Política

Segurança vira aposta eleitoral no Nordeste, com candidatos divididos entre mais polícia, inteligência e prevenção

Análise de CartaCapital dos programas de governo dos postulantes aos Executivos locais identificou diferentes estratégias para enfrentar o avanço das facções

Segurança vira aposta eleitoral no Nordeste, com candidatos divididos entre mais polícia, inteligência e prevenção
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Divulgação PMBA
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Eleições 2026

Quatro dos cinco estados com as maiores taxas de homicídios estimados do País estão no Nordeste, segundo o Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ceará, Bahia, Alagoas e Pernambuco estão entre os cinco primeiros do ranking. O Rio Grande do Norte também aparece entre os estados com maiores taxas de mortes violentas intencionais, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026.

É neste cenário de violência persistente e expansão do crime organizado que os candidatos aos governos desses estados apresentam suas propostas para a segurança pública nas eleições de outubro. Análise de CartaCapital dos programas de governo dos postulantes aos Executivos locais identificou diferentes estratégias para enfrentar o avanço das facções, com promessas de reforço policial, expansão da inteligência, uso de tecnologia, mudanças no sistema prisional e maior articulação entre forças de segurança.

As diferenças entre os planos ganham outra dimensão quando se considera a forma como o crime organizado passou a atuar na região. Nas últimas décadas, o Nordeste se tornou um corredor estratégico para grandes facções nacionais, que passaram a disputar territórios, rotas de tráfico e mercados ilícitos com grupos surgidos na própria região. O Primeiro Comando da Capital, de São Paulo, e o Comando Vermelho, do Rio de Janeiro, ampliaram sua presença.

No Ceará, por exemplo, PCC e CV estão entre as principais forças do crime organizado, ao lado de grupos locais como os Guardiões do Estado. Em Pernambuco, a atuação de grupos nacionais se mistura a organizações com origem em estados vizinhos.

No Rio Grande do Norte, o Sindicato do Crime mantém protagonismo local em meio à disputa com grupos de alcance nacional. Já Bahia tem um cenário ainda mais fragmentado, com ao menos sete grupos genuinamente baianos convivendo ao lado do PCC, que atua no estado desde 2018.

Alguns postulantes aos governos locais concentram suas propostas na ocupação dos territórios e no aumento do efetivo. Outros priorizam inteligência, tecnologia e integração de bancos de dados. Há ainda quem proponha atingir diretamente o dinheiro das facções, por meio de investigações sobre lavagem de dinheiro, patrimônio e empresas usadas para financiar as organizações.

Um governador pode contratar policiais, equipar delegacias, criar estruturas de inteligência, investir em tecnologia, organizar a Polícia Penal, construir presídios e estabelecer mecanismos de cooperação com outros estados e com a União. Não pode, sozinho, por exemplo, criar crimes, aumentar penas ou modificar regras nacionais de telecomunicações.

Para Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, a campanha eleitoral ainda reproduz parte do repertório tradicional da segurança pública, especialmente entre candidaturas de direita. “Existe um repertório bastante repetido: aumento de penas, endurecimento penal e defesa de uma polícia mais violenta. Essas propostas encontram eco numa população amedrontada, enquanto políticas de segurança que efetivamente funcionam recebem muito menos visibilidade”, afirma.

Segundo o pesquisador, há espaço para uma discussão mais orientada por evidências. Pesquisas do instituto, diz Langeani, mostram que a população prefere policiais mais preparados a simplesmente mais policiais e valoriza investigação, julgamento e punição dos criminosos em vez de uma lógica baseada na letalidade policial.

O especialista também chama atenção para uma frente que aparece de forma desigual nos programas: a violência contra mulheres e outros grupos vulneráveis. “O Brasil conseguiu melhorar diversos indicadores de violência, mas os relacionados às mulheres continuam entre os mais desafiadores”, afirma. Para Langeani, governos estaduais precisam combinar prevenção e repressão qualificada à violência sexual, doméstica e ao feminicídio, além de ampliar mecanismos de proteção e condições para que mulheres consigam romper relações violentas.

A segurança pública virou uma das principais frentes da disputa pelos governos da Bahia e do Ceará – José Cruz/Agência Brasil/Divulgação GOV BA/Tauan Alencar/Comunicação União Brasil/José Wagner/Governo do Estado do Ceará

Ceará

No Ceará, onde a taxa de homicídios estimados chegou a 43,7 por 100 mil habitantes, a segunda maior do País segundo o Atlas da Violência, Ciro Gomes (PSDB), principal rival do governador Elmano de Freitas (PT), concentra sua proposta na ampliação da capacidade do Estado de investigar e ocupar territórios.

