Cultura
Pacha Mama
O preço do nosso modelo de desenvolvimento não é cobrado somente em dólares ou hectares de florestas devastadas, mas no relógio biológico que rege nossas células
Numa sociedade marcada por abismos sociais, privilegiados são aqueles que têm liberdade para fazer escolhas. Somos, em alguma medida, o reflexo delas – não apenas dos nossos hábitos alimentares, mas das escolhas e oportunidades que atravessam o cotidiano e, muito especialmente, das nossas escolhas políticas.
Sim, com o perdão de uma licença poética talvez exagerada: o candidato que você escolher na próxima eleição pode ter impacto, no futuro, sobre o câncer que você poderá – ou não – desenvolver.
Hoje, quero contar como essa história de “passar a boiada” pode chegar até as nossas células.
A destruição das florestas tropicais está diretamente relacionada à precocidade de doenças que hoje atingem gerações cada vez mais jovens.
A ciência começa a revelar que o preço do nosso modelo de desenvolvimento não é cobrado apenas em dólares ou em hectares de floresta devastadas. Ele pode ser cobrado também no próprio relógio biológico que rege nossas células.
Um trabalho recente, publicado na Nature Medicine e liderado pela Universidade de Washington, traz um diagnóstico perturbador: as gerações mais jovens estão envelhecendo biologicamente mais rápido do que sua idade cronológica.
E não estamos falando de estética. Estamos falando do interior das células.
O estudo constatou que indivíduos nascidos entre 1990 e 1999 apresentam um envelhecimento biológico sistêmico superior ao observado entre aqueles nascidos no fim dos anos 1960.
Essa defasagem – o abismo entre a idade que temos e a idade que nossas células aparentam ter – está associada a um aumento de até 15% no risco de desenvolver câncer antes dos 55 anos, com destaque para tumores gastrointestinais, uterinos e pulmonares.
Esse envelhecimento precoce está relacionado à exposição continuada a estressores ambientais, metabólicos e psicossociais em períodos críticos da vida, como a gestação e a adolescência.
Seus efeitos podem começar ainda na vida intrauterina, interferindo na expressão de genes protetores e favorecendo processos associados à carcinogênese. É nesse ponto que a discussão ambiental deixa de ser abstrata e passa a habitar o nosso próprio corpo.
As exigências europeias de “desmatamento zero” não são apenas barreiras comerciais. Elas também refletem um diagnóstico de esgotamento ecológico sistêmico. O solo que degradamos, a floresta que destruímos e os agrotóxicos que pulverizamos não desaparecem simplesmente.
Parte desse impacto retorna para nós sob a forma de alterações biológicas e epigenéticas – como cracas aderidas ao nosso DNA –, deixando marcas que podem contribuir para o adoecimento precoce.
O câncer, sabemos, não é resultado de uma única causa. Seus determinantes são complexos e envolvem fatores genéticos, ambientais, psicossociais e socioeconômicos. Por isso, compreender como o ambiente em que vivemos interfere no envelhecimento celular pode abrir uma frente importante de prevenção.
Ao decifrar esses mecanismos, torna-se possível identificar, entre jovens aparentemente saudáveis, subgrupos que estejam envelhecendo biologicamente mais rápido. No futuro, isso poderá permitir o acompanhamento mais próximo dessas pessoas e a realização de estratégias preventivas antes que um tumor sequer se manifeste.
Às vésperas das eleições, talvez seja importante dizer com clareza: o candidato que você escolher pode ter impacto, no futuro, sobre o câncer que você poderá – ou não – desenvolver
Além disso, nesse horizonte sombrio, existem estudos que nos apontam uma luz.
Outra pesquisa, da Universidade Northwestern, publicada em junho de 2023, acompanhou mais de 900 pessoas durante duas décadas, em quatro cidades dos Estados Unidos.
O estudo encontrou uma associação entre viver em áreas com maior cobertura vegetal e apresentar uma idade biológica celular mais jovem. Pessoas que residiam em regiões com cerca de 30% de cobertura verde em um raio de 5 quilômetros apresentavam, em média, uma idade biológica 2,5 anos menor do que aquelas cercadas por menor cobertura verde.
A natureza, portanto, não é apenas paisagem. Ela funciona como um amortecedor biológico: reduz o estresse, influencia processos de metilação do DNA e cria condições para que nossas células se recuperem dos impactos acumulados ao longo da vida.
Talvez seja justamente aí que a ciência contemporânea reencontre um conhecimento muito mais antigo.
Em 2025, tive o privilégio de viajar ao Peru no meu aniversário, que coincidiu com uma festa da colheita. Era uma celebração cheia de danças, música e cores, na qual os alimentos são preparados sob a terra, numa espécie de churrasco subterrâneo.
O ritual do Pago a la Tierra, ou Pagamento à Terra, consiste em oferecer alimentos e outros elementos como forma de retribuir aquilo que dela recebemos e preservar um equilíbrio ecológico e espiritual.
Na língua quéchua, Pacha não designa apenas um lugar ou um momento: abrange o tempo, o espaço e a totalidade do cosmo. A Pacha Mama representa a força criadora e onipresente que sustenta a vida material e espiritual, conectando os seres vivos entre si.
A relação com a Pacha Mama é regida pela reciprocidade.
Diversos povos originários compreendem que não existe uma fronteira rígida entre o ser humano e a natureza. Somos parte da Terra. E, justamente por isso, estabelecemos relações de parentesco, responsabilidade e reciprocidade com os demais seres vivos, com a água e com o solo.
A ciência começa a demonstrar, em escala celular, aquilo que os povos originários já compreendiam há séculos: tudo que fazemos à Terra também fazemos a nós mesmos. •
*Médica livre-docente pela Faculdade de Medicina da USP e pneumologista do Hospital Sírio-Libanês.
Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Pacha Mama’
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