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Lula lidera com folga no Nordeste, mas enfrenta resistência entre evangélicos
Conter o avanço de Flávio Bolsonaro entre os fiéis é estratégico para preservar a vantagem na região, trunfo essencial para assegurar vitória no âmbito nacional
Por Diego Matheus de Menezes*
O Nordeste teve, em 2022, um importante papel nas eleições presidenciais e, ao que tudo indica, continuará sendo estratégico para a candidatura de Lula (PT). Pesquisas recentes apontam a manutenção da liderança do petista na região, como as divulgadas pela Quaest entre os dias 24 e 29 de agosto, que contemplaram, entre outros estados, Bahia, Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Maranhão e Alagoas.
Dentre esses seis estados nordestinos, em cinco Lula aparece na liderança com mais de 30 pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado, Flávio Bolsonaro (PL), na intenção de voto estimulada para o primeiro turno. A única exceção é Alagoas, onde a diferença entre os dois candidatos é de 15 pontos percentuais a favor do petista.
Contudo, além dos dados gerais de intenção de voto, as variações entre os distintos segmentos do eleitorado ajudam a compreender melhor a disputa eleitoral no Nordeste. Em primeiro lugar, é importante destacar que Lula apresenta na região um desempenho ainda melhor entre segmentos nos quais já obtém bons resultados em âmbito nacional.
Em segundo, a atual força do atual presidente no Nordeste também se manifesta no bom desempenho entre alguns grupos nos quais Flávio Bolsonaro é mais competitivo, como os homens e os eleitores mais jovens. Por fim, a religião não segue esse mesmo padrão e aparece como um importante fator de divisão eleitoral, com variações significativas nas intenções de voto entre católicos e evangélicos.
Divisão religiosa
É entre os evangélicos que a candidatura governista encontra maior resistência e que Flávio Bolsonaro apresenta seu melhor desempenho. Os dados sobre a variação da intenção de voto de acordo com o gênero ajudam a evidenciar as duas primeiras questões. No cenário de primeiro turno, Lula apresenta mais de 50% das intenções de voto entre as mulheres em todos os estados nordestinos pesquisados, com exceção de Alagoas, onde registra 45%.
Ao mesmo tempo, ainda que a diferença entre o primeiro e o segundo colocados seja menor quando considerada apenas a intenção de voto entre os homens, na Bahia, em Pernambuco e no Maranhão, a vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro supera 30 pontos percentuais, enquanto, na Paraíba e no Rio Grande do Norte, é superior a 25 pontos. Alagoas, mais uma vez, destoa do padrão observado nos demais estados, com uma vantagem de 9 pontos de Lula sobre Flávio Bolsonaro entre o eleitorado masculino.
Algo semelhante ocorre em relação à idade do eleitorado. De modo geral, o apoio a Lula cresce à medida que aumenta a faixa etária, enquanto o desempenho de Flávio Bolsonaro diminui. Assim, Flávio apresenta seus melhores resultados entre os eleitores mais jovens, de 16 a 34 anos. Ainda assim, Lula também apresenta desempenho superior ao de Flávio Bolsonaro na maioria dos seis estados justamente nesse segmento.
Entre os mais jovens, Lula mantém vantagem superior a 20 pontos percentuais no Rio Grande do Norte, no Maranhão, em Pernambuco e na Bahia, além de uma diferença de 12 pontos na Paraíba. Em Alagoas, por sua vez, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem em empate técnico, com 38% e 35%, respectivamente.
Destaca-se, portanto, que a principal divisão do eleitorado no Nordeste parece estar relacionada à religião, ao menos nos seis estados pesquisados pela Quaest até 29 de agosto. De modo geral, a tendência de melhor desempenho de Lula entre o eleitorado católico é ainda mais expressiva na região. Por outro lado, embora de maneira menos acentuada em comparação com o cenário nacional, a maior dificuldade do presidente entre os evangélicos também está presente no Nordeste.
No que se refere ao eleitorado católico, Lula lidera as intenções de voto no primeiro turno com ampla vantagem em todos os estados nordestinos pesquisados, superando 50% em Alagoas e na Paraíba e 60% nos demais estados. A distância em relação a Flávio Bolsonaro também é expressiva, variando de 29 pontos percentuais, em Alagoas, a 53 pontos, na Bahia.
Entre os evangélicos, entretanto, o cenário muda significativamente. A vantagem de Lula diminui e, em alguns casos, desaparece ou se inverte. Na Paraíba, os dois candidatos aparecem empatados, com 35% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto, em Alagoas, Flávio Bolsonaro lidera por 23 pontos, com 48% contra 25% de Lula. Mesmo nos estados em que o presidente permanece numericamente à frente, a diferença fica dentro da margem de erro. É o que ocorre na Bahia, em Pernambuco e no Maranhão, onde a vantagem de Lula é de 4, 7 e 9 pontos percentuais, respectivamente.
Esse cenário dialoga com os dados sobre a aprovação do governo Lula, divulgados pelo mesmo conjunto de pesquisas da Quaest. Entre os católicos, a aprovação supera 60% nos seis estados, chegando a 73% no Maranhão e 70% em Pernambuco. Considerando os evangélicos, os dados revelam maior resistência ao governo, visto que a aprovação supera numericamente a desaprovação apenas no Maranhão, no Rio Grande do Norte e em Pernambuco.
Na Bahia e na Paraíba, a desaprovação chega a 53%, diante de 41% e 40% de aprovação, respectivamente. Em Alagoas, a diferença é ainda mais expressiva: 63% dos evangélicos desaprovam o governo Lula, enquanto apenas 31% o aprovam.
Esperança da oposição
Para as candidaturas da oposição, a maior resistência ao atual presidente entre os evangélicos surge como um espaço a ser explorado. Considerando a composição diversificada do eleitorado evangélico, essa estratégia pode, inclusive, contribuir para reduzir a vantagem de Lula em grupos nos quais ele apresenta bons resultados, como entre as mulheres.
Essa aposta parece se refletir já no início da campanha de Flávio Bolsonaro, uma vez que sua primeira visita de campanha ao Nordeste ocorre justamente em Alagoas, estado em que tem performado melhor na região, e inclui a participação em uma convenção estadual da Assembleia de Deus.
Ao mesmo tempo, o desempenho do governo Lula entre os católicos representa um desafio para as candidaturas de oposição, especialmente diante do peso desse segmento na composição religiosa do Nordeste, que corresponde, segundo o Censo de 2022, a 63,9% da população.
Para Lula, manter a vantagem entre os católicos e conter o avanço de seus adversários entre os evangélicos pode ser essencial para garantir uma vantagem robusta na região em um possível cenário de disputa eleitoral mais acirrada no âmbito nacional. De todo modo, a dinâmica da disputa pelo eleitorado religioso no Nordeste deve ser um elemento importante do cenário eleitoral deste ano.
* Doutor em Ciências Sociais pela UFBA. Atualmente é pesquisador de pós-doutorado na “Cátedra Darcy Ribeiro: soberania, educação e política” (IEAT/UFMG).
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