Política

Candidaturas femininas aos governos em 2026 resistem em número, mas encolhem em competitividade

Apesar de representarem 52,8% do eleitorado, elas chegam em menor número ao centro das principais corridas estaduais e ficam fora das chapas competitivas ao Planalto

Candidaturas femininas aos governos em 2026 resistem em número, mas encolhem em competitividade
Candidaturas femininas aos governos em 2026 resistem em número, mas encolhem em competitividade
Raquel Lyra (Pernambuci), Hana Ghassan (Pará) e Juliana Brizola (Rio Grande do Sul): candidatas ao governo em 2026, em um cenário de menor protagonismo feminino nas disputas majoritárias - Divulgação/Ag. Pará/Secom GOVPE/Facebook
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Eleições 2026

As convenções partidárias encerradas na semana passada consolidaram um cenário de menor protagonismo feminino nas eleições de 2026. Embora o número total de mulheres candidatas aos governos estaduais permaneça próximo ao registrado quatro anos atrás, elas chegam à disputa em posição menos competitiva, com poucas representantes no centro das principais corridas estaduais e nenhuma mulher em uma chapa presidencial com condições de romper a polarização entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

Neste ano, 32 mulheres disputarão os governos estaduais e o Distrito Federal. Em 2022, foram 34 candidatas. A diferença numérica é pequena, mas o perfil das candidaturas mudou: enquanto a eleição passada teve mulheres protagonizando algumas das disputas mais importantes do País, o cenário atual concentra as postulantes com maior potencial eleitoral em um grupo restrito de governadoras, vice-governadoras e senadoras.

Há quatro anos, a eleição em Pernambuco foi marcada pelo confronto entre Raquel Lyra (à época no PSDB) e Marília Arraes (Solidariedade), que chegaram ao segundo turno, com vitória de Lyra. No Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT) conquistou a reeleição. Em Mato Grosso do Sul, Rose Modesto (União Brasil) terminou a disputa em segundo lugar. Em Roraima, Teresa Surita (MDB) manteve uma candidatura competitiva contra o grupo político que governava o estado.

Em 2026, o cenário é diferente. Entre as mulheres com maior capacidade de disputa estão justamente aquelas que já ocupam posições de poder dentro das estruturas estaduais. Lyra agora tenta a reeleição contra o ex-prefeito de Recife, João Campos (PSB). Depois de meses atrás nas pesquisas, a candidata do PSD ganhou tração e reduziu a distância para o adversário, tornando a disputa uma das principais corridas estaduais do País.

No Pará, Hana Ghassan (MDB) também disputa o governo após ocupar a vice-governadoria nos últimos três anos. No Distrito Federal, Celina Leão (PP) concorre como sucessora do emedebista Ibaneis Rocha, de quem foi companheira de chapa há quatro anos. Já em Tocantins, a senadora Professora Dorinha (União) aparece como principal nome feminino na disputa. Juliana Brizola (PDT), no Rio Grande do Sul, é outro exemplo: com trajetória política ligada a uma família tradicional do estado e experiência como deputada estadual, ela chega à disputa amparada por um capital político acumulado ao longo de anos.

A maior parte das candidaturas femininas deste pleito, porém, está concentrada em legendas com menor estrutura eleitoral ou em disputas estaduais com baixa competitividade. Entre os nomes homologados estão candidatas de partidos como Unidade Popular, PSTU, PCB, PCO e outras siglas de menor capilaridade eleitoral.

Arte/CartaCapital

Esse contraste ajuda a explicar um dos principais desafios da representação política das mulheres no Brasil. “As mulheres já são reconhecidas pelos partidos como uma força eleitoral decisiva. São disputadas como eleitoras, pesquisadas como segmento e mobilizadas pelas campanhas. Mas ainda não são reconhecidas como força política, com espaço para definir prioridades e disputar os principais cargos em condições semelhantes às dos homens”, pontua Carol Althaller, diretora executiva do Instituto Update, organização voltada à participação política e ao fortalecimento de democracias participativas.

A cientista política Monalisa Torres, professora da Universidade Estadual do Ceará, aponta outro obstáculo: o funcionamento interno dos próprios partidos. Segundo ela, poucas mulheres ocupam os órgãos de deliberação das legendas, justamente os espaços em que são definidas candidaturas e a distribuição de recursos. “Poucas são aquelas que têm mulheres que ocupam esse lugar e que definem as candidaturas”, afirma a pesquisadora, para quem a barreira não se limita a um campo ideológico.

