Justiça
Feminicídios crescem 70% em SP enquanto governo Tarcísio destina apenas 18 centavos por mulher para proteção
O recorde de violência contra mulheres expõe contraste entre indicadores celebrados pelo estado na segurança pública e a deterioração da proteção às vítimas
A violência contra as mulheres segue em trajetória de alta no Brasil, mas os números de São Paulo revelam um cenário especialmente grave. No primeiro semestre deste ano, 142 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado — um aumento de 70% em relação ao mesmo período de 2022, último ano antes do início do governo de Tarcísio de Freitas.
No País, considerando o mesmo intervalo, a alta foi de 8%.
Os dados fazem parte de um levantamento do Instituto Sou da Paz, elaborado a partir de informações da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e do Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Para Malu Pinheiro, coordenadora de projetos do Instituto Sou da Paz, o avanço da violência letal contra as mulheres expõe a falta de uma estratégia permanente de prevenção. “É o reflexo da ausência de uma política continuada de prevenção à violência contra a mulher no estado”, afirma.
Enquanto os feminicídios avançam, os recursos destinados às políticas de proteção encolhem. Ano após ano, o governo Tarcísio reduziu a execução das verbas destinadas à Secretaria de Políticas para a Mulher. Em 2025, cerca de 70% do orçamento disponível para a área deixou de ser investido. Neste ano, o percentual não executado chegou a 54%.
Considerando o orçamento atual, o valor destinado às políticas de proteção equivale a apenas 18 centavos por mulher.
A deputada estadual Mônica Seixas (PSOL) associa o aumento da violência ao que classifica como descaso do governo com a proteção das mulheres.
“Tarcísio vai à TV comemorar a queda de furtos de carros e dizer que isso é índice de segurança, mas, ao mesmo tempo, o estado bate recorde de feminicídio.
Estamos chocadas não só com o número de casos, mas com a violência empregada, que é cada vez mais brutal. Falta uma política robusta de proteção”, afirma.
Para a parlamentar, a redução dos investimentos e o enfraquecimento da rede pública de acolhimento criam um ambiente em que situações de violência que poderiam ser interrompidas acabam chegando ao desfecho mais extremo.
“Em grande parte dos casos, esse crime é uma morte evitável, porque a maioria das vítimas tem um histórico de vulnerabilidade. Essa mulher já acionou algum equipamento público para buscar ajuda, seja uma delegacia, seja uma unidade de saúde. Ao desestruturar essa rede, o Estado empurra as mulheres para a morte”, diz Seixas.
Os dados reunidos pelo Sou da Paz ajudam a dimensionar essa escalada antes mesmo que ela chegue ao feminicídio. Na capital paulista, os registros de agressões físicas contra mulheres cresceram 119% desde 2022.
Para Malu Pinheiro, esses episódios deveriam funcionar como sinais de alerta capazes de interromper um ciclo de violência antes que ele termine em morte.
“O feminicídio é a expressão mais evidente de violências que se acumulam e, por vezes, não são observadas, até que a mulher se torne uma vítima”, afirma.
Na avaliação da especialista, a proteção às mulheres precisa deixar de ser tratada como uma atribuição restrita às forças de segurança e se transformar em uma política pública permanente, articulada entre diferentes áreas do Estado.
Essa também é a avaliação de Seixas. Diante da dimensão do problema, a deputada defende que prevenção, acolhimento e fiscalização sejam incorporados de forma transversal às políticas públicas.
“O governador deveria estar investindo mais na Saúde, fortalecendo os hospitais de acolhimento para que os profissionais sejam capazes de identificar a violência no início. Cadê a reserva orçamentária para ampliar as Delegacias da Mulher? Cadê a formação dos policiais, os dossiês anuais para conhecermos esses dados, o debate junto à Justiça para monitorar as medidas protetivas? É preciso mobilizar todas as áreas”, afirma.
Interior concentra 69% dos feminicídios
A distribuição dos crimes pelo território paulista também evidencia desigualdades no acesso à rede de proteção. Segundo o levantamento do Sou da Paz, cerca de 69% dos feminicídios registrados no estado ocorrem no interior.
“A diferença entre os territórios sugere que as estratégias de prevenção e enfrentamento da violência contra as mulheres precisam considerar as desigualdades regionais na oferta e no acesso a serviços de proteção, atendimento e responsabilização”, aponta o estudo.
Para Pinheiro, além de ampliar e consolidar a rede de atendimento, é necessário garantir maior agilidade na concessão e no cumprimento das medidas protetivas de urgência e fortalecer iniciativas como as Patrulhas Maria da Penha.
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