Mundo

Brasil descarta acelerar aval a embaixador dos EUA e vê crise com o país entrar em espiral até as eleições

A indicação de Daniel Perez deve ficar congelada após revogação do visto de Maria Luiza Viotti; episódio é mais um capítulo de deterioração que tende a se aprofundar até outubro

Brasil descarta acelerar aval a embaixador dos EUA e vê crise com o país entrar em espiral até as eleições
Brasil descarta acelerar aval a embaixador dos EUA e vê crise com o país entrar em espiral até as eleições
O ministro das Relações Exteriores, o chanceler Mauro Vieira; o presidente Lula (PT); e o assessor-chefe da Assessoria Especial da Presidência da República, Celso Amorim. Foto: Evaristo Sa/AFP
Apoie Siga-nos no
Eleições 2026

A decisão dos Estados Unidos de revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, não alterou a estratégia do Palácio do Planalto para a indicação do futuro (ou não) embaixador norte-americano em Brasília. Pelo contrário. Integrantes do governo afirmam que a possibilidade de acelerar a concessão do agrément ao indicado de Donald Trump, Daniel Perez, tornou-se praticamente inexistente, consolidando uma crise diplomática vista pelo governo como uma escalada de difícil reversão antes das eleições presidenciais.

A avaliação no governo Lula (PT) é que a relação bilateral deixou de ser marcada por episódios isolados e passou a seguir uma lógica de sucessivas respostas e contrarrespostas. Cada novo gesto amplia o desgaste e reduz o espaço para uma solução negociada no curto prazo. A expectativa predominante é de que a tensão continue crescendo ao longo da campanha eleitoral.

A revogação do visto de Viotti foi apresentada por Washington como resposta à demora brasileira em conceder o aval diplomático para Daniel Perez. Nos bastidores do governo, porém, a justificativa é considerada insuficiente para explicar a medida. O entendimento é que a resistência ao nome do republicano não nasceu do atraso em si, mas da forma como sua indicação foi conduzida.

O governo Trump anunciou publicamente Perez antes mesmo de consultar oficialmente o Brasil, rompendo uma prática tradicional da diplomacia, segundo a qual o país anfitrião é procurado de maneira reservada antes da divulgação do nome. O pedido formal de agrément só chegou semanas depois do anúncio. No Itamaraty, o procedimento foi interpretado como um desrespeito ao protocolo diplomático, razão pela qual o governo decidiu não tratar a análise da indicação com prioridade.

Agora, a tendência é que esse processo permaneça congelado.

Deterioração das relações

A decisão norte-americana também é interpretada em Brasília como uma retaliação à negativa brasileira de conceder vistos aos funcionários do Departamento de Estado Riley Barnes e Samuel Samson. O Itamaraty impediu a viagem da dupla após entender que a missão poderia abrir espaço para questionamentos sobre o processo eleitoral brasileiro.

Nos bastidores do governo, porém, a crise é considerada muito mais ampla do que o episódio envolvendo os dois servidores ou a demora no agrément. Há uma sequência de iniciativas adotadas pelos Estados Unidos que, na visão brasileira, elevaram progressivamente o nível do confronto entre os dois países.

Entre elas estão:

Nesse contexto, a revogação do visto de Viotti passou a ser vista como apenas mais um capítulo de uma deterioração que já vinha sendo construída ao longo dos últimos meses.

Consequências concretas

Embora o gesto tenha forte peso político, seus efeitos práticos ainda são limitados. Segundo explicações dadas pelo próprio Departamento de Estado dos EUA, a embaixadora poderá continuar exercendo suas funções e somente precisará solicitar um novo visto caso deixe o país e deseje retornar. A característica predominantemente simbólica da medida reforçou, entre diplomatas, a avaliação de que Washington buscou produzir impacto político sem alterar imediatamente o funcionamento da representação brasileira.

No Planalto, a avaliação é que qualquer tentativa de distensão neste momento teria custo político elevado. Já entre diplomatas brasileiros prevalece o diagnóstico de que a relação entre Brasília e Washington atravessa seu momento mais delicado dos últimos anos e dificilmente voltará à normalidade antes da definição das eleições de outubro.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo