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Sem o Centrão, Flávio Bolsonaro recorre à direita internacional e acende alerta no Planalto
O governo Lula interpreta aproximação com Trump, Milei, Rubio e Netanyahu como tentativa de interferir na disputa presidencial e reforçar um candidato considerado fraco
A sucessão de gestos de Donald Trump, Marco Rubio, Javier Milei e Benjamin Netanyahu em direção à campanha de Flávio Bolsonaro (PL) consolidou no Palácio do Planalto a percepção de que a extrema-direita internacional atua de forma coordenada para tentar influenciar a eleição brasileira. A avaliação do governo Lula (PT) é que a estratégia combina pressão diplomática, imposição de tarifas, ataques ao sistema eleitoral, mobilização nas redes sociais e exposição internacional do senador do PL, cuja candidatura é vista por auxiliares do presidente como politicamente fraca e dependente de apoios externos.
Essa leitura vinha sendo construída desde as manifestações de Rubio em defesa de Flávio Bolsonaro e ganhou força após a participação de Milei na convenção nacional do PL. No governo petista, a aproximação do bolsonarismo com Netanyahu também passou a integrar esse mesmo diagnóstico: o de uma campanha que busca respaldo em lideranças conservadoras estrangeiras para ampliar seu alcance político, diante das dificuldades de formar alianças no Brasil.
A preocupação do governo Lula com uma eventual interferência externa na eleição brasileira começou a ganhar corpo ainda antes da visita de Milei. O primeiro alerta veio após declarações do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, em defesa da candidatura de Flávio Bolsonaro e com críticas ao cenário político brasileiro. Ao responder às manifestações, Lula afirmou que o norte-americano poderia “vir montar um comitê” no Brasil, mas disse que derrotaria seus adversários nas urnas para defender a democracia brasileira.
Dias depois, a tensão aumentou com a revelação, pelo jornal The Washington Post, de que a administração Donald Trump pretendia enviar representantes ao Brasil para levantar dúvidas sobre a integridade do processo eleitoral. O Itamaraty negou os vistos aos integrantes da missão.
Na avaliação de auxiliares de Lula, a participação de Milei na convenção nacional do PL passou a representar um novo estágio dessa ofensiva. Em discurso ao lado de Flávio Bolsonaro, o presidente argentino chamou Lula de “presidiário”, acusou o governo brasileiro de prender opositores, incentivou o público a gritar “Lula ladrão” e atacou o ministro Alexandre de Moraes, a quem chamou de “lixo careca”.
A resposta institucional ficou a cargo do Itamaraty. O chanceler Mauro Vieira convocou o embaixador argentino em Brasília e chamou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires. Em nota, o ministério afirmou que “não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro”, classificando o episódio como um fato sem precedentes na relação bilateral.
Lula preferiu outra estratégia. Ao ser questionado sobre as ofensas, na segunda-feira 27, limitou-se a responder: “Quem é esse cara?”. Nos bastidores, auxiliares afirmam que a orientação é evitar transformar Milei em protagonista da campanha e concentrar a reação na esfera diplomática, preservando os canais institucionais entre Brasil e Argentina.
No entorno do presidente brasileiro, a avaliação é que a própria convenção do PL reforçou as dificuldades da candidatura de Flávio Bolsonaro. Sem o apoio dos principais partidos do Centrão e ainda sem conseguir ampliar sua coalizão, o senador é descrito por integrantes do governo como um candidato que depende cada vez mais do respaldo de lideranças estrangeiras para ganhar tração.
Reservadamente, auxiliares de Lula também avaliam que o evento acabou produzindo mais desgaste do que dividendos para o adversário. A convenção terminou marcada por duas crises – a repercussão do vídeo de Jair Bolsonaro produzido por inteligência artificial e a crise diplomática aberta pelos ataques de Milei – sem apresentar propostas ou fatos capazes de alterar o cenário da disputa presidencial.
Por isso, o governo acredita que a disputa tende a se concentrar cada vez mais na defesa da soberania nacional e da credibilidade das eleições. A expectativa no Planalto é de que novas manifestações de lideranças estrangeiras ocorram até outubro, levando o Executivo a manter monitoramento permanente sobre a atuação das plataformas digitais e das tentativas de desinformação envolvendo o processo eleitoral brasileiro.
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