Diálogos da Fé

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Os evangélicos são de direita?

Enquanto a direita disser ‘sua família está em perigo’ e a esquerda responder apenas com nota técnica, a batalha começará perdida antes mesmo do culto terminar

Os evangélicos são de direita?
Os evangélicos são de direita?
Culto na Assembleia de Deus Vitória em Cristo, do pastor Silas Malafaia, com Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Douglas Ruas (PL-RJ), Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Cláudio Castro (PL) e Marcelo Crivella (Republicanos-RJ). Foto: ADVEC/Reprodução
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Uma pesquisa Datafolha apontou que os evangélicos brasileiros estão mais à direita que outros segmentos religiosos e que essa inclinação aparece com mais força no eixo comportamental do que no econômico. Segundo o levantamento, 52% dos evangélicos se identificam com posições de direita ou centro-direita. Entre os católicos, esse número é de 43%, em um quadro mais equilibrado com o campo da esquerda e da centro-esquerda.

A conclusão mais fácil é a de que “os evangélicos são de direita”. É também a mais pobre. Serve para post indignado de quem nunca precisou entender de perto um campo religioso amplo, desigual, contraditório e atravessado por disputas internas. O que a pesquisa ajuda a enxergar é mais sofisticado. Nas últimas décadas, os evangélicos se tornaram um dos terrenos mais férteis para a tradução religiosa da direita comportamental, que aprendeu a falar essa língua com mais propriedade que a esquerda.

O evangelicalismo brasileiro, sobretudo em sua matriz pentecostal, fala de reorganização da vida, oferecendo linguagem para nomear o caos doméstico, a violência, o vício, a humilhação, a dívida, o fracasso, a doença, a culpa, a esperança. A direita percebeu que essa linguagem podia ser convertida em política. Não precisava convencer o fiel, primeiro, de uma teoria econômica ou de um programa de governo. Bastava traduzir disputas públicas em ameaças morais reconhecíveis como a “escola que corrompe”, “o Estado que invade a família”, “a esquerda que persegue cristãos”. A política deixou de parecer política e passou a parecer defesa da casa.

A esquerda institucional, por sua vez, falou em direitos, estruturas, desigualdade, cidadania, políticas públicas e uma série de temas fundamentais, mas quase sempre mediados por uma linguagem que soa mais institucional e, por isso mesmo, aparentemente distante da angústia cotidiana. Enquanto a direita dizia “estão mexendo com seus filhos”, a esquerda respondia com “é preciso fortalecer marcos regulatórios”.

Somado a isso, o campo evangélico forma opinião semanalmente, às vezes diariamente, por meio de culto, louvor, testemunho, aconselhamento, rádio, televisão, redes sociais, grupos de WhatsApp. Já boa parte da política progressista ainda opera como se a disputa de valores acontecesse essencialmente durante campanhas eleitorais.

Afinal, os evangélicos são de direita? Depende da pergunta.

No eixo econômico, grande parte dos evangélicos brasileiros vive nas periferias, depende do SUS, da escola pública, de programas sociais, do transporte coletivo, do crédito, do emprego formal ou informal e de alguma presença do Estado para atravessar a brutalidade do dia a dia. Não há, aí, uma paixão espontânea por Estado mínimo. O fiel que ora pelo aluguel, pelo botijão, pela vaga do filho na creche e pela consulta médica não acorda necessariamente sonhando com Paulo Guedes.

Mas, no eixo comportamental, já não se fala apenas de imposto e gasto público. Fala-se do filho, da escola, da família, do corpo, do sexo, da autoridade, da masculinidade, da infância. A direita descobriu que a política dos costumes é barata e altamente inflamável. Não precisa entregar hospital ou melhorar salário, bastando dizer que “querem destruir a família”.

O bolsonarismo não inventou essa engrenagem, mesmo porque seria genialidade demais para um movimento que opera pelo reflexo condicionado. O que fez foi batizar politicamente medos que já circulavam havia anos nos templos, nos programas de TV, nas campanhas contra a chamada “ideologia de gênero”, nas pregações sobre decadência moral e nas fantasias de que os evangélicos seriam uma minoria sitiada em um país que, na prática, é profundamente atravessado pelo cristianismo.

Por isso, quando se fala que evangélicos estão mais à direita, é preciso perguntar à direita em quê? No desejo de acabar com direitos trabalhistas? Nem sempre. Na defesa de uma sociedade sem proteção social? Não necessariamente.

Até aqui, parte dos setores progressistas ainda oscila entre dois erros. O primeiro é enxergar esse eleitorado como se ele fosse apenas massa de manobra. O segundo é tentar se aproximar dele por meio de gestos folclóricos, como se bastasse citar Deus, distribuir versículo, gravar vídeo com pastor, falar alguma coisa sobre a vida de Jesus. O evangélico brasileiro é um sujeito social atravessado por fé, trabalho, medo, desejo, ressentimento, esperança e disputa.

Isso ajuda a explicar por que o eixo comportamental mobiliza mais do que o econômico. O mesmo fiel pode desconfiar do PT e defender Bolsa Família, votar em candidato liberal e querer emprego público, repetir discurso de empreendedorismo e depender de política social. A moralidade oferece uma identidade mais limpa porque divide o mundo entre certo e errado, Deus e pecado.

A questão para a esquerda, para os democratas e para quem ainda leva o Estado laico a sério não é como “neutralizar os evangélicos”. A pergunta é como disputar uma sociedade na qual milhões de pessoas aprenderam a traduzir insegurança social em ameaça moral. Será mesmo que os evangélicos são de direita ou a direita aprendeu a falar evangélico? Enquanto a direita disser “sua família está em perigo” e a esquerda responder apenas com nota técnica, a batalha começará perdida antes mesmo do culto terminar.

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