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O Oceano Atlântico na taça
A herança dos romanos e o clima particular posicionam os brancos da Galicia com destaque nas mesas
Os primeiros visitantes que pisaram na Galícia acharam que a região não se parecia com o que conheciam da Espanha. Para eles, a chuva abundante (média três vezes superior à do restante do país), seus litorais rochosos e colinas onduladas mais se assemelhavam a outros países mais próximos do Mar do Norte, como a Escócia. Foi em Baiona, nessa mesma costa, que a caravela Pinta atracou em 1º de março de 1493, sozinha, trazendo à Europa a primeira notícia de que a viagem de Cristóvão Colombo à América tinha sido bem-sucedida e os espanhóis tinham descoberto uma outra terra além do Atlântico.
A história do cultivo de uvas é antiga em uma região que hoje ganha cada vez mais espaço nas mesas por conta do terroir de Rías Baixas e da uva albariño, com um punhado de opções de qualidade-preço importadas no Brasil. Um estudo de 2020 publicado no Australian Journal for Grape and Wine Research comparou sementes de uva de uma escavação romana na região com castas atuais e encontrou semelhança genética com o albariño moderno, um indício de que os romanos que anexaram a região como província 137 anos antes de Cristo já cultivavam alguma versão dela. Monges beneditinos plantaram vinhas ao longo do Caminho de Santiago a partir da Idade Média.
O Oceano Atlântico adentra o continente em estuários de múltiplos braços chamados rías em espanhol. A parte sul — Rías Baixas — batiza o nome da denominação principal de onde vêm os principais albariños hoje consumidos. O clima é particular: os maiores índices pluviométricos da Espanha, boa parte concentrada no inverno, convivem com pouco mais de duas mil horas de sol por ano, permitindo equilíbrio entre água e calor.
Para completar: uma amplitude térmica mínima entre verão e inverno, pouco mais de dez graus. Isso preserva a acidez que separa o albariño de qualquer branco produzido mais para o interior da Espanha. O solo é composto em boa parte por camada arenosa de cerca de vinte centímetros, que drena a chuva torrencial em vez de encharcar a raiz, deixando a vinha se aprofundar. Os solos são ricos em minerais, o que confere aos vinhos um toque mineral marcante, de uma forma não muito diferente do que ocorre em Chablis, hoje um campeão de vendas no Brasil. (A região também produz tintos interessantes, mas o foco aqui são os albariños).
Essas particularidades e o preço dos rótulos levaram Roberta Kuroda a visitar a região há cinco anos. Anos antes, ela tinha se apaixonado pelo mundo dos vinhos. Aos dezoito anos, numa palestra sobre harmonização, um chef serviu um prato de galinha-d’angola com molho de jabuticaba e um sommelier explicou por que aquele vinho tinto funcionava com aquele prato. Ela não tinha repertório nenhum. Achou aquilo muito bonito, e só. Foi fazendo cursos, degustações, organizando eventos, até que criou uma importadora, a Oinos, com grande parte do portfólio voltado para vinhos espanhóis, com destaque à região da Galícia. “A Espanha tem boa relação qualidade preço e tem uma oferta de vinhos mais fácil de conseguir do que a França”, diz Roberta.
Quando organizou sua primeira visita à região, conseguiu uma rede de contatos. Em uma visita a uma vinícola, o produtor disse que não tinha vinho, mas que seu amigo, que era vizinho da propriedade, tinha. Ela topava visitar? Ela tentava havia semanas falar com o dono da vinícola Albamar. Os e-mails não eram respondidos, o telefone não respondia. “Estou tentando falar com ele, mas ele sumiu.” O produtor discou ali mesmo. Em dias, firmou-se o contrato.
A cena se repetiu, com variações. Eulogio Pomares, da vinícola Zárate, é muito amigo de Manuel Méndez, da bodega Fulcro. “Eles não têm essa preocupação. Ah, ela vai gostar mais do vinho do meu amigo. Entendem que há espaço para estilos diferentes de albariño”, diz Roberta. Hoje, Zárate, Albamar e Fulcro são três vinícolas importadas pela Oinos, com alguns ótimos rótulos de brancos abaixo de 250 reais.
Antes mesmo que a burocracia internacional engrenasse, a virada qualitativa da região começou a ser desenhada em agosto de 1953, quando o advogado Bernardino Quintanilla apostou com o proprietário Ernesto Zárate — o mesmo sobrenome que hoje rotula a garrafa que a Oinos traz ao Brasil — que seu albariño venceria o do amigo numa prova cega. Nenhum dos dois ganhou: outro produtor levou o primeiro prêmio, mas os dois não abandonaram a disputa.
A revanche informal virou um concurso e depois uma festa popular, que segue viva setenta anos depois. O toque final foi dado pela burocracia: em 1988, sob pressão do ingresso da Espanha na Comunidade Europeia, os vinhos da região ganharam oficialmente o selo da denominação de origem Rías Baixas. O crescimento veio: os 237 hectares iniciais viraram mais de quatro mil. Chegaram nomes de peso: Vega Sicília lançará no próximo ano o Deiva em Rías Baixas, com produção inicial de 30 mil garrafas, uma incursão da mítica vinícola em seu primeiro branco espanhol.
No Brasil, outras importadoras têm rótulos da Galícia. A Wines4U traz os vinhos de Alberto Nanclares, outro bom produtor de qualidade-preço. Em fevereiro, dados da consultoria Ideal.BI apontam que brancos e espumantes somam 30% do mercado nacional de vinho, dez pontos a mais que em 2019. Apenas os vinhos de Chablis respondiam por um quarto de todo o vinho de Borgonha importado ao país, com alta de 56% em volume num único ano.
Dois documentários espanhóis, Albariño Rías Baixas: de la tradición al mundo e sua sequência El Despertar del Vino en Galicia, registraram o movimento de viticultores recuperando vinhas e castas que quase desapareceram no século passado. Há mineralidade além da França.
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