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O retorno das Cassandras

A economia mostra resistência, mas há quem aposte em recessão no próximo ano

O retorno das Cassandras
O retorno das Cassandras
Batalha. Contra o pessimismo, o ministro Durigan esgrime bons números da economia – Imagem: Renato Luiz Ferreira/CartaCapital e Washington Costa/Ministério da Fazenda
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Apesar de o índice de inflação oficial, o IPCA, acumulado em 12 meses permanecer acima da meta, a inflação doméstica mensal cedeu. A economia, a despeito da desaceleração em alguns setores, segue resistente. Os juros, os mais altos do planeta em termos reais, baixam lentamente. As projeções de déficit melhoraram. Essas constatações, presentes em relatórios semestrais de bancos, não desencorajaram, entretanto, os economistas mais pessimistas, habituais perdedores em ­suas previsões sombrias. Alguns até resolveram dobrar a aposta. O ex-presidente do Banco Central, Arminio Fraga, em entrevista recente, considerou o momento atual da economia “desastroso”, advertiu sobre o avanço do endividamento de famílias, empresas e setor público e apontou um risco real de recessão em 2027. Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth ­Management, afirma que o País caminha para uma “crise contratada” devido à deterioração fiscal e aos juros elevados. Sem um corte de gastos equivalente a 4% do PIB, sublinha Srour, a dívida pública continuará em trajetória insustentável.

Não há dúvida de que a economia, golpeada por tarifaços, juros na estratosfera, bloqueio da importação de insumos em consequência da guerra no Irã e inundação de importados da China, desacelerou e levou os bancos a reavaliar as estimativas, mas nenhuma revisão prevê recessão no próximo ano. O Bradesco estima crescimento de 1,3%, o Itaú, 1,5%, o Santander, 1,3% e o Safra, 1,57%. O Relatório ­Focus do Banco Central indica 1,52%, a OCDE estima 2,1% e o Banco Mundial calcula 2%. Em julho, o FMI revisou para cima a previsão de crescimento do PIB brasileiro de 2% para 2,2%. O Ministério da Fazenda aposta em 2,5% no ano vindouro.

O cenário indicado pela maioria absoluta dos analistas está mais próximo, portanto, daquilo que o governo gostaria e mais distante do que a oposição desejaria. A relativa proteção do País à crise do suprimento petrolífero mundial, a manutenção do real desvalorizado diante do dólar e a persistência do fluxo de investimento externo parecem exercer um poder limitador das exacerbações pré-eleitorais sobre as expectativas dos agentes do sistema financeiro e esclarece o fato de as previsões de recessão serem isoladas e não contaminarem as outras análises.

O objetivo é submeter o próximo governo, qualquer um, à agenda do ajuste

Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, em 2027 o País terá contas organizadas e não haverá surpresas orçamentárias. Durigan projeta a entrega de um orçamento com superávit primário, pela primeira vez em uma década, descarta qualquer cenário de recessão e acredita que a reforma tributária dará um impulso extra ao PIB. A economia doméstica, de acordo com o relatório do segundo semestre do Bradesco, segue resiliente, apesar dos juros restritivos. O consumo das famílias retomou “algum dinamismo”, impulsionado pelo mercado de trabalho e medidas de crédito e pela isenção do Imposto de Renda para rendimentos até 5 mil reais. As medidas de estímulo ao crédito adotadas pelo governo “devem moderar a desaceleração da atividade, mas os juros em patamares ainda mais restritivos continuarão levando a expansão do PIB para abaixo do potencial”.

Apesar do ambiente global “mais ambíguo para os emergentes”, aponta o economista-chefe do Bradesco, Fernando ­Honorato Barbosa, e de múltiplos choques globais e locais, o real tem se mostrado “bastante resiliente”. As projeções do banco são de dólar a 5 reais no fim do ano, déficit em transações correntes de 2% do PIB, sustentado pelo superávit comercial, com crescimento relevante das exportações de petróleo, acompanhado de um “fluxo de investimento estrangeiro direto robusto e estável”. Para o próximo ano, a taxa de câmbio está projetada em 5,20 reais.