O programa prevê aumento e qualificação dos efetivos das polícias Civil, Militar, Científica e Penal, além de presença permanente das forças de segurança em bairros, distritos e municípios. Também propõe uma rede estadual de inteligência que reúna câmeras públicas e privadas, reconhecimento facial, bases de dados e centrais de monitoramento.

Uma das principais apostas do candidato é atingir a estrutura financeira das organizações criminosas, com “unidades especializadas em rastreamento de dinheiro, lavagem de ativos, patrimônio ilícito e empresas de fachada” utilizadas pelas facções. No sistema prisional, Ciro propõe ampliar vagas, bloquear o acesso a celulares e isolar lideranças em unidades de alta segurança.

Delegado Huggo (Missão) apresenta uma proposta de reorganização mais ampla da estrutura de segurança, sugerindo fundir a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social com a Secretaria da Administração Penitenciária e transformar a Polícia Penal em órgão autônomo.

A proposta que mais ultrapassa as fronteiras estaduais é a criação da Agência de Inteligência e Repressão ao Crime Organizado, a ARCO CE-RJ-ES, em parceria com Rio de Janeiro e Espírito Santo. A estrutura teria compartilhamento de informações, gabinetes de crise nas capitais de cada estado e coordenação conjunta para enfrentar organizações com atuação interestadual.

Huggo também propõe um Gabinete Integrado de Reconstrução Territorial, reunindo segurança, habitação, assistência social, saúde e desenvolvimento em áreas dominadas por facções. No sistema prisional, sua principal promessa é a construção de um presídio de segurança máxima com capacidade anunciada de 50 mil internos.

Candidato à reeleição, Elmano de Freitas apresenta um programa de continuidade. A proposta prevê ampliar a Rede Ceará Seguro, o CPRaio e estruturas de inteligência, além de modernizar o CIOPS e integrar câmeras públicas e privadas com ferramentas de inteligência artificial. Também propõe o uso de IA e Big Data para análise criminal e estratégias de descapitalização das organizações criminosas.

Pernambuco

Em Pernambuco, onde a governadora Raquel Lyra (PSD) busca a reeleição, o programa dela segue a lógica de ampliar o Juntos pela Segurança, política criada durante em gestão. A candidata promete recompor efetivos e ampliar a estrutura operacional, com sete novos batalhões da Polícia Militar, um novo BIESP, novas estruturas da Polícia Civil e conclusão da Academia Integrada de Defesa Social.

A tecnologia também ocupa espaço central, com a promessa uma rede estadual de videomonitoramento com IA e reconhecimento automático de placas, com centrais em Recife, Caruaru e Petrolina, duas das maiores cidades do estado. .

Renan Hallais (Missão) parte de um diagnóstico de déficit de pessoal para estruturar sua proposta. O candidato estima uma falta de quase 18,5 mil profissionais de segurança em Pernambuco e estabelece como meta chegar a 85% do efetivo legal ao final do mandato. O programa prevê concursos para as forças de segurança locais e a criação de uma estrutura para acompanhar a capacidade operacional de cada corporação.

Hallais também propõe o SmartPE, sistema de monitoramento inspirado no paulista SmartSampa, com reconhecimento facial, leitura automática de placas e inteligência artificial. Uma das medidas apresentadas pelo candidato, porém, depende de atuação federal: ele propõe que a bancada pernambucana no Congresso Nacional trabalhe pela aprovação de uma política nacional de bloqueio de sinais de telecomunicações em presídios.

João Campos (PSB) recupera em seu programa a lógica do Pacto pela Vida, política implantada em Pernambuco durante o governo de Eduardo Campos, seu pai. A ideia é recolocar o governador no centro da coordenação da segurança, com metas territoriais e acompanhamento permanente dos indicadores.

Sua principal aposta contra as facções é o chamado “Pacto Anti-Facção”. A proposta prevê fortalecer unidades especializadas da Polícia Civil e concentrar o Denarc nas estruturas de tráfico que abastecem e financiam as organizações criminosas. O plano prevê ainda cooperação com a FICCO/PE e com Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Receita Federal, Coaf e estados de divisa. O objetivo é ampliar a capacidade de investigar crimes que ultrapassam as fronteiras de Pernambuco.

Bahia

Considerado um dos temas centrais da campanha local e com desdobramentos para a disputa ao Planalto — o presidente Lula (PT) chegou a ser questionado, em sua entrevista à Globo, sobre os elevados índices de violência no estado que é governado pelo PT desde 2007 — a segurança pública ganha espaço nos planos de governo e na mobilização das campanhas.

De um lado, o plano do candidato ACM Neto (União Brasil), principal herdeiro e representante do carlismo, propõe uma ruptura radical com a gestão atual, centrada na figura do governador como comandante direto das operações. Com o slogan “Mudança com Segurança”, a principal mudança proposta por ACM Neto é a criação da “Governadoria da Segurança”, uma estrutura na qual o governador teria atuação pessoal e direta na coordenação da política, com reuniões semanais de gestão por resultados e metas públicas de redução de crimes.

No combate ao crime organizado, seu plano prevê o bloqueio total de sinal de celular em todos os presídios nos primeiros cem dias de governo, a construção de unidades de segurança máxima para isolar líderes de facções e o fortalecimento da inteligência financeira para confiscar patrimônio do crime.

Do outro, o plano do governador e candidato à reeleição Jerônimo Rodrigues (PT) aposta na continuidade e no aprofundamento das estratégias em andamento, com foco na integração de políticas sociais e no fortalecimento do efetivo policial.

O atual governador tenta exaltar os números positivos da gestão, focando na redução dos homicídios, meta que, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, já registrava queda de 13% em 2025 e superior a 20% no início de 2026. Apesar disso, o estado concentra concentra cinco das 10 cidades mais violentas do Brasil em 2025, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Para combater o calcanhar de Aquiles da gestão, Jerônimo propõe dar continuidade ao “Programa Bahia pela Paz”, articulando ações policiais com iniciativas de garantia de direitos e cidadania, além do fortalecimento das forças de segurança, com a contratação anunciada de mais de 11 mil agentes.

Rio Grande do Norte

O candidato que tenta manter a hegemonia do PT, Cadu Xavier (PT) defende um alinhamento maior com as bandeiras defendidas pelo governo Lula (PT), como a aposta na integração das forças e no uso de inteligência e tecnologia. Além disso, propõe a articulação de políticas para juventude, mulheres e grupos vulneráveis – a ênfase está em consolidar um modelo de “segurança cidadã”, que combina firmeza no enfrentamento à criminalidade com proteção de direitos.

O principal adversário, Álvaro Dias (PL), tenta promover uma guinada à direita centralizada na segurança pública — sua coligação, intitulado “Endireita RN”, coloca no plano de governo a segurança pública como um dos pilares centrais, com criação de um “Plano Estadual Integrado de Enfrentamento ao Crime Organizado”.

A proposta de Dias prioriza o fortalecimento da inteligência e da investigação criminal, com foco na descapitalização das facções, e a modernização da infraestrutura tecnológica das forças de segurança, incluindo videomonitoramento inteligente e reconhecimento facial. A ênfase está na recomposição do efetivo policial e na integração entre as forças estaduais e federais.

O terceiro candidato competitivo, Allyson (União Brasil), apresenta uma proposta que combina integração das forças com uso intensivo de tecnologia. Seu plano prevê a criação de um sistema unificado que integre Polícia Militar, Civil, Científica, Corpo de Bombeiros, Polícia Penal e Guardas Municipais em planejamento permanente.

Allyson também defende a implantação de videomonitoramento, reconhecimento facial e drones. Além disso, seu programa enfatiza a valorização dos profissionais de segurança, com planos de carreira, equipamentos e apoio psicossocial, e a criação de uma cultura de prevenção e paz, com programas de mediação de conflitos e fortalecimento de vínculos comunitários.

Piauí

O atual governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), lidera as intenções de voto e tem como uma das principais bandeiras o combate ao crime organizado. Ele é considerado um dos poucos caciques do PT que conseguem impor uma agenda de segurança pública com bons resultados — a Bahia, por exemplo, é explorada costumeiramente pelo bolsonarismo como um exemplo negativo.

O plano de Fonteles, intitulado “Pacto pela Ordem”, estabelece metas numéricas: reduzir a taxa de homicídios para 10 por 100 mil habitantes e diminuir em mais de 50% os roubos e os crimes vinculados a facções criminosas em relação a 2025. Para isso, propõe ampliação do efetivo das forças de segurança, consolidação de uma política estadual de prevenção à violência, policiamento planejado com base em inteligência artificial e análise georreferenciada, e estruturação de um Núcleo de Inteligência Financeira na Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), integrado a órgãos estaduais e federais.

Já o plano de Joel Rodrigues (PP), sob o lema “Piauí sem Medo”, estrutura sua proposta no Eixo 4 – Segurança Pública, Trânsito Seguro e Justiça Integrada, com ênfase na integração entre forças policiais, sistema de justiça e municípios. A principal inovação é a criação da Secretaria Estadual de Segurança, Proteção e Cuidado da Mulher. Diferente do atual governador, o candidato do PP não fixa metas.

O combate às facções criminosas é tratado no “Programa Piauí sem Medo”, que prevê uma operação integrada de inteligência, asfixia financeira e desarticulação das organizações criminosas. O plano também propõe implantação do Centro Integrado de Inteligência e da “Muralha Digital Piauí”, com integração de informações das polícias, rede de câmeras e cercamento eletrônico, além de ampliação do policiamento comunitário nas periferias e no interior.

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