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As trevas serão iluminadas por dentro
Apesar de toda a pressão covarde da plutocracia internacional, os humanistas vencem lá e aqui
“O país dele, senhora, é o dos gangárides, povo virtuoso e invencível que habita a margem oriental do Ganges. O nome do meu amigo é Amazan. Ele não é rei, nem sei se desejaria se rebaixar a tanto; ele ama demais seus compatriotas: é pastor como eles. Mas não imagine que esses pastores se assemelhem aos seus, que mal cobertos com trapos rasgados vigiam as ovelhas infinitamente mais bem vestidas do que eles, que gemem sob o fardo da pobreza. E que pagam a um fiscal a metade de suas magras remunerações que recebem de seus patrões. Os pastores gangárides, nascidos todos iguais, são os donos de inumeráveis rebanhos que cobrem seus campos eternamente floridos. Nunca os matam. É um crime horrível, na região do Ganges, matar e comer seu semelhante.”
— Voltaire
O cachorro da casa da minha mãe não tem raça definida, entretanto goza de intuição invejável.
Quando saio com ele, nunca o faço no mesmo horário e com certo tipo de roupa ou calçado. Entretanto, ele percebe claramente que vamos sair, embora não haja qualquer associação possível que permita pensar em reflexo pavloviano.
Intrigado, comentei com meu amigo e médico veterinário, Ernesto Ruben, esse fato, que me parecera insólito.
Para minha surpresa, Ernesto disse que a intuição expandida dos animais também seria nossa, humana. Porém — talvez por temor — nós a sublimamos, de tal sorte que a rejeitamos e virtualmente a eliminamos, perdendo, assim, a capacidade de acessar essa enorme riqueza, de que seríamos todas e todos dotados.
Em O que te faz lutar (Editora Planeta), o pastor e deputado federal Henrique Vieira (PSOL-RJ) afirma:
“Entendo a ética do amor a partir da máxima de Jesus: ‘Ame o teu próximo como a ti mesmo’ (Mateus 22:39). Santo Agostinho retransmitiu a ideia com estas palavras: ‘Ama e faze o que quiseres’. Isso não tem nada a ver com uma vida inconsequente, mas afirma que quem ama de verdade não precisa de regra. O amor será sempre sua maior lei.”
No entanto, continuamos a temer e, muitas vezes, até esconder, como ocorre com a maioria da população LGBTQIAPN+, forçada a não revelar seu amor para não sofrer o juízo social, que, em casos extremos, pode chegar até mesmo à morte.
Contudo, suprimir desejos cobra um preço alto, pois somos seres de luz, não de trevas.
Na mesma obra, Henrique Vieira complementa:
“Amar é uma forma de encarar o mundo e a própria existência. Nesse sentido, ele perpassa tudo o que tocamos e que nos toca. Amplia o olhar e quebra preconceitos. Vai além dos mecanismos que rotulam pessoas, promovendo encontros nos quais conceitos cedem espaço a uma história real, a um corpo que pulsa, a um horizonte no qual eu poderia ir para casa, e aquele garoto, não. O amor promove a vida, sacraliza a existência, transforma muro em ponte. Abre pequenos espaços de generosidade e nos faz sentir a dor do mundo porque enxergamos ali nosso próprio mundo de dor. Esse amor não pode ficar em silêncio, por exemplo, diante do racismo, do feminicídio, da LGBTfobia ou do manicomialismo porque ele nos liga à humanidade — não à humanidade geral e impessoal, mas à humanidade que há no outro. O que fere essa humanidade fere a ética do amor… Dessa forma, o amor é ético-político. Ético porque promove o bem comum; político porque é relacional… Eu elegeria o amor como o ímpeto originário que nos leva a compartilhar a vida para produzir direitos iguais e paz.”
A vitória da esquerda do Partido Democrata nas primárias que ocorrem nos Estados Unidos vai nesse sentido: direitos iguais, paz e bem-estar. A eleição de Mandani para a prefeitura de Nova York, a cidade mais importante do país, já prefigurava essa mudança de paradigma, que se confirmou na semana passada, com a escolha de um médico muçulmano para concorrer ao Senado pelo Partido Democrata, pelo Estado de Michigan.
Os diferentes vão mostrando que a riqueza está justamente na diferença.
Somos seres que se complementam, não plantações transgênicas, clonadas na igualdade estandartizada para melhor serem exploradas, como meros objetos, não os seres vivos que na verdade são.
Dessa forma, vai ficando cada vez mais difícil para o eixo genocida-narco-pedófilo formado pela extrema direita estadunidense e pelo atual desgoverno de Israel impor sua lógica de terror e morte sobre toda a humanidade.
As trevas serão iluminadas por dentro, o mesmo ocorrendo no Brasil com a eleição de Lula contra o traidor Flávio Bolsonaro, umbilicalmente ligado ao crime organizado e inimigo declarado da soberania nacional, a qual pretende entregar aos milionários do império, assim como o suposto ministro da Defesa, que demonstrou não passar de porteiro de bolicho, como se diz no Sul.
Para o Senado, também vai se prefigurando renovação importante, com Marina e Tebet liderando em São Paulo, assim como Manuela e Pimenta no Rio Grande do Sul.
Aqui no Brasil também, a luz vencerá as trevas.
Como bem disse Henrique Vieira:
“… tenho de pressupor o oposto: temos de buscar o que é diferente, na expectativa de encontro, enriquecimento e maravilhamento diante da beleza que é a vida humana. Nessa investida esperançosa, o improvável pode se tornar possível e provável.”
Não é isso que está ocorrendo nos EUA e aqui no Brasil?
Apesar de toda a pressão covarde da plutocracia internacional, os humanistas vencem lá e aqui.
O Itamaraty retoma sua capacidade de defesa da pátria, enquanto aqueles que constitucionalmente deveriam fazê-lo demonstram, mais uma vez, não estarem à altura da História, que inexoravelmente os julgará, com a devida severidade para quem trai.
Que a aurora que se anuncia seja conjunta e ilumine as Américas tão diversas e plurais em suas extraordinárias riquezas, que, acima de tudo, são vidas humanas, animais e vegetais.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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