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A ilusão da iluminação instantânea
O que existe por trás da ideia do ‘despertar’ no senso comum sobre psicodélicos e no ‘ego espiritual’ do Vale do Silício
Muito se fala em revolução espiritual, despertar, expansão da consciência e iluminação. Os psicodélicos são frequentemente vendidos como um elevador para a paz, para o amor e para uma versão mais evoluída de nós mesmos. Como se uma substância pudesse fazer, em seis horas, o trabalho que uma vida inteira de autocrítica, responsabilidade e amadurecimento raramente consegue realizar.
Mas os psicodélicos não funcionam exatamente assim.
A história está cheia de exemplos que deveriam nos tornar mais cautelosos diante desse romantismo. Temos episódios sombrios, como a seita da Família Manson, surtos psicóticos e bad trips que se transformaram em verdadeiros filmes de terror. O contato com estados ampliados de consciência não torna ninguém automaticamente mais sábio, mais ético ou mais compassivo.
Se assim fosse, talvez o mundo já tivesse sido salvo pelo Vale do Silício.
Uma boa parcela de bilionários e magnatas da tecnologia, como Bill Gates, Steve Jobs e Elon Musk, fez ou ainda faz uso de substâncias psicodélicas. Nem por isso abandonou ideias imperialistas, a concentração obscena de riqueza ou a lógica de exploração que caracteriza parte do capitalismo contemporâneo. A expansão da consciência, ao que parece, não expandiu tanto assim a preocupação com os demais.
Não basta fazer turismo no inconsciente.
Uma viagem ao mundo interior pode, inclusive, reforçar crenças e preconceitos já existentes, em vez de destruí-los. Tudo depende do contexto, da dose, da preparação e, sobretudo, da intenção de quem viaja. Os psicodélicos costumam amplificar aquilo que já existe dentro de nós. E nem tudo o que existe dentro de nós é bonito, sábio ou revolucionário.
Um mergulho psicodélico quase sempre é revelador. Mas revelação e transformação são coisas muito diferentes.
Existem pessoas que consagram ayahuasca e outras medicinas com uma frequência quase litúrgica e, ainda assim, saem de cada cerimônia mais convencidas de sua própria excepcionalidade. Tornam-se escolhidas, emissárias de entidades extraterrestres, portadoras de segredos cósmicos, seres de luz que acreditam ter finalmente derrotado o ego.
Talvez tenham derrotado muitas coisas. O ego, geralmente, não é uma delas.
Porque existe algo particularmente sedutor no ego espiritual: ele consegue se vestir de humildade. Ele aprende um novo vocabulário, troca a arrogância convencional pela arrogância transcendental e passa a acreditar que está alguns degraus acima do restante da humanidade.
A verdade é bem mais simples e menos glamourosa do que gostaríamos de admitir: os psicodélicos podem abrir portas, mas não escolhem por nós o que faremos depois de atravessá-las. Eles não fabricam seres humanos melhores. Não distribuem empatia, maturidade ou senso de justiça.
E, por mais incômodo que isso seja para alguns entusiastas, muitas vezes uma viagem é apenas uma viagem. Sem grandes revelações, sem epifanias cósmicas, sem qualquer colheita espiritual digna de virar testemunho em uma roda de integração. Não fosse assim, não existiriam tantos psiconautas que tomam LSD ou cogumelos em contextos puramente recreativos, em busca apenas de diversão, curiosidade ou prazer estético.
É um fenômeno curioso: algumas pessoas usam psicodélicos para dissolver fronteiras e acabam construindo um pedestal. Trocam a vaidade material pela vaidade espiritual, que costuma ser mais difícil de reconhecer e infinitamente mais elegante de exibir.
Com os queixos tão levantados que já não acessam o mundo do real e do palpável, observando constantemente as estrelas, enquanto os buracos aguardam o tropeço inevitável da vida real.
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