Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
O visionário de Abruzzo
Como Emidio Pepe enfrentou a indústria, antecipou a onda dos vinhos naturais e provou que o tempo era o maior aliado das uvas de sua terra
No início dos anos 1970, Emidio Pepe embarcou para os Estados Unidos com garrafas suas em uma mala e uma missão: apresentar ao mercado americano a revolução que iniciara quase uma década antes em Abruzzo. Encravada entre o Adriático e os Apeninos, a leste de Roma, a região permanecia à margem da atenção de críticos e enófilos. Na bagagem, Pepe levava garrafas do seu próprio tinto, elaborado com a uva local Montepulciano, uma casta à época desdenhada, tida por muitos como medíocre até para o preparo de molhos. Mas ele estava decidido a provar o contrário.
A virada de chave começara em 1964, quando fundou a vinícola que leva seu sobrenome. Ao assumir os vinhedos cultivados por seu pai para a venda de vinho a granel, Pepe rompeu com o padrão vigente. À época, os produtores locais destinavam suas colheitas a grandes cooperativas ou ao autoconsumo familiar, prática que seus antepassados mantiveram desde 1899. Onde o mercado enxergava apenas volume a granel, Pepe vislumbrava outra coisa: fazer história. Estava convicto de que tanto seus vinhos brancos quanto tintos guardavam potencial de guarda. A confiança era tanta que reservou para isso uma parte importante de espaço na adega para reservar cerca de 50% da produção para ser lançada ao longo dos anos.
Era essa a razão pela qual ele estava nos Estados Unidos. Uma garrafa foi parar na mesa de Lidia Bastianich, apresentadora premiada de televisão americana e autora de livros de culinária. Lidia gostou tanto que comprou o restante do que Emidio tinha trazido na mala para servir na abertura de seu restaurante, o Felidia, em Manhattan. Na inauguração do endereço, sentou-se à mesa e bebeu uma garrafa do Montepulciano. Centenas de pedidos chegaram à vinícola quando os jornais americanos estamparam as fotografias do evento. Nunca mais a família parou de viajar. A vinícola se tornou tão reputada no exterior como a de Angelo Gaja ou de Biondi Santi.
Emidio Pepe, que faleceu em 28 de julho, aos 94 anos, é um dos personagens icônicos da história moderna do vinho italiano, tendo escrito páginas de Abruzzo, uma região sem a reputação, por exemplo, do Piemonte, cujos vinhos sempre estiveram presentes entre nobres e a Casa de Savoia desde a unificação no século XIX. “Meu avô foi o primeiro a engarrafar na região, para mostrar às pessoas que a Montepulciano tem potencial de guarda. Até o pai dele achava que ele era louco”, recordou-se a neta Chiara em almoço em São Paulo há alguns anos. Os vinhos da vinícola voltam a ser importados no Brasil nesse segundo semestre pela importadora Clarets.
Chiara Pepe, que assumiu o comando da vinícola na safra 2020 e agora, em 2026, irá também comandar um dos mais famosos vinhos do planeta (La Chapelle, em Hermitage, na França), contou que o avô ficou feliz quando ela assumiu a vinícola, também uma das precursoras da biodinâmica. “Ele ficou orgulhoso e foi o primeiro a beber o que eu vinifiquei.”
Desde sua infância, Chiara viu seu avô trabalhar nas videiras e na cantina. Foi para a França estudar enologia e fez um estágio de um ano na Borgonha, no domaine Chandon de Briailles. Quando assumiu, manteve tradições. Desde 1964, não se usam defensivos para tratar os vinhedos. Primeiro, porque não existiam naquela época; segundo, porque poderiam trazer algum impacto para os vinhos. Não se usa madeira. Os vinhos são envelhecidos em grandes tonéis de cimento com leveduras naturais e vendidos quando a família julga estarem prontos para serem bebidos. As uvas são colhidas à mão e pisadas em um grande tonel de madeira. Eles começaram fazendo vinhos naturais décadas antes de o termo, em voga hoje, ter nascido.
“Quando assumi, foi uma questão de manter a história do meu avô. Não fazemos nem faremos concessões para o mercado.” Emidio foi um dos primeiros a construir um espaço para envelhecer seus vinhos por longos períodos em garrafas antes do lançamento. A vinícola conta com uma adega com capacidade para envelhecer 350.000 garrafas. Há 50 anos, Montelpuciano era um vinho para ser bebido jovem, o governo encorajava cada vinícola a produzir centenas de milhares de garrafas para serem vendidas. “Meu avô ficou furioso e, por isso, decidiu apostar em outra direção e ir para os Estados Unidos ver se entendiam sua filosofia, que sempre foi natural.”
Assim como Pepe fez história e ajudou a posicionar regiões menos conhecidas nos holofotes, outro nome importante da história do vinho na Itália foi o crítico Luigi Veronelli, que foi amigo de Mino Carta. Em 2017, um evento foi feito nos Estados Unidos para homenagear Veronelli, morto em 2004. Emidio Pepe levou na mala um tinto 1975, mas pediu que a neta (e tradutora) Chiara não falasse do vinho aos presentes, mas do respeito que ele tinha pelo crítico. Disse que, ao longo dos anos, teve vários desentendimentos com Veronelli, mas que Veronelli tinha sido um importante defensor dos pequenos produtores e do artesanato no vinho.
Um dos mantras do crítico era: “Quanto menor for a propriedade, quanto menor o vinhedo, mais perfeito o vinho; é fácil demais esquecer os pequenos produtores, e isso é uma grande injustiça”. A influência de Veronelli foi sentida no Piemonte. Quando viajava à região, defendia que cada produtor buscasse engarrafar terrenos específicos e mostrar isso nos rótulos, como os franceses faziam havia séculos.
Ao rejeitarem a padronização industrial, Veronelli e Emidio ajudaram a redefinir o próprio status do vinho italiano contemporâneo. A herança de Pepe segue viva por vários vinhedos do sul ao norte do país: o valor de um grande vinho não se mede pela escala, mas pela fidelidade ao terroir, pelo rigor do trabalho manual e pelo tempo necessário para atingir a plenitude, mesmo que a ansiedade hoje seja crescente e que conglomerados industriais estejam cada vez mais de olho nesse nicho.
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