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Banqueiro bom é banqueiro próximo. Por isso recorro aos livros
Meu vizinho ainda não postou sobre o Vorcaro ser amigo do Flávio, do Alexandre, do Nikolas, do terrivelmente Mendonça
Ouço o som de uma motosserra, procuro no horizonte, não encontro. Durante o dia há estrondos de árvores caindo. Não encontro, mas sei o que acontece para além da minha vista. Avisei a Prefeitura, acho que ninguém veio ou virá. Quase todos os dias são assim.
São assim e são assado, porque meu vizinho rezou para pneus em um triste momento recente. Outro vizinho legitima genocídios. Outro deu de presente para o filho um boné escrito in Trump we trust. Outro gasta horas nas redes sociais espalhando fake news. Outro encontrou a fórmula para o Brasil, vai votar no candidato da autoajuda para termos equilíbrio psíquico, drones e IA por todos os lados.
Passo o dedo na tela do meu celular, aparece o Ed René Kivitz. É um sujeito admirável, crente do coração quente, lançou recentemente um livro chamado Uma Ideia Elegante de Deus. Ele anda pastoreando por aí que a crueldade do todo-poderoso do antigo testamento é bizarra, um equívoco, diz que Jesus salvou Deus. Meu vizinho ainda não postou sobre Kivitz, mas postará, tenho certeza, pobre Ed, in God we trust. Também não postou sobre o Vorcaro ser amigo do Flávio, do Alexandre, do Nikolas, do terrivelmente Mendonça, de tantos outros do Partido Liberal. Banqueiro bom é banqueiro próximo.
Meu irmão chega da Espanha neste fim de semana e vai achar tudo estranho. Quero fazer um churrasco para ele, mas não com carne do agronegócio escroto, não com vegetais contaminados a torto e à direita. Preciso encontrar um produtor local que plante de forma orgânica e honesta, as verduras, os legumes e as ideias. Farei apenas um chá com a hortelã que tenho no quintal, ele entenderá.
Viver é muito perigoso, Riobaldo, por isso recorro aos livros. É possível até que esteja me desconectando da realidade, que minha vida gravite em torno dos personagens que meus colegas criam, de suas histórias, de meus próprios personagens. Eu, multifacetado. Sou Fernando Pessoa sem um pingo de talento. Sem perceber, caímos em um mundo como o de Afonso Cruz em Vamos Comprar um Poeta. Venera-se o que é vão. Meu sobrenome deveria ser Botox ou Mounjaro.
Nem deus nem o diabo, quero meus lábios inchados e meu abdome endurecido enquanto as árvores caem; enquanto o telefone do meu vizinho apita para informá-lo que o Plano Nacional de Educação sancionado este ano não tem nada de bom, é apenas um complô comunista e do MST contra as crianças fãs do Neymar; enquanto uma nova igreja neopentecostal é inaugurada na esquina com a bandeira do Brasil no altar e a fotografia do Bolsonaro no bolso do pastor.
Ed René Kivitz, meu irmão, permita-me um ajuste: Jesus não conseguiu salvar coisa alguma.
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