“O acúmulo de choques fez nossa projeção para o IPCA sair de 5% para 5,3% em 2026, e de 3,7% para 4,1% em 2027. Os choques da guerra, de preços de alimentos, incluídos aqueles vindos do El Niño, e, em alguma medida, a resistência do setor de serviços compõem o cenário. Sem o impulso do câmbio e com queda nos preços do petróleo, entretanto, o choque na cadeia de bens industriais tem se dissipado, com alívio esperado para o quarto trimestre. A inflação de serviços permanece resistente, com os núcleos ainda pressionados, mas sem deterioração adicional”, sublinha Honorato.

Pessimismo. Fraga lidera o coro de quem vê um desastre pela frente – Imagem: Redes Sociais/IEPS

“Não concordo com as previsões de Arminio Fraga e Solange Srour. A necessidade apontada por Srour, de um corte de gastos equivalente a 4% do PIB, é algo assustador. É preciso ter mais responsabilidade nas declarações”, dispara o economista Saulo Abouchedid, professor da Facamp. “Na minha opinião, Fraga está fundamentalmente equivocado. Considero o risco de recessão para o ano de 2027, a partir da estrutura de endividamento, pouco provável”, aponta o economista José Augusto Gaspar Ruas, do Instituto de Pesquisa e Estudos Econômicos e Sociais.

A analogia feita por Fraga com a situa­ção no segundo governo Dilma, prossegue Ruas, embute uma questão fundamental. “Boa parte daquela recessão, que hoje ele aponta como possível, resultou, na minha leitura e naquela de outros economistas, de uma decisão de política econômica completamente fora de propósito. A gestão do ex-ministro da Fazenda, Joaquim Levy, no início do segundo mandato, foi a causa fundamental daquela recessão, da forma como ela se processou”, diz o economista do Ipea.

Em resposta a essas críticas, Fraga declarou que “o fator dominante, naquele período, foi o impacto do descalabro fiscal sobre a confiança na economia”. E que o efeito secundário “foi secundário”. Não há como comparar, entretanto, o cenário entre 2014 e 2015 com o de 2026 para 2027, insiste Ruas. Não está em curso uma retração de preços de ­commodities significativa no mercado internacional e não existe uma necessidade de ajuste severo nas contas públicas no curtíssimo prazo. “Ao contrário do que a maior parte dos analistas aponta, não acho que um ajuste drástico seria desejável, inclusive para as próprias contas públicas, porque isso, sim, provocaria uma retração econômica”, alerta o economista, que não vê necessidade de reorganização da taxa de câmbio, nem dos preços relativos dentro da economia. “Não tem nenhuma política no curto prazo segurando preços, provocando desajustes, portanto, não me parece que o cenário macroeconômico seja semelhante àquele.”

A maioria dos analistas aponta queda no ritmo de crescimento, não estagnação

Abouchedid concorda. O governo tem cumprido a meta de resultado primário, no intervalo das bandas que estabeleceu por meio de uma política tributária que teve como consequência o aumento das receitas nos últimos tempos, faz uma revisão constante dos gastos, com contingenciamentos e bloqueios e cumpre o regime fiscal. “O que há são as consequências de uma política monetária do Banco Central e questões a serem resolvidas na gestão da dívida pública, principalmente em relação aos juros de longo prazo.”

O Brasil não vive, segundo o economista, uma crise fiscal nem uma de endividamento público. “É preciso olhar para a relação dívida pública-PIB, mas de maneira mais qualificada, mais detalhada, sem entrar num receituário simples de corte de gastos”, resume Abouchedid. O endividamento privado crescente e a inadimplência em patamares muito elevados são motivos de preocupação, “mas essa é outra questão”.

“O único cenário que poderia provocar uma crise de crescimento seria um prolongamento muito extenso da guerra somado a um El Niño muito forte. Esses eventos poderiam afetar o crescimento econômico, mas dificilmente levariam a uma recessão. Só vai ter recessão se o governo comprar a ideia de um ajuste rigoroso”, adverte Ruas. “No caso de vitória de um governo à direita, que proponha o corte drástico de gastos, pode ser que a situação fique muito ruim. Mas acho que mesmo um governo mais à direita não embarcaria num corte logo no primeiro ano”, estima.

Procurada, assim como Fraga, Srour não respondeu aos pedidos de entrevista. •

Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O retorno das Cassandras’

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