Economia

Como o Magazine Luiza percebeu (e está enfrentando) o avanço das bets entre seus funcionários

Alta de empréstimos, pedidos de demissão e relatos de adoecimento levaram uma das maiores varejista do País a criar um programa de prevenção às apostas online

Como o Magazine Luiza percebeu (e está enfrentando) o avanço das bets entre seus funcionários
Como o Magazine Luiza percebeu (e está enfrentando) o avanço das bets entre seus funcionários
A empresária Luiza Trajano. Créditos: Foto por MAURO PIMENTEL / AFP
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“Estávamos perdendo nossos colaboradores para agiotas.” Durante o lançamento de uma pesquisa em São Paulo, a empresária Luiza Trajano resumiu em uma frase como o avanço das bets deixou de ser uma questão distante para se tornar um problema concreto dentro do Magazine Luiza, uma das maiores redes varejistas do País.

O primeiro sinal de que algo havia mudado surgiu ainda em 2022. Naquele ano, a empresa percebeu um aumento significativo nos pedidos de empréstimo consignado feitos por funcionários. A princípio, o movimento parecia ligado a um problema conhecido. Há dez anos, o Magazine Luiza mantém um programa de educação financeira para orientar trabalhadores em situações de endividamento.

Mas as peças começaram a formar um quadro diferente. Ao mesmo tempo em que crescia a procura por crédito, aumentavam os pedidos de demissão e os relatos de adoecimento físico e mental encaminhados à área de gestão de pessoas.

“Veio o alerta: estávamos diante de um cenário de apostas online”, contou à reportagem a diretora executiva de gestão de pessoas do Magazine Luiza, Patricia Pugas.

“Nos deparamos com casos de colaboradores que estavam usando todo o seu salário para jogar ou pegando dinheiro emprestado com familiares e agiotas. Chegaram até nós pedidos de desligamento de pessoas dizendo que não tinham mais segurança para vir trabalhar, porque estavam sendo perseguidas”, relata a executiva. “Muito triste, muito sério.”

Os casos chegaram à empresa por meio de uma equipe interna de assistentes sociais, responsável por oferecer suporte psicossocial, jurídico e financeiro aos trabalhadores. Segundo o Magazine Luiza, os problemas relacionados às apostas apareciam tanto entre funcionários de cargos operacionais quanto em níveis gerenciais, envolvendo homens e mulheres. A companhia não detalhou os episódios por se tratarem de informações confidenciais.

Pugas diz que uma empresa com cerca de 35 mil colaboradores acaba funcionando, em alguma medida, como uma espécie de “laboratório social”: comportamentos que começam a aparecer entre os funcionários muitas vezes antecipam tendências que depois se tornam visíveis no restante da sociedade.

E foi justamente o que ocorreu naquele período. As apostas online avançavam rapidamente pelo País, impulsionadas pela popularidade do futebol, pela publicidade maciça do setor e pela facilidade dos pagamentos instantâneos, como o Pix. Ao mesmo tempo, o mercado ainda operava em um ambiente de regulação incompleta. Embora as apostas de quota fixa tenham sido legalizadas no Brasil em 2018, foi apenas no fim de 2023 que uma nova legislação estabeleceu parâmetros mais amplos de taxação, operação e fiscalização do setor.

Dentro da empresa, porém, o problema já estava posto. O desafio passou a ser outro: como oferecer ajuda sem ultrapassar a fronteira entre a responsabilidade da companhia e a vida privada de seus funcionários?

“É um tema delicado. Primeiro porque a ludopatia não aparecia de imediato nos atendimentos, mas camuflada em meio a essas situações que fomos percebendo. Depois, como você interfere na vida pessoal de um colaborador? Como cravar que determinada situação era derivada de um vício?”, enumera Pugas, ao relembrar as dificuldades enfrentadas por sua equipe até a criação de um programa específico de prevenção aos jogos online, lançado oficialmente em 2024.

A gerente Patrícia Pugas – Foto: Divulgação.

Prevenção aos jogos online

O programa combina ações de comunicação, educação e conscientização. As bets passaram a integrar campanhas institucionais, informes internos e lives com especialistas. A empresa também criou o curso “Saindo do Jogo”, um guia prático que orienta os funcionários, entre outras medidas, sobre como bloquear o acesso ou solicitar a autoexclusão de plataformas de apostas.

Segundo o Magazine Luiza, cerca de 12 mil colaboradores já acessaram o conteúdo. Em outra frente, a companhia orienta trabalhadores que apresentam problemas com o jogo a procurar grupos de apoio voltados à ludopatia.

A estratégia parte do reconhecimento de que uma empresa pode agir sobre os efeitos do problema entre seus funcionários, mas tem alcance limitado diante de um fenômeno que extrapola os muros corporativos.

“Tenho certeza de que ainda não é o suficiente, mas é o que podemos e devemos fazer. Estamos diante de um problema social sério que implica a regulação das plataformas e também a conscientização da sociedade, via educação financeira”, avalia Pugas.

Para a executiva, o caráter privado da decisão de apostar não elimina a responsabilidade das empresas quando os efeitos do jogo começam a aparecer no ambiente de trabalho.

“Eu não tenho dúvidas de que as empresas têm que assumir parte dessa responsabilidade, tomando para si o que lhes cabe. Claro que, no fim, a decisão de jogar ou não é pessoal, de foro íntimo, mas, se temos a oportunidade de influenciar nossos colaboradores, orientá-los e conscientizá-los sobre os riscos das apostas, não podemos abrir mão disso.”

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