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Premiê da Espanha culpa Rússia e Israel por crise em Ceuta

Segundo Pedro Sánchez, dezenas de milhares imigrantes que correram à fronteira do território espanhol em julho foram atraídos por desinformação promovida por Moscou e Tel Aviv. Já contra o Marrocos não haveria evidências

Premiê da Espanha culpa Rússia e Israel por crise em Ceuta
Premiê da Espanha culpa Rússia e Israel por crise em Ceuta
O chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, em foto de 24 de junho de 2026 – foto: Oscar del Pozo/AFP
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O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, afirmou nesta segunda-feira (31/08) haver indícios de que Rússia e Israel disseminaram desinformação sobre a política migratória espanhola, o que desencadeou a corrida em massa de imigrantes rumo a Ceuta em julho, vindos da fronteira com o Marrocos.

Sánchez, contudo, disse não haver evidências de que o Marrocos tenha promovido essas falsas informações.

Mais de 72 mil migrantes atravessaram irregularmente do Marrocos para o pequeno território espanhol entre 30 e 31 de julho, em uma onda sem precedentes numa das únicas duas fronteiras terrestres da União Europeia com a África. Ao menos 100 pessoas morreram na tentativa, segundo as autoridades locais de Ceuta.

A movimentação gerou preocupação em toda a UE.

Partidos da oposição na Espanha e alguns grupos de direitos humanos chegaram a acusar o Marrocos de ter permitido ou estimulado deliberadamente a travessia em massa, mas o governo marroquino negou as acusações.

“Quando as pessoas falam e especulam sobre a participação das autoridades marroquinas, eu rejeito isso categoricamente”, disse Sánchez à emissora de rádio SER. “Devemos estar cientes de que essa crise só pode ser resolvida através da cooperação, e não da desconfiança, em relação ao Marrocos.”

Imigrantes atraídos por desinformação

Vídeos nas redes sociais difundiram alegações enganosas de que os migrantes que chegassem a Ceuta por via marítima poderiam permanecer na Espanha, incentivando milhares a tentar a travessia a nado, segundo as autoridades espanholas.

Sánchez afirmou que uma investigação do Serviço Europeu para a Ação Externa (SEAE) indicou que redes russas e israelenses estiveram por trás da disseminação da desinformação, em conjunto com redes de extrema direita, que, segundo ele, “sempre usam a migração para atacar tanto a Espanha quanto a Europa e dividi-las”.

Para ele, estava claro que os dois países haviam utilizado a crise para criticar Madri devido à insatisfação com sua posição em relação às guerras na Ucrânia e em Gaza. O premiê, contudo, não forneceu mais detalhes sobre as evidências desse suposto envolvimento.

Embora a maioria dos imigrantes tenha deixado Ceuta em questão de horas, cerca de 5 mil seguem no enclave; maioria vive em condições precárias. Foto: Antonio Sempere/AFP

Via rede X, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa’ar, disse que Sánchez “mente descaradamente” ao acusar Israel de disseminar informações enganosas sobre Ceuta.

Segundo Sa’ar, a acusação é uma tentativa do premiê espanhol de desviar a atenção dos fracassos de sua política interna.

Falando em nome do governo russo, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, também rejeitou as acusações da Espanha.
Críticos viram reação deliberada do Marrocos

À época da crise, duas hipóteses apontavam para uma possível conivência do governo marroquino com a movimentação dos imigrantes, que não teriam sido contidos pelas forças de segurança.

A primeira diz respeito à disputa em torno do Saara Ocidental, ex-colônia espanhola hoje sob o domínio do Marrocos, mas com um movimento separatista saaraui apoiado pela Argélia.

Segundo essa hipótese, o Marrocos teria ficado irritado com um projeto de lei para conceder nacionalidade espanhola aos saarauís nascidos quando o Saara Ocidental ainda estava sob administração espanhola, antes de 1977. Também teria pesado a recente reaproximação entre Espanha e Argélia, que em 20 de julho recebeu uma visita de Sánchez.

A segunda hipótese diz respeito a ambições do Marrocos sobre Ceuta e Melilla, dois exclaves espanhóis no continente africano que existem há séculos e que são cercados por território marroquino.

Jornalistas espanhóis apontaram à época que as forças de segurança marroquinas pareciam ter “cruzado os braços”.

Militares espanhóis acompanham migrante em direção à fronteira de Marrocos com o território de Ceuta. Foto: Henry Nicholls/AFP

Tensões crescentes em Ceuta

A crise desencadeou novas tensões dentro da União Europeia em torno do sensível tema da imigração e representou um golpe para uma das principais conquistas do bloco: a zona Schengen de livre circulação de pessoas.

O governo da Itália, da direitista Georgia Meloni, impôs controles de fronteira por um mês para viajantes provenientes da Espanha após a crise. A Espanha retaliou na mesma medida uma semana depois.

Nesta segunda-feira, ambos os governos anunciaram uma prorrogação de 15 dias desses controles.

Embora a grande maioria dos migrantes tenha retornado ao Marrocos em poucas horas, cerca de 5 mil migrantes seguem em Ceuta, muitos deles vivendo em condições precárias nas ruas.

O destino dessas pessoas tornou-se um importante foco de disputa política, com a oposição conservadora e de ultradireita exigindo que todos os que entraram em Ceuta, incluindo menores de idade, sejam devolvidos ao Marrocos.

Os moradores de Ceuta têm realizado manifestações frequentes devido ao que consideram problemas de segurança e higiene relacionados ao influxo de migrantes.

Também houve ataques esporádicos contra um acampamento improvisado de migrantes na praia de El Trampolín, segundo relatos policiais.

A polícia prendeu três cidadãos marroquinos no domingo por lançarem garrafas contendo líquidos corrosivos contra uma patrulha do Exército em Ceuta, informou a agência de notícias EFE, citando fontes policiais.

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