Economia
Lula e Flávio Bolsonaro intensificam a disputa pela atenção de empresários e banqueiros
Encontros mostram que os dois candidatos buscam ampliar pontes com um setor influente e disputar a imagem de quem reúne melhores condições para governar
Com quatro dias de diferença, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) fizeram movimentos semelhantes. Na quinta-feira 27, o senador reuniu empresários e executivos do mercado financeiro em um jantar na casa de Marcelo Kayath, ex-presidente do Credit Suisse no Brasil e sócio da QMS Capital, em São Paulo. Na segunda-feira 31, foi a vez de o presidente receber 16 empresários no Palácio da Alvorada, em Brasília.
A “coincidência” revela uma disputa que vai além da fotografia com expoentes da economia. À medida que a eleição se aproxima e a diferença entre os dois diminui nas pesquisas de segundo turno, as campanhas passam a disputar também o apoio e as interlocução capazes de reforçar a imagem de cada candidato diante de setores influentes da sociedade.
A presença dos mesmos grupos nos dois jantares deixa a disputa mais evidente. Luiz Carlos Trabuco Cappi, do Bradesco, e Fábio Ermírio de Moraes, da Votorantim, participaram dos dois encontros. A Gerdau esteve representada nas duas mesas, por Richard Gerdau no jantar de Flávio e André Gerdau Johannpeter no de Lula. Do Itaú, Flávio recebeu Milton Maluhy Filho, enquanto Lula contou com Roberto Setubal.
O interesse eleitoral pelo setor está relacionado também ao perfil da disputa. A pesquisa BTG/Nexus divulgada em 24 de agosto mostrou Flávio à frente de Lula entre os eleitores de maior renda em um eventual segundo turno. Entre aqueles com renda familiar acima de cinco salários mínimos, o senador aparecia com 53%, contra 41% do petista. Lula mantém vantagem nas faixas de renda mais baixas.
Flávio busca transformar sua vantagem entre os eleitores de maior renda em uma rede de apoio mais ampla, enquanto Lula tenta reduzir uma vulnerabilidade histórica do PT junto ao empresariado. O jantar funciona menos como uma operação para conquistar votos de empresários e mais como uma disputa pelo ambiente político que cerca essas candidaturas.
Além disso, banqueiros e grandes empresários mantêm relações com associações, investidores, fornecedores e outros grupos econômicos, e participam de discussões que estarão no centro de qualquer novo governo. A interlocução, portanto, interessa às campanhas tanto pela sinalização pública quanto pela possibilidade de estabelecer canais para a eventual transição entre campanha e governo.
As mensagens transmitidas pelos dois encontros seguiram essa lógica. Flávio apresentou suas ideias econômicas e defendeu a substituição do atual marco fiscal por um mecanismo semelhante ao teto de gastos do governo Michel Temer (MDB). Lula, depois de enfrentar críticas no mercado por declarações sobre a dívida, reuniu ministros da área econômica e dirigentes de bancos públicos para reafirmar seu compromisso com as contas públicas.
A diferença é que Flávio ainda precisa convencer que pode ampliar seu campo político; Lula tem de mostrar que continua capaz de reunir os setores necessários para sustentar um novo mandato. É essa disputa, mais do que uma suposta capacidade dos empresários de transferir votos, que ajuda a explicar a corrida dos dois pelas mesmas figuras.
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