Cultura

Pacha Mama

O preço do nosso modelo de desenvolvimento não é cobrado somente em dólares ou hectares de florestas devastadas, mas no relógio biológico que rege nossas células

Pacha Mama
Pacha Mama
A “Mãe Terra” representa a força criadora e onipresente que sustenta a vida material e espiritual, conectando os seres vivos entre si, a partir do princípio da reciprocidade – Imagem: Pilar Velloso, iStockphoto e Redes Sociais
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Numa sociedade marcada por abismos sociais, privilegiados são aqueles que têm liberdade para fazer escolhas. Somos, em alguma medida, o reflexo delas – não apenas dos nossos hábitos alimentares, mas das escolhas e oportunidades que atravessam o cotidiano e, muito especialmente, das nossas escolhas políticas.

Sim, com o perdão de uma licença poé­tica talvez exagerada: o candidato que você escolher na próxima eleição pode ter impacto, no futuro, sobre o câncer que você poderá – ou não – desenvolver.

Hoje, quero contar como essa história de “passar a boiada” pode chegar até as nossas células.

A destruição das florestas tropicais está diretamente relacionada à ­precocidade­ de doenças que hoje atingem gerações cada vez mais jovens.

A ciência começa a revelar que o preço do nosso modelo de desenvolvimento não é cobrado apenas em dólares ou em hectares de floresta devastadas. Ele pode ser cobrado também no próprio relógio biológico que rege nossas células.

Um trabalho recente, publicado na Nature Medicine e liderado pela Universidade de Washington, traz um diagnóstico perturbador: as gerações mais jovens estão envelhecendo biologicamente mais rápido do que sua idade cronológica.

E não estamos falando de estética. Estamos falando do interior das células.

O estudo constatou que indivíduos nascidos entre 1990 e 1999 apresentam um envelhecimento biológico sistêmico superior ao observado entre aqueles nascidos no fim dos anos 1960.

Essa defasagem – o abismo entre a idade que temos e a idade que nossas células aparentam ter – está associada a um aumento de até 15% no risco de desenvolver câncer antes dos 55 anos, com destaque para tumores gastrointestinais, uterinos e pulmonares.

Esse envelhecimento precoce está relacionado à exposição continuada a estressores ambientais, metabólicos e psicossociais em períodos críticos da vida, como a gestação e a adolescência.

Seus efeitos podem começar ainda na vida intrauterina, interferindo na expressão de genes protetores e favorecendo processos associados à carcinogênese. É nesse ponto que a discussão ambiental deixa de ser abstrata e passa a habitar o nosso próprio corpo.

As exigências europeias de “desmatamento zero” não são apenas barreiras comerciais. Elas também refletem um diagnóstico de esgotamento ecológico sistêmico. O solo que degradamos, a floresta que destruímos e os agrotóxicos que pulverizamos não desaparecem simplesmente.

Parte desse impacto retorna para nós sob a forma de alterações biológicas e epigenéticas – como cracas aderidas ao nosso DNA –, deixando marcas que podem contribuir para o adoecimento precoce.

O câncer, sabemos, não é resultado de uma única causa. Seus determinantes são complexos e envolvem fatores genéticos, ambientais, psicossociais e socioeconômicos. Por isso, compreender como o ambiente em que vivemos interfere no envelhecimento celular pode abrir uma frente importante de prevenção.

Ao decifrar esses mecanismos, torna-se possível identificar, entre jovens aparentemente saudáveis, subgrupos que estejam envelhecendo biologicamente mais rápido. No futuro, isso poderá permitir o acompanhamento mais próximo dessas pessoas e a realização de estratégias preventivas antes que um tumor sequer se manifeste.

Às vésperas das eleições, talvez seja importante dizer com clareza: o candidato que você escolher pode ter impacto, no futuro, sobre o câncer que você poderá – ou não – desenvolver

Além disso, nesse horizonte sombrio, existem estudos que nos apontam uma luz.

Outra pesquisa, da Universidade ­Northwestern, publicada em junho de 2023, acompanhou mais de 900 pessoas durante duas décadas, em quatro cidades dos Estados Unidos.

O estudo encontrou uma associação entre viver em áreas com maior cobertura vegetal e apresentar uma idade biológica celular mais jovem. Pessoas que residiam em regiões com cerca de 30% de cobertura verde em um raio de 5 quilômetros apresentavam, em média, uma idade biológica 2,5 anos menor do que aquelas cercadas por menor cobertura verde.

A natureza, portanto, não é apenas paisagem. Ela funciona como um amortecedor biológico: reduz o estresse, influencia processos de metilação do DNA e cria condições para que nossas células se recuperem dos impactos acumulados ao longo da vida.

Talvez seja justamente aí que a ciência contemporânea reencontre um conhecimento muito mais antigo.

Em 2025, tive o privilégio de viajar ao Peru no meu aniversário, que coincidiu com uma festa da colheita. Era uma celebração cheia de danças, música e cores, na qual os alimentos são preparados sob a terra, numa espécie de churrasco subterrâneo.

O ritual do Pago a la Tierra, ou Pagamento à Terra, consiste em oferecer alimentos e outros elementos como forma de retribuir aquilo que dela recebemos e preservar um equilíbrio ecológico e espiritual.

Na língua quéchua, Pacha não designa apenas um lugar ou um momento: abrange o tempo, o espaço e a totalidade do cosmo. A Pacha Mama representa a força criadora e onipresente que sustenta a vida material e espiritual, conectando os seres vivos entre si.

A relação com a Pacha Mama é regida pela reciprocidade.

Diversos povos originários compreendem que não existe uma fronteira rígida entre o ser humano e a natureza. Somos parte da Terra. E, justamente por isso, estabelecemos relações de parentesco, responsabilidade e reciprocidade com os demais seres vivos, com a água e com o solo.

A ciência começa a demonstrar, em escala celular, aquilo que os povos originários já compreendiam há séculos: tudo que fazemos à Terra também fazemos a nós mesmos. •


*Médica livre-docente pela Faculdade de Medicina da USP e pneumologista do Hospital Sírio-Libanês.

Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Pacha Mama’

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