa, com o biótipo de milhões de donas de casa Brasil afora, Dona Maria é um fenômeno nas redes sociais. Reúne quase 800 mil seguidores no Instagram, 124 mil no Facebook e 32,2 mil inscritos no YouTube. Seu Zé, um nordestino estereotipado, faz um pouco menos de sucesso. Dona Maria é uma antipetista roxa. “Antes das eleições vai ter desabastecimento de combustíveis no País”, vaticina a senhora, a “voz do brasileiro do bem”, em uma das aparições. Seu Zé tem rostos e posições diferentes a cada vídeo. Ora é apresentado, de forma jocosa, como um eleitor “ignorante” do presidente Lula, ora como apoiador de Jair Bolsonaro. No lado petista, o maior sucesso até aqui é o vendedor de legumes Zé da Feira, com 38,6 mil curtidas no TikTok e sempre disposto a dar conselhos a quem compra em sua barraca. “O Bozo e sua turma pediram para os Estados Unidos aumentarem a taxa dos nossos produtos só para tirar o chefe da cadeia, são traidores do Brasil”, avisa. “Bolsomaster, a hora d’ocês chegou. Centro e trinta e quatro milhões de real do bandido Vorcaro estão nas contas do Flávio”, diz em outro momento.
Os três personagens não são reais, mas avatares criados por Inteligência Artificial. O criador de Dona Maria, consta, seria o taxista Daniel Cristiano dos Santos, mas a federação PT-PV-PCdoB desconfia. O trio de partidos recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral e conseguiu derrubar, em 16 de maio, três perfis da “eleitora” no Instagram, mas os conteúdos continuam a circular em outras plataformas digitais. “Estou desconfiada que por trás das remoções tem dedo de empresas ligadas ao PT”, ironiza a dona de casa virtual, ao lado de uma foto da mão de Lula com quatro dedos.
“As pessoas não podem votar em uma mentira”, diz o presidente Lula
Dona Maria e Seu Zé são as novidades visíveis de uma disputa eleitoral infestada pelas milícias digitais. O Observatório das Eleições, formado por um grupo de acadêmicos que monitoram o processo, encontrou ao menos 18 avatares criados por meio da técnica de synthfake, cujo grau de verossimilhança com seres humanos de carne e osso impressiona. O uso massivo e desregulado de IA aumenta os riscos de manipulação em mais uma disputa na qual não está em jogo apenas a principal cadeira do Palácio do Planalto, mas a sobrevivência das instituições. Segundo o presidente do Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial, o sociólogo e marqueteiro Marcelo Senise, a campanha deste ano será “a mais agressiva, cínica, opaca e perigosa da história recente no ambiente digital” (entrevista à pág. 14). O Brasil viverá a primeira eleição presidencial em que a IA poderá ser usada em duas frentes “simultâneas e devastadoras”, alerta o especialista. “De um lado, a IA generativa, que permite fabricar vozes, rostos, falas, cenas e ‘provas’ que nunca existiram. De outro, a IA preditiva, ainda mais perigosa por operar de forma menos visível, mais silenciosa e estratégica.” Como? “Se a IA generativa destrói a fronteira entre fato e fabricação, a IA preditiva faz algo ainda mais grave. Ela permite identificar medos, ressentimentos, vulnerabilidades e predisposições do eleitorado para direcionar ataques cirúrgicos, calibrar discursos tóxicos e explorar emocionalmente segmentos específicos da população com enorme precisão.” A “mentira industrializada” nas duas últimas eleições tende a alcançar novo patamar, a manipulação premeditada do comportamento político em larga escala, baseada em padrões de consumo, reação, linguagem e engajamento.
Kassio Nunes Marques e André Mendonça, ambos indicados ao Supremo por Bolsonaro, beneficiário das mentiras digitais, vão comandar o TSE. O presidente Lula decidiu impor novas regras às big techs – Imagem: SEAUD/PR e Luiz Roberto/TSE
O aumento dos casos relatados de uso da IA para fins políticos nas últimas semanas, ainda em período de pré-campanha, sugere um jogo pesado até outubro. Alertas públicos sobre os riscos trazidos pela IA à lisura da disputa foram feitos tanto pelo presidente Lula quanto pelo ministro Kassio Nunes Marques, eleito para o comando do Tribunal Superior Eleitoral em substituição à colega Cármen Lúcia. Detalhe: Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal por Bolsonaro, terá ao lado no TSE outro aliado do ex-presidente condenado por tentativa de golpe. André Mendonça será o vice na Corte que tem a responsabilidade de garantir a lisura do processo. Durante o lançamento de unidades do Minha Casa, Minha Vida na Bahia, Lula, que dias antes havia estabelecido novas regras para as plataformas digitais, defendeu a restrição do uso de IA durante a campanha. “A manipulação de imagens e vozes favorece os mentirosos. Na eleição, as pessoas têm que votar numa coisa verdadeira, de carne e osso. As pessoas não podem votar em uma mentira.”
Lula disse ter ouvido de Nunes Marques a promessa de proibição absoluta de conteúdos produzidos por IA nos dias antecedentes à votação. Em seu primeiro evento público na presidência do TSE, durante um debate em Brasília, o ministro afirmou que combater as irregularidades e os crimes possibilitados pela nova tecnologia será “um desafio amazônico”, e que a maior ameaça é “a mentira tecnicamente otimizada criada a partir da IA”. Nunes Marques “estará sob vigilância”, de acordo com uma fonte do Judiciário, sobretudo pelo fato de a fábrica de fake news em favor de Bolsonaro na disputa de 2018 ter operado livremente, diante de um TSE debilitado pela tibieza de Rosa Weber, então à frente do tribunal. O magistrado repete, porém, que pretende atuar em uma linha semelhante àquela adotada por Alexandre de Moraes em 2022. Ou seja, estará atento para coibir excessos antes que seja tarde demais. “Que a tecnologia seja instrumento de cidadania, não de manipulação”, discursou.
“A fronteira entre mobilização espontânea e operação profissional ficou mais difusa”, diz Filipe Wesley, da Polijetro
Dias depois da posse de Nunes Marques no tribunal, o governo atualizou, por meio de um decreto, pontos do Marco Civil da Internet. De agora em diante, as plataformas digitais estão obrigadas a remover conteúdos ilícitos após uma simples notificação. As empresas também precisam criar canais efetivos de contestação de conteúdos. O STF pretende analisar em breve recursos apresentados pelas big techs. “Este é um enorme desafio para a garantia da integridade dos processos eleitorais no Brasil e no mundo”, afirma Renata Mielli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet. “Os usuários têm muita dificuldade para distinguir o que é um conteúdo real em vídeos e, principalmente, áudios produzidos por IA generativa.” Deputados e senadores, vários notórios disseminadores de fake news, chamaram as medidas de “censura”.
Cotado para assumir a área jurídica da campanha de Lula ao quarto mandato, o advogado Marco Aurélio de Carvalho compartilha das preocupações do presidente e confia na capacidade do TSE de coibir os abusos. A Corte, diz, “estruturou condições jurídicas robustas para sufocar a ilegalidade na raiz”. Impedir o uso de Inteligência Artificial, prossegue, é fundamental. “Em determinados processos sensíveis como eleições, em que a escolha pode trazer resultados irreversíveis, a IA deveria ser proibida não só nos dias que antecedem a votação, mas durante toda a campanha.”
A governadora em exercício do Distrito Federal, Celina Leão, é um dos tantos alvos dos adversários eleitorais. O jogo é bruto e caro – Imagem: Joel Rodrigues/Agência Brasília
Não é o que acontece. O crescimento das guerrilhas digitais, ainda não mensurado oficialmente pelo TSE, é exponencial e se reflete no mercado com a presença de diversas companhias especializadas em estratégias de “IA de Ataque” ou “IA de Defesa”. Dedicada ao último caso, a Polijetro, empresa que afirma “atuar no combate à manipulação digital e ao uso abusivo de IA por uma razão ética e democrática”, trabalha nestas eleições para pré-campanhas proporcionais e majoritárias em vários estados a partir de uma atuação em três frentes. A primeira é o rastreio automatizado de deepfakes integrado ao monitoramento digital completo da pré-campanha. A segunda é vasculhar os neurobots, redes de contas fantasmas e perfis utilizados em massa para manipular artificialmente o discurso público, amplificar versões ou gerar percepção falsa de apoio popular. A terceira é o cruzamento de dados eleitorais, demografia e histórias emergentes para compreensão do cenário eleitoral em tempo real.
Segundo Filipe Wesley, fundador da empresa, os sistemas de IA para defesa funcionam como centrais permanentes de monitoramento e reação. “Eles acompanham redes sociais, grupos públicos, notícias, vídeos e tendências antes que um problema escale. O mais provável em 2026 é que isso deixe de ser uma ferramenta de comunicação e passe a ser parte central da inteligência estratégica das pré-campanhas.” Wesley, que prefere não divulgar os nomes dos clientes, diz que a guerrilha digital deixou de ser um ambiente improvisado e marginal para se tornar uma operação altamente profissionalizada. “Hoje existem estruturas com monitoramento 24 horas, produção coordenada de conteúdo, tráfego pago, análise de dados, influenciadores e ferramentas de IA trabalhando de forma integrada.” Ao mesmo tempo, a fronteira entre mobilização espontânea e operação profissional ficou mais difusa. “Muitas pré-campanhas operam verdadeiros war rooms digitais, com acompanhamento em tempo real do debate público, identificação de ataques, análise de sentimento e respostas quase instantâneas.”
Para quem pediu socorro a extraterrestres, qualquer manipulação, por mais tosca, tende a funcionar. O terreno é fértil, quem planta, colhe – Imagem: Redes Sociais
A Paes Barbosa Inteligência Artificial em Marketing Político, empresa que afirma ter a missão de “construir campanhas políticas modernas, inteligentes e altamente competitivas utilizando tecnologia, Inteligência Artificial e estratégia avançada para conectar lideranças ao sentimento real da população”, trabalhou em estratégias de IA de Ataque para campanhas como a de Rodrigo Garcia ao governo de São Paulo. Fundador da empresa, Antônio Paes Barbosa Júnior explica que o trabalho se dá em ações de desidratação do discurso adversário, ocupação emocional de pauta, controle de percepção pública e proteção reputacional. E rechaça o uso pejorativo do termo. “Existem dois universos completamente diferentes. Um é o uso legítimo de IA para monitoramento, análise de cenário e resposta rápida. Outro é o uso ilegal de desinformação, manipulação ou ataques coordenados.”
Outras atribuições mais sutis da IA de Ataque, segundo Barbosa, são análise de sentimento, monitoramento de reputação, detecção de histórias negativas, mapeamento de influenciadores, leitura comportamental do eleitor e identificação de temas de alta sensibilidade social, tudo para resposta estratégica em tempo real. “A tendência em 2026 não é somente atacar mais, é atacar com mais precisão. A disputa deixa de ser de volume e passa a ser de precisão psicológica e velocidade.” Nesse aspecto, a IA preditiva, diz o empresário, tende a ser a maior transformação. “Historicamente, as campanhas olhavam o passado: pesquisas, recall, rejeição e intenção de voto. Agora, temos a identificação preditiva para uma melhor precisão sobre as oscilações emocionais do eleitor, as tendências de crescimento ou desgaste e os riscos de crise reputacional. As campanhas anteriores reagiam. Agora nós antecipamos.”
Versados em fake news, os bolsonaristas do Congresso apostam no vale-tudo das redes sociais – Imagem: Saulo Cruz/Agência Senado
Na disputa eleitoral moderna, diz Barbosa, o uso mais sofisticado não é o ataque bruto, mas a exploração de fragilidades de percepção pública dos adversários, como incoerência, desgaste emocional, fadiga de imagem, desconexão popular, excesso de elitização e vulnerabilidade temática. “Hoje, campanha eleitoral não é mais apenas publicidade política. É inteligência estratégica aplicada ao comportamento humano. A política moderna deixou de ser apenas disputa de propostas e passou a ser disputa de interpretação, atenção e sentimento coletivo. O eleitor nem sempre decide apenas pela razão. Muitas vezes decide por identificação, pertencimento, emoção, segurança e representação. A IA ampliou nossa capacidade analítica, mas a estratégia continua a ser essencialmente humana. Dados sem interpretação não vencem eleição.”
Há ainda empresas ou grupos que atuam no submundo da guerrilha digital. Embora muitos afirmem trabalhar com ética, nesse terreno vicejam as desinformações e as fake news. Ouvido por CartaCapital sob a condição de anonimato, um “guerrilheiro digital” que trabalha para Izalci Lucas, do PL, ao governo do Distrito Federal, conta como funciona o trabalho dedicado à desconstrução da adversária Celina Leão, do PP. “O processo costuma passar por algumas etapas. Primeiro fazemos um diagnóstico do adversário e do cenário. Depois uma investigação em fontes públicas, imprensa, redes sociais, documentos oficiais e bases institucionais. Em seguida, cruzamos tudo com o comportamento do eleitorado e transformamos os achados em linhas narrativas, conteúdos, matérias, peças digitais e estratégias de circulação.” Segundo essa fonte, uma operação pequena custa cerca de 500 reais mensais em ferramentas de IA, design, monitoramento, automação e gestão de redes. O custo real de uma operação de desconstrução política regional costuma, no entanto, ir muito além. “Para uma operação estruturada em Brasília, com duração de três a cinco meses, envolvendo equipe, investigação, análise comportamental do eleitorado, produção de conteúdo, impulsionamento digital, ativação de canais, eventual relacionamento com imprensa e gestão de rede de apoio, um orçamento de referência pode chegar a 300 mil reais. O valor, diz, varia conforme o “tamanho” do adversário, o momento da campanha, o grau de exposição pública, o número de canais utilizados e a agressividade da estratégia.
Quanto mais dinheiro, maior o estrago. •
Resposta analógica
O TSE não tem condições de enfrentar sozinho o problema, diz Marcelo Senise
“A resposta é impedir que a tecnologia substitua a verdade política”, diz o especialista – Imagem: Redes Sociais
Enquanto a tecnologia avança de forma exponencial, a resposta institucional caminha em rito processual. Este, diz Marcelo Senise, presidente do Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial, é o maior desafio do Tribunal Superior Eleitoral. “Disposição, acho que tem. Condições plenas, não”, resume o especialista. A IA preditiva amplia os riscos de manipulação a um nível antes impossível, prossegue Senise na entrevista a seguir. “A mentira deixa de ser apenas difundida, passa a ser calculada. A campanha de 2026 pode ser a mais invasiva da história recente, porque combina fabricação de realidade com engenharia preditiva de comportamento.”
CartaCapital: A IA preditiva é o salto mais inquietante desta eleição?
Marcelo Senise: Sem dúvida. Antes, a máquina da desconstrução trabalhava principalmente para distorcer fatos e destruir reputações. Agora, ela pode também prever quais mensagens têm maior chance de ferir, quais temas ativam medo ou raiva, quais públicos são mais suscetíveis à radicalização e quais gatilhos emocionais produzem mais aderência ou rejeição. A mentira deixa de ser apenas difundida, passa a ser calculada. A campanha de 2026 pode ser a mais invasiva da história recente, porque combina fabricação de realidade com engenharia preditiva de comportamento. Quando essas duas camadas se encontram, o que está em risco não é apenas a qualidade do debate público, mas a própria autonomia moral e cognitiva do cidadão diante do processo democrático.
CC: Os grupos de guerrilha digital estão a todo vapor no submundo da campanha, não?
MS: Sim, e é mais significativa e sofisticada do que em ciclos anteriores. O submundo da campanha deixou de ser um território apenas de militância improvisada ou fanatismo espontâneo. Hoje há operação, método, tecnologia e, em muitos casos, dinheiro. Há militantes orgânicos, claro, mas também há núcleos profissionais, operadores que conhecem algoritmo, dinâmica de viralização, linguagem de plataforma, impulsionamento informal e técnicas de saturação narrativa.
CC: Qual é o perfil desses grupos?
MS: Eles combinam radicalização política com oportunismo tecnológico. Muitos não atuam propriamente para persuadir, mas para intimidar, desorganizar, contaminar e constranger. O objetivo central nem sempre é fazer alguém acreditar numa mentira específica. Muitas vezes, é destruir reputações, produzir ruído, sufocar o contraditório e criar um ambiente em
que a verdade chegue cansada e a mentira chegue armada. Essa é a lógica das milícias digitais. Não disputar argumento, mas colonizar o ambiente informacional pelo medo, pela repetição e pela corrosão moral do adversário.
CC: O TSE tem disposição e condições de lidar com a ameaça?
MS: Disposição, acho que tem. Condições plenas, não. A Justiça Eleitoral entendeu a gravidade do problema, reagiu, criou regras para o uso de IA na propaganda e merece reconhecimento por isso. O problema é que disposição, sozinha, não resolve quando a tecnologia avança em velocidade exponencial e a resposta institucional caminha em rito processual. O TSE não tem como enfrentar sozinho a escala, a velocidade e a sofisticação das propagandas ilegais produzidas com IA. Milhões de eleitores dispõem de ferramentas para produzir, de forma espontânea e em larga escala, peças de ataque, distorção e difamação, com resultados imprevisíveis e incalculáveis. O problema não está apenas nas milícias organizadas, mas na pulverização da capacidade de agressão política.
CC: Há espaço para campanhas éticas nesse ambiente?
MS: Sim, mas exige coragem estratégica. A resposta não é abdicar da tecnologia, mas impedir que a tecnologia substitua a verdade política. A IA pode ser ferramenta de análise, monitoramento, organização e defesa. O que ela não pode ser é a nova máscara da manipulação em escala. Em um ambiente saturado por conteúdos artificiais, a autenticidade passa a valer mais, não menos. A campanha que entender isso antes das outras terá uma vantagem real. As candidaturas, especialmente as majoritárias, terão de criar um departamento de campanha dedicado especificamente à blindagem. Não mais como função acessória da comunicação, mas como uma estrutura permanente de prevenção, monitoramento, resposta rápida, autenticação de conteúdo e proteção reputacional. Quem entra na campanha sem isso, entra vulnerável.
Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘MilícIAs’
Negra, idosa, com o biótipo de milhões de donas de casa Brasil afora, Dona Maria é um fenômeno nas redes sociais. Reúne quase 800 mil seguidores no Instagram, 124 mil no Facebook e 32,2 mil inscritos no YouTube. Seu Zé, um nordestino estereotipado, faz um pouco menos de sucesso. Dona Maria é uma antipetista roxa. “Antes das eleições vai ter desabastecimento de combustíveis no País”, vaticina a senhora, a “voz do brasileiro do bem”, em uma das aparições. Seu Zé tem rostos e posições diferentes a cada vídeo. Ora é apresentado, de forma jocosa, como um eleitor “ignorante” do presidente Lula, ora como apoiador de Jair Bolsonaro. No lado petista, o maior sucesso até aqui é o vendedor de legumes Zé da Feira, com 38,6 mil curtidas no TikTok e sempre disposto a dar conselhos a quem compra em sua barraca. “O Bozo e sua turma pediram para os Estados Unidos aumentarem a taxa dos nossos produtos só para tirar o chefe da cadeia, são traidores do Brasil”, avisa. “Bolsomaster, a hora d’ocês chegou. Centro e trinta e quatro milhões de real do bandido Vorcaro estão nas contas do Flávio”, diz em outro momento.
Os três personagens não são reais, mas avatares criados por Inteligência Artificial. O criador de Dona Maria, consta, seria o taxista Daniel Cristiano dos Santos, mas a federação PT-PV-PCdoB desconfia. O trio de partidos recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral e conseguiu derrubar, em 16 de maio, três perfis da “eleitora” no Instagram, mas os conteúdos continuam a circular em outras plataformas digitais. “Estou desconfiada que por trás das remoções tem dedo de empresas ligadas ao PT”, ironiza a dona de casa virtual, ao lado de uma foto da mão de Lula com quatro dedos.
“As pessoas não podem votar em uma mentira”, diz o presidente Lula
Dona Maria e Seu Zé são as novidades visíveis de uma disputa eleitoral infestada pelas milícias digitais. O Observatório das Eleições, formado por um grupo de acadêmicos que monitoram o processo, encontrou ao menos 18 avatares criados por meio da técnica de synthfake, cujo grau de verossimilhança com seres humanos de carne e osso impressiona. O uso massivo e desregulado de IA aumenta os riscos de manipulação em mais uma disputa na qual não está em jogo apenas a principal cadeira do Palácio do Planalto, mas a sobrevivência das instituições. Segundo o presidente do Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial, o sociólogo e marqueteiro Marcelo Senise, a campanha deste ano será “a mais agressiva, cínica, opaca e perigosa da história recente no ambiente digital” (entrevista à pág. 14). O Brasil viverá a primeira eleição presidencial em que a IA poderá ser usada em duas frentes “simultâneas e devastadoras”, alerta o especialista. “De um lado, a IA generativa, que permite fabricar vozes, rostos, falas, cenas e ‘provas’ que nunca existiram. De outro, a IA preditiva, ainda mais perigosa por operar de forma menos visível, mais silenciosa e estratégica.” Como? “Se a IA generativa destrói a fronteira entre fato e fabricação, a IA preditiva faz algo ainda mais grave. Ela permite identificar medos, ressentimentos, vulnerabilidades e predisposições do eleitorado para direcionar ataques cirúrgicos, calibrar discursos tóxicos e explorar emocionalmente segmentos específicos da população com enorme precisão.” A “mentira industrializada” nas duas últimas eleições tende a alcançar novo patamar, a manipulação premeditada do comportamento político em larga escala, baseada em padrões de consumo, reação, linguagem e engajamento.
Kassio Nunes Marques e André Mendonça, ambos indicados ao Supremo por Bolsonaro, beneficiário das mentiras digitais, vão comandar o TSE. O presidente Lula decidiu impor novas regras às big techs – Imagem: SEAUD/PR e Luiz Roberto/TSE
O aumento dos casos relatados de uso da IA para fins políticos nas últimas semanas, ainda em período de pré-campanha, sugere um jogo pesado até outubro. Alertas públicos sobre os riscos trazidos pela IA à lisura da disputa foram feitos tanto pelo presidente Lula quanto pelo ministro Kassio Nunes Marques, eleito para o comando do Tribunal Superior Eleitoral em substituição à colega Cármen Lúcia. Detalhe: Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal por Bolsonaro, terá ao lado no TSE outro aliado do ex-presidente condenado por tentativa de golpe. André Mendonça será o vice na Corte que tem a responsabilidade de garantir a lisura do processo. Durante o lançamento de unidades do Minha Casa, Minha Vida na Bahia, Lula, que dias antes havia estabelecido novas regras para as plataformas digitais, defendeu a restrição do uso de IA durante a campanha. “A manipulação de imagens e vozes favorece os mentirosos. Na eleição, as pessoas têm que votar numa coisa verdadeira, de carne e osso. As pessoas não podem votar em uma mentira.”
Lula disse ter ouvido de Nunes Marques a promessa de proibição absoluta de conteúdos produzidos por IA nos dias antecedentes à votação. Em seu primeiro evento público na presidência do TSE, durante um debate em Brasília, o ministro afirmou que combater as irregularidades e os crimes possibilitados pela nova tecnologia será “um desafio amazônico”, e que a maior ameaça é “a mentira tecnicamente otimizada criada a partir da IA”. Nunes Marques “estará sob vigilância”, de acordo com uma fonte do Judiciário, sobretudo pelo fato de a fábrica de fake news em favor de Bolsonaro na disputa de 2018 ter operado livremente, diante de um TSE debilitado pela tibieza de Rosa Weber, então à frente do tribunal. O magistrado repete, porém, que pretende atuar em uma linha semelhante àquela adotada por Alexandre de Moraes em 2022. Ou seja, estará atento para coibir excessos antes que seja tarde demais. “Que a tecnologia seja instrumento de cidadania, não de manipulação”, discursou.
“A fronteira entre mobilização espontânea e operação profissional ficou mais difusa”, diz Filipe Wesley, da Polijetro
Dias depois da posse de Nunes Marques no tribunal, o governo atualizou, por meio de um decreto, pontos do Marco Civil da Internet. De agora em diante, as plataformas digitais estão obrigadas a remover conteúdos ilícitos após uma simples notificação. As empresas também precisam criar canais efetivos de contestação de conteúdos. O STF pretende analisar em breve recursos apresentados pelas big techs. “Este é um enorme desafio para a garantia da integridade dos processos eleitorais no Brasil e no mundo”, afirma Renata Mielli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet. “Os usuários têm muita dificuldade para distinguir o que é um conteúdo real em vídeos e, principalmente, áudios produzidos por IA generativa.” Deputados e senadores, vários notórios disseminadores de fake news, chamaram as medidas de “censura”.
Cotado para assumir a área jurídica da campanha de Lula ao quarto mandato, o advogado Marco Aurélio de Carvalho compartilha das preocupações do presidente e confia na capacidade do TSE de coibir os abusos. A Corte, diz, “estruturou condições jurídicas robustas para sufocar a ilegalidade na raiz”. Impedir o uso de Inteligência Artificial, prossegue, é fundamental. “Em determinados processos sensíveis como eleições, em que a escolha pode trazer resultados irreversíveis, a IA deveria ser proibida não só nos dias que antecedem a votação, mas durante toda a campanha.”
A governadora em exercício do Distrito Federal, Celina Leão, é um dos tantos alvos dos adversários eleitorais. O jogo é bruto e caro – Imagem: Joel Rodrigues/Agência Brasília
Não é o que acontece. O crescimento das guerrilhas digitais, ainda não mensurado oficialmente pelo TSE, é exponencial e se reflete no mercado com a presença de diversas companhias especializadas em estratégias de “IA de Ataque” ou “IA de Defesa”. Dedicada ao último caso, a Polijetro, empresa que afirma “atuar no combate à manipulação digital e ao uso abusivo de IA por uma razão ética e democrática”, trabalha nestas eleições para pré-campanhas proporcionais e majoritárias em vários estados a partir de uma atuação em três frentes. A primeira é o rastreio automatizado de deepfakes integrado ao monitoramento digital completo da pré-campanha. A segunda é vasculhar os neurobots, redes de contas fantasmas e perfis utilizados em massa para manipular artificialmente o discurso público, amplificar versões ou gerar percepção falsa de apoio popular. A terceira é o cruzamento de dados eleitorais, demografia e histórias emergentes para compreensão do cenário eleitoral em tempo real.
Segundo Filipe Wesley, fundador da empresa, os sistemas de IA para defesa funcionam como centrais permanentes de monitoramento e reação. “Eles acompanham redes sociais, grupos públicos, notícias, vídeos e tendências antes que um problema escale. O mais provável em 2026 é que isso deixe de ser uma ferramenta de comunicação e passe a ser parte central da inteligência estratégica das pré-campanhas.” Wesley, que prefere não divulgar os nomes dos clientes, diz que a guerrilha digital deixou de ser um ambiente improvisado e marginal para se tornar uma operação altamente profissionalizada. “Hoje existem estruturas com monitoramento 24 horas, produção coordenada de conteúdo, tráfego pago, análise de dados, influenciadores e ferramentas de IA trabalhando de forma integrada.” Ao mesmo tempo, a fronteira entre mobilização espontânea e operação profissional ficou mais difusa. “Muitas pré-campanhas operam verdadeiros war rooms digitais, com acompanhamento em tempo real do debate público, identificação de ataques, análise de sentimento e respostas quase instantâneas.”
Para quem pediu socorro a extraterrestres, qualquer manipulação, por mais tosca, tende a funcionar. O terreno é fértil, quem planta, colhe – Imagem: Redes Sociais
A Paes Barbosa Inteligência Artificial em Marketing Político, empresa que afirma ter a missão de “construir campanhas políticas modernas, inteligentes e altamente competitivas utilizando tecnologia, Inteligência Artificial e estratégia avançada para conectar lideranças ao sentimento real da população”, trabalhou em estratégias de IA de Ataque para campanhas como a de Rodrigo Garcia ao governo de São Paulo. Fundador da empresa, Antônio Paes Barbosa Júnior explica que o trabalho se dá em ações de desidratação do discurso adversário, ocupação emocional de pauta, controle de percepção pública e proteção reputacional. E rechaça o uso pejorativo do termo. “Existem dois universos completamente diferentes. Um é o uso legítimo de IA para monitoramento, análise de cenário e resposta rápida. Outro é o uso ilegal de desinformação, manipulação ou ataques coordenados.”
Outras atribuições mais sutis da IA de Ataque, segundo Barbosa, são análise de sentimento, monitoramento de reputação, detecção de histórias negativas, mapeamento de influenciadores, leitura comportamental do eleitor e identificação de temas de alta sensibilidade social, tudo para resposta estratégica em tempo real. “A tendência em 2026 não é somente atacar mais, é atacar com mais precisão. A disputa deixa de ser de volume e passa a ser de precisão psicológica e velocidade.” Nesse aspecto, a IA preditiva, diz o empresário, tende a ser a maior transformação. “Historicamente, as campanhas olhavam o passado: pesquisas, recall, rejeição e intenção de voto. Agora, temos a identificação preditiva para uma melhor precisão sobre as oscilações emocionais do eleitor, as tendências de crescimento ou desgaste e os riscos de crise reputacional. As campanhas anteriores reagiam. Agora nós antecipamos.”
Versados em fake news, os bolsonaristas do Congresso apostam no vale-tudo das redes sociais – Imagem: Saulo Cruz/Agência Senado
Na disputa eleitoral moderna, diz Barbosa, o uso mais sofisticado não é o ataque bruto, mas a exploração de fragilidades de percepção pública dos adversários, como incoerência, desgaste emocional, fadiga de imagem, desconexão popular, excesso de elitização e vulnerabilidade temática. “Hoje, campanha eleitoral não é mais apenas publicidade política. É inteligência estratégica aplicada ao comportamento humano. A política moderna deixou de ser apenas disputa de propostas e passou a ser disputa de interpretação, atenção e sentimento coletivo. O eleitor nem sempre decide apenas pela razão. Muitas vezes decide por identificação, pertencimento, emoção, segurança e representação. A IA ampliou nossa capacidade analítica, mas a estratégia continua a ser essencialmente humana. Dados sem interpretação não vencem eleição.”
Há ainda empresas ou grupos que atuam no submundo da guerrilha digital. Embora muitos afirmem trabalhar com ética, nesse terreno vicejam as desinformações e as fake news. Ouvido por CartaCapital sob a condição de anonimato, um “guerrilheiro digital” que trabalha para Izalci Lucas, do PL, ao governo do Distrito Federal, conta como funciona o trabalho dedicado à desconstrução da adversária Celina Leão, do PP. “O processo costuma passar por algumas etapas. Primeiro fazemos um diagnóstico do adversário e do cenário. Depois uma investigação em fontes públicas, imprensa, redes sociais, documentos oficiais e bases institucionais. Em seguida, cruzamos tudo com o comportamento do eleitorado e transformamos os achados em linhas narrativas, conteúdos, matérias, peças digitais e estratégias de circulação.” Segundo essa fonte, uma operação pequena custa cerca de 500 reais mensais em ferramentas de IA, design, monitoramento, automação e gestão de redes. O custo real de uma operação de desconstrução política regional costuma, no entanto, ir muito além. “Para uma operação estruturada em Brasília, com duração de três a cinco meses, envolvendo equipe, investigação, análise comportamental do eleitorado, produção de conteúdo, impulsionamento digital, ativação de canais, eventual relacionamento com imprensa e gestão de rede de apoio, um orçamento de referência pode chegar a 300 mil reais. O valor, diz, varia conforme o “tamanho” do adversário, o momento da campanha, o grau de exposição pública, o número de canais utilizados e a agressividade da estratégia.
Quanto mais dinheiro, maior o estrago. •
Resposta analógica
O TSE não tem condições de enfrentar sozinho o problema, diz Marcelo Senise
“A resposta é impedir que a tecnologia substitua a verdade política”, diz o especialista – Imagem: Redes Sociais
Enquanto a tecnologia avança de forma exponencial, a resposta institucional caminha em rito processual. Este, diz Marcelo Senise, presidente do Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial, é o maior desafio do Tribunal Superior Eleitoral. “Disposição, acho que tem. Condições plenas, não”, resume o especialista. A IA preditiva amplia os riscos de manipulação a um nível antes impossível, prossegue Senise na entrevista a seguir. “A mentira deixa de ser apenas difundida, passa a ser calculada. A campanha de 2026 pode ser a mais invasiva da história recente, porque combina fabricação de realidade com engenharia preditiva de comportamento.”
CartaCapital: A IA preditiva é o salto mais inquietante desta eleição?
Marcelo Senise: Sem dúvida. Antes, a máquina da desconstrução trabalhava principalmente para distorcer fatos e destruir reputações. Agora, ela pode também prever quais mensagens têm maior chance de ferir, quais temas ativam medo ou raiva, quais públicos são mais suscetíveis à radicalização e quais gatilhos emocionais produzem mais aderência ou rejeição. A mentira deixa de ser apenas difundida, passa a ser calculada. A campanha de 2026 pode ser a mais invasiva da história recente, porque combina fabricação de realidade com engenharia preditiva de comportamento. Quando essas duas camadas se encontram, o que está em risco não é apenas a qualidade do debate público, mas a própria autonomia moral e cognitiva do cidadão diante do processo democrático.
CC: Os grupos de guerrilha digital estão a todo vapor no submundo da campanha, não?
MS: Sim, e é mais significativa e sofisticada do que em ciclos anteriores. O submundo da campanha deixou de ser um território apenas de militância improvisada ou fanatismo espontâneo. Hoje há operação, método, tecnologia e, em muitos casos, dinheiro. Há militantes orgânicos, claro, mas também há núcleos profissionais, operadores que conhecem algoritmo, dinâmica de viralização, linguagem de plataforma, impulsionamento informal e técnicas de saturação narrativa.
CC: Qual é o perfil desses grupos?
MS: Eles combinam radicalização política com oportunismo tecnológico. Muitos não atuam propriamente para persuadir, mas para intimidar, desorganizar, contaminar e constranger. O objetivo central nem sempre é fazer alguém acreditar numa mentira específica. Muitas vezes, é destruir reputações, produzir ruído, sufocar o contraditório e criar um ambiente em
que a verdade chegue cansada e a mentira chegue armada. Essa é a lógica das milícias digitais. Não disputar argumento, mas colonizar o ambiente informacional pelo medo, pela repetição e pela corrosão moral do adversário.
CC: O TSE tem disposição e condições de lidar com a ameaça?
MS: Disposição, acho que tem. Condições plenas, não. A Justiça Eleitoral entendeu a gravidade do problema, reagiu, criou regras para o uso de IA na propaganda e merece reconhecimento por isso. O problema é que disposição, sozinha, não resolve quando a tecnologia avança em velocidade exponencial e a resposta institucional caminha em rito processual. O TSE não tem como enfrentar sozinho a escala, a velocidade e a sofisticação das propagandas ilegais produzidas com IA. Milhões de eleitores dispõem de ferramentas para produzir, de forma espontânea e em larga escala, peças de ataque, distorção e difamação, com resultados imprevisíveis e incalculáveis. O problema não está apenas nas milícias organizadas, mas na pulverização da capacidade de agressão política.
CC: Há espaço para campanhas éticas nesse ambiente?
MS: Sim, mas exige coragem estratégica. A resposta não é abdicar da tecnologia, mas impedir que a tecnologia substitua a verdade política. A IA pode ser ferramenta de análise, monitoramento, organização e defesa. O que ela não pode ser é a nova máscara da manipulação em escala. Em um ambiente saturado por conteúdos artificiais, a autenticidade passa a valer mais, não menos. A campanha que entender isso antes das outras terá uma vantagem real. As candidaturas, especialmente as majoritárias, terão de criar um departamento de campanha dedicado especificamente à blindagem. Não mais como função acessória da comunicação, mas como uma estrutura permanente de prevenção, monitoramento, resposta rápida, autenticação de conteúdo e proteção reputacional. Quem entra na campanha sem isso, entra vulnerável.
Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘MilícIAs’
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