“Essas dificuldades, essas barreiras institucionais para candidaturas femininas, não acontecem só em partidos de direita, mas também em partidos de esquerda. Tem muito a ver com ainda essa rigidez institucional dos partidos de permitir que minorias consigam acessar os espaços onde se deliberam de fato sobre as candidaturas, sobre os recursos que vão para essas candidaturas”, completa Torres.

Ao longo dos últimos anos, a legislação eleitoral criou mecanismos para ampliar a participação feminina nas disputas proporcionais. Nas disputas para o Legislativo, por exemplo, cada partido ou federação deve observar o mínimo de 30% e o máximo de 70% de candidaturas de cada gênero.

Também há uma reserva mínima de recursos públicos para candidaturas femininas. Para o Fundo Especial de Financiamento de Campanha, os partidos devem destinar pelo menos 30% dos recursos às candidaturas de mulheres, percentual que deve acompanhar a proporção de candidatas quando ela for maior. A política, porém, enfrenta sucessivas tentativas de flexibilização, tanto dos limites exigidos quanto das sanções a quem descumpre as regras.

Nas eleições majoritárias, entretanto, não existe qualquer mecanismo que obrigue os partidos a lançar candidatas ou estimule a construção de candidaturas femininas. A decisão depende exclusivamente da estratégia das legendas e das negociações internas que definem quem terá acesso às alianças, aos recursos financeiros e ao tempo de propaganda.

A ausência de uma exigência legal neste caso contrasta com o peso que as mulheres têm adquirido nas urnas.

Dados do Tribunal Superior Eleitoral apontam que 83,9 milhões de mulheres estarão aptas a votar em outubro, o equivalente a quase 53% do eleitorado nacional. Em relação às eleições de 2022, houve um crescimento de cerca de 1,5 milhão de eleitoras. Elas seguem como maioria entre os brasileiros aptos a escolher presidente, governadores, senadores e deputados. Daí o porquê de o eleitorado feminino ter se tornado um dos principais alvos das campanhas presidenciais.

Flávio Bolsonaro (PL), por exemplo, chegou a considerar uma mulher para a vice-presidência, em uma tentativa de ampliar a chapa e reduzir resistências entre eleitoras. A estratégia ganhou força após o conflito público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que acusou o enteado de desrespeitá-la e maltratá-la durante uma discussão sobre os rumos da campanha.

A escolha, porém, acabou recaindo sobre o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), anunciado como vice de Flávio na semana passada – o parlamentar é alvo de pedido de investigação por suposto estupro de vulnerável. Entre os nomes femininos cogitados estavam a senadora Tereza Cristina (PP) e Daniella Marques, ex-presidente da Caixa, mas as articulações não avançaram.

Lula também tem intensificado a interlocução com as eleitoras. Em discurso recente, o presidente dedicou parte da fala a temas relacionados à divisão de tarefas domésticas e à violência contra a mulher, afirmando que a luta por “respeito e dignidade” das mulheres também é responsabilidade dos homens. Entre outras iniciativas, a campanha dele prepara a criação do Comitê Nacional Mães com Lula, voltado à mobilização de mulheres e à discussão de pautas relacionadas à maternidade.

A mobilização pelo voto feminino, no entanto, não se traduz em maior presença de mulheres no topo das próprias chapas. A disputa presidencial é o exemplo mais evidente. Pela primeira vez desde a redemocratização, nenhuma das chapas competitivas à Presidência é encabeçada ou integrada por uma mulher. Há duas chapas integralmente femininas na eleição: a da Unidade Popular, que lançou Samara Martins à Presidência e Raquel Brício como vice, e a do Democracia Cristã, com Clariana Brandão e Fabiana Torquato. Nas chapas do PCB, PRTB e PSTU, as mulheres aparecem como candidatas a vice.

Esse cenário contrasta com as quatro eleições anteriores. Em 2010, Dilma Rousseff tornou-se a primeira mulher presidente da República. Quatro anos depois, disputou a reeleição tendo Marina Silva como uma de suas principais adversárias. Em 2018, a ambientalista voltou a concorrer ao Planalto e, há quatro anos, Simone Tebet (hoje no PSB) consolidou-se como uma das candidaturas nacionais de maior visibilidade.

Para Carol Althaller, do Instituto Update, o cenário de 2026 expõe a dificuldade dos partidos em formar novas lideranças femininas. “Se as mulheres que conseguem chegar fortes às eleições majoritárias são quase sempre aquelas que já ocupavam posições centrais ou faziam parte de grupos políticos consolidados, está provado que os caminhos para a renovação são muito estreitos”, afirma. “Se esse investimento não acontece entre uma eleição e outra, chegamos ao período eleitoral e tratamos como surpresa a falta de mulheres competitivas”.

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