Entrevistas
Como Donald Trump instrumentaliza a América Latina para sobreviver ao declínio imperial
No terceiro episódio de ‘Império em Transe’, a professora Jana Silverman discute a intervenção de Trump nas eleições, o avanço do neofascismo e a resistência progressista
Donald Trump comporta-se como um “tigre encurralado”, disposto a atacar o que ainda considera seu “quintal”, enquanto a hegemonia norte-americana perde terreno em outras partes do mundo. A ofensiva contra o Brasil, marcada por ameaças de sanções e ataques à soberania nacional, não seria apenas um movimento econômico errático, mas uma ferramenta de política externa destinada a sufocar qualquer tentativa de autonomia na América do Sul.
A avaliação é da professora Jana Silverman, pesquisadora de Relações Internacionais da UFABC e integrante dos Socialistas Democráticos da América (DSA), em entrevista ao programa Império em Transe.
Conduzido pela editora-executiva Thaís Reis Oliveira e pelo professor Rodrigo Amaral, o terceiro episódio da série produzida por CartaCapital em parceria com a PUC-SP examinou as razões da ofensiva de Trump, a crise do centro político nos Estados Unidos e as possibilidades de reorganização da esquerda.
Confira os principais pontos do debate.
A América Latina na mira de Trump
Na avaliação de Silverman, o Brasil sob o governo Lula tornou-se o principal alvo dessa agressividade por ser a potência regional mais disposta a defender um projeto soberano. Trump recorre ao poder comercial para compensar a perda de influência diplomática e de soft power dos Estados Unidos.
As ameaças de tarifas e sanções justificadas por temas como o sistema Pix e a política ambiental são classificadas pela professora como “imprecisas e desnecessárias”. Serviriam, em sua análise, para impor ao Brasil um projeto político que dificilmente seria aceito por outros meios.
O uso do caos como método de governo é, segundo Silverman, uma característica dessa nova extrema-direita. O neofascismo se alimentaria do ressentimento de parcelas da classe trabalhadora que perderam privilégios materiais e simbólicos sob o que ela chama de “neoliberalismo social”: um modelo que ampliou a diversidade cultural sem enfrentar as estruturas profundas da desigualdade econômica.
A falência do centro e o ressurgimento da esquerda
Outro ponto central da análise é o esvaziamento do centro político. “Aquele centro que formou a base social e material do neoliberalismo social basicamente não existe mais”, afirma Silverman.
Com o colapso desse campo, a polarização abriria espaço para dois movimentos concorrentes: a radicalização da direita e a reorganização de uma esquerda anticapitalista.
Essa resistência começa a ganhar força dentro dos próprios Estados Unidos. Silverman destaca o crescimento do DSA, que reúne mais de 125 mil militantes e acumula vitórias eleitorais contra o establishment do Partido Democrata. Experiências como a de Zohran Mamdani, em Nova York, indicariam que o ressentimento pode ser enfrentado com propostas concretas de bem-estar social, como moradia digna e transporte público gratuito.
Gaza, a crise democrata e as lições para o Brasil
O debate também tratou dos efeitos da política externa de Joe Biden, especialmente do apoio norte-americano ao genocídio em Gaza, sobre a base progressista do Partido Democrata.
Segundo Silverman, a recusa da cúpula democrata — representada por figuras como Kamala Harris — em reconhecer o sofrimento do povo palestino afastou parte do eleitorado jovem e aprofundou a crise política do partido.
Para o Brasil, a principal lição é que a extrema-direita atua de maneira transnacional e recorrerá a diferentes instrumentos — de influenciadores digitais a ameaças envolvendo vistos e deportações — para interferir no debate eleitoral de outubro.
A resposta, sustenta Silverman, passa pelo internacionalismo de classe e pela capacidade da esquerda de oferecer benefícios materiais concretos à população. Em outras palavras, enfrentar a política do ódio com um projeto de futuro que possa ser percebido na vida cotidiana.
O conteúdo completo, com todos os detalhes e o debate na íntegra, você confere no vídeo abaixo, disponível no canal de CartaCapital no YouTube:
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