Aldo Fornazieri

Cientista político, autor de 'Liderança e Poder'

Colunas

Ceuta e o Campo dos Santos

A invasão ao território espanhol evoca as teorias da conspiração que têm um marco em um livro de 1973 adorado pela extrema-direita

Ceuta e o Campo dos Santos
Ceuta e o Campo dos Santos
Chegada de migrantes a Ceuta em 30 de julho de 2026. Foto: Lucía Díaz/AFP
Apoie Siga-nos no

O mundo acaba de assistir perplexo à invasão do enclave espanhol de Ceuta por milhares de marroquinos. É certo que houve incitação. Os responsáveis e seus interesses ainda não foram identificados. Na Europa e nos Estados Unidos, as reações foram de duras críticas ao governo progressista do espanhol Pedro Sánchez.

A invasão evoca a lembrança do romance distópico O Campo dos Santos, publicado em 1973 pelo francês Jean Raspail. O título do livro é uma referência a uma passagem do Apocalipse, da Bíblia. Depois dos mil anos, Satanás é solto da prisão, engana todas as nações da Terra e as lidera numa marcha e num cerco ao Campo dos Santos. Estes só serão salvos pela intervenção da devastadora fúria divina, que consome as hostes de Satanás com o fogo.

O livro de Raspail descreve uma invasão de centenas de milhares de indianos pobres que desembarcam no sul da França em busca de uma nova vida. A narrativa mostra que a fraqueza moral das elites e dos governos ocidentais, a tolerância e o senso de culpa ocidental levam a França a uma rendição total, resultando em um desmoronamento e uma subversão da cultura europeia-ocidental.

O Campo dos Santos seria uma antecipação da teoria conspiratória conhecida como a Grande Substituição. Inventada por Renaud Camus, a teoria diz que as populações brancas francesas e europeias seriam substituídas deliberadamente por não brancos provenientes, principalmente, de países de maioria muçulmana, por meio de migrações em massa e do seu crescimento demográfico.

O Campo dos Santos tornou-se um livro de cabeceira de líderes da extrema-direita ocidental. Steve Bannon, Viktor Órban e Marine Le Pen o citam com frequência para legitimar o discurso de que a imigração é uma invasão militarizada da Europa. As lideranças ocidentais sem fibra, tolerantes e moralmente decadentes estariam permitindo que a Europa branca sucumba sob os pés dos invasores. Essas teorias insuflam as reações inflamadas da extrema-direita contra os movimentos migratórios e disseminam o ódio contra os grupos de origem muçulmana e asiática.

No caso de Ceuta, a reação foi fortíssima. Os líderes do ultradireitista Vox e do Partido Popular, ambos da Espanha, classificaram a invasão dos marroquinos como um ato de guerra e uma invasão premeditada. A retórica contundente e belicista visa espalhar o medo e aterrorizar as populações locais, seja para incitar reações, seja para buscar dividendos eleitorais.

Sánchez viu-se isolado no contexto da Europa. Leis frouxas e os governos progressistas condescendentes foram responsabilizados pelo grande risco das invasões. Le Pen, a extrema-direita alemã e Donald Trump responsabilizaram o governo espanhol e cobraram medidas imediatas de contenção. Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália, articulou a assinatura de uma Carta por 22 países europeus exigindo severo combate à imigração ilegal e o financiamento à construção de barreiras físicas de contenção. Os governos conservadores propuseram estabelecer restrições ao Espaço Schengen, de livre circulação de indivíduos, e a suspensão da Espanha desse espaço e de outros acordos de fronteiras abertas.

A invasão de Ceuta armou o palco para a radicalização dos extremistas de direita em toda a Europa. Le Pen lidera a corrida presidencial na França, que acontece em abril do próximo ano. Na Itália, as eleições gerais estão marcadas para o fim de 2027, mas poderão ser antecipadas. Meloni não está ameaçada pelo centro ou pela esquerda, mas pela rápida ascensão do general Roberto Vannacci, que se situa ainda mais à direita da primeira-ministra.

Na Alemanha, os partidos de extrema-direita têm experimentado um crescimento contínuo. A Alternativa para a Alemanha venceu as eleições estaduais da Turíngia e ficou em segundo lugar na Saxônia, estado onde os neonazistas do partido “Saxões Livres” experimentaram forte crescimento. As eleições mais importantes serão aquelas de meio de mandato nos Estados Unidos. Mas, enquanto a direita cresce na América Latina e na Europa, Trump corre o risco de perder a maioria na Câmara e no Senado.

Os acontecimentos de Ceuta, esse mini “Campo dos Santos”, inflamarão ainda mais os discursos sobre as ameaças apocalípticas que a extrema-direita sustenta existirem contra os brancos e contra a cultura ocidental. Por mais que a Europa precise de imigrantes para fazer a economia funcionar, a tendência é de que esse conflito entre europeus e não europeus se agrave.

A extrema-direita valida uma das conclusões de O Campo dos Santos: há uma incompatibilidade de raças quando elas habitam o mesmo ambiente. Essa assertiva é ainda mais perigosa no contexto global do presente, marcado por guerras, disputas geopolíticas desenfreadas, onde os valores do humanismo e da razão são substituídos pelo ódio e pela força bruta.  •

Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ceuta e o Campo dos Santos’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo