Pantagruélicas

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Cem anos da rota 66

De ícone da expansão do automóvel a cenário da contracultura no cinema de Hollywood, a estrada sobrevive no imaginário como a imagem do destino em aberto

Cem anos da rota 66
Cem anos da rota 66
Símbolo da rota 66 pintado em Amarillo, Texas. Foto: Heather Diehl/Getty Images North América/Getty Images via AFP
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O diretor de fotografia vai sentado no banco de trás de um carro conversível com uma câmera presa à carroceria com compensado e sacos de areia, filmando dois motoqueiros pela estrada aberta do Novo México. A produção não tinha dinheiro para o caminhão de câmera com rádio que esse tipo de imagem normalmente exige. Teve de improvisar.

O problema de comunicação foi resolvido com sinais de mão entre os atores Peter Fonda e Dennis Hopper e o diretor de fotografia, a 60 km/h, sem parar. O carro fora comprado porque a produção pretendia revendê-lo ao fim das filmagens para recuperar parte do orçamento de 400 mil dólares que a Columbia Pictures liberara para Sem Destino.

