Josué Medeiros

site@cartacapital.com.br

Cientista político e professor da UFRJ e do PPGCS da UFRRJ. Coordena o Observatório Político e Eleitoral (OPEL) e o Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (NUDEB)

Nilza Valéria Zacarias

Coordenadora executiva da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito

Colunas

A reviravolta na intenção de voto dos evangélicos e as possibilidades positivas para Lula

O espaço para diálogo com os religiosos deste campo está aberto, sendo fundamental para derrotar o bolsonarismo em 2026

A reviravolta na intenção de voto dos evangélicos e as possibilidades positivas para Lula
A reviravolta na intenção de voto dos evangélicos e as possibilidades positivas para Lula
O presidente Lula (PT). Foto: Evaristo Sa/AFP
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Eleições 2026

Boas novas: as pesquisas da reta final da pré-campanha de 2026 trouxeram um dado animador para a democracia, com a vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula entre o eleitorado evangélico diminuindo consideravelmente. Na Quaest divulgada em 15 de julho, o filho do ex-presidente Bolsonaro marcou 53% das intenções de voto contra 31% do atual presidente. Esses 22% de diferença são bem menos do que os 36% de maio, quando Flávio registrou 61% da preferência dos crentes e Lula apenas 24%.

Esse retrato atual das pesquisas quantitativas já estava sendo captado nas pesquisas qualitativas com grupos focais que o Observatório Político e Eleitoral e a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito realizaram entre abril e julho de 2026. Dos 84 grupos que o OPEL realizou, 26 foram integrados somente por pessoas evangélicas e que se somam aos 20 grupos focais que fizemos desde 2023. Trata-se, portanto, de uma amostra significativa, com mais de 250 crentes de 12 capitais brasileiras em 2026, e que nos permitiu elaborar consistentemente sobre o comportamento político dos evangélicos.

Vale destacar que o termo evangélico virou, nos últimos anos, mais do que o pertencimento religioso. Ele tem sido usado como um carimbo que, na maioria das vezes, determina que aquela pessoa deve ser tratada com suspeição, que não tem autonomia para fazer as próprias escolhas, capturadas por projetos políticos antidemocráticos. Esse destaque é fundamental para explorar nossos achados.

Bem como é importante destacar a nota metodológica: os grupos focais presenciais são uma metodologia qualitativa, sem pretensão de precisão estatística. Eles são feitos a partir de um recrutamento aleatório (assim como ocorre com as pesquisas quanti) e levam em conta os dados do IBGE e do TSE sobre a composição do eleitorado, com paridade de gênero e proporcionalidade de raça e religião. A principal contribuição desta metodologia é desenvolver percepções, valores e questões que nos surveys tipo Quaest e Datafolha aparecem de modo estático, sem nuances e reflexões.

A partir desses destaques, o primeiro ponto a considerar é que não há nenhum tipo de “voto evangélico” unificado. As pessoas declaradas crentes são também homens e mulheres, brancos, pardos e pretos, trabalham formal e informalmente em inúmeras ocupações distintas, moram nos mais variados bairros de suas cidades, são de idades e possuem escolaridades diversas. Vivenciam, portanto, os prazeres e problemas do dia a dia de múltiplas formas e formam suas opiniões a partir de um sem número de combinações. O maior ou menor impacto do seu pertencimento de fé no comportamento político depende de todas essas variáveis e não pode nem deve ser cristalizado e estigmatizado. Assim como qualquer outra pessoa, de qualquer outra religião.

Isso se expressa em como as pessoas evangélicas respondem de modo espontâneo nos grupos focais sobre suas vidas. A maioria das e dos crentes relata os problemas que afligem toda a população, tais como mobilidade urbana, segurança pública, renda e poder de compra e saúde. Não há um problema unificado e a religião não aparece centralmente nessas respostas. E, assim como ocorre com todos os demais grupos do nosso povo – e isso é ainda mais forte em ano eleitoral – as pessoas evangélicas responsabilizam os políticos por essas dificuldades, apresentando uma visão bem negativa sobre a política.

A soma do conjunto de problemas vividos pelas pessoas com a crítica à política gerou, a partir de 2014, um forte sentimento antissistema, capturado pela extrema-direita e pelo bolsonarismo. Os evangélicos foram particularmente tragados por essa onda reacionária nas eleições de 2016 e 2018. Mas isso começou a mudar na pandemia da Covid-19. Tanto no conjunto da população quanto para as e os crentes.

Nos grupos focais e também em diversas plenárias de mobilização que a Frente organizou em 2025 – foram sete reuniões com mulheres evangélicas no Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, Caruaru, Manaus, Belém e Distrito Federal – capturamos diversas falas das pessoas evangélicas , sobretudo entre as mulheres, que sim, se colocam em uma posição que classificamos como desconfiada para com as instituições; e que, ao mesmo tempo, demandam políticas públicas diversas e mais presença do Estado em suas vidas.

Temas como violência contra a mulher, ampliação do acesso à educação (com destaque para o programa Pé de Meia), geração de renda e de crédito (nesse tópico, o programa Desenrola foi bastante citado), acesso à saúde e mais segurança pública são os que predominam entre as pessoas que entrevistamos e mobilizamos. De cada 10 participantes dos grupos focais, apenas um se enquadra no perfil típico da extrema-direita, que difunde as fake news mais conhecidas e prioriza temas que reforçam a visão conservadora sobre direitos reprodutivos e a visão meritocrática sobre economia e Estado.

As pesquisas nos deram a certeza de que 90% dos evangélicos são pessoas que convergem para as diferentes formas de ver o mundo que marcam a democracia. Não significa que sejam de esquerda e progressistas, assim como não o são a maioria dos católicos, por exemplo. Mas estão dentro do escopo do debate democrático e podem ser convencidos por um projeto de combate às desigualdades e de promoção da cidadania.

Abordar o tema das vacinas foi exemplar. As pessoas evangélicas estão mais expostas à terrível politização da imunização que o bolsonarismo promoveu, mais do que em outros grupos segmentados pesquisados. Todavia, mesmo com as opiniões afetadas pela desinformação, o apoio às vacinas foi de 80% no universo pesquisado. E os 20% restantes não são necessariamente contrários à imunização, mas sim de uma postura desconfiada contra as “vacinas novas” (Covid, Gripe e Dengue) que, nestas falas “céticas”, teriam sido produzidas com pouco tempo de estudo e que acabariam por piorar o quadro de saúde de quem as toma. O detalhe: mais de 90% dos participantes tomaram pelo menos uma dose da vacina contra Covid, contrariados ou não.

Desconfiança, mas não rejeição. Insatisfação com a política, mas sem adesão ao antissistema radical. O espaço para diálogo com as pessoas evangélicas está aberto, sendo fundamental para derrotar o bolsonarismo em 2026 e consolidar um novo ciclo da democracia brasileira nos próximos anos. E, sendo diálogo uma via de mão dupla, é importante para quem acredita que o país pode vencer seus problemas, entender como é a nova religiosidade do Brasil.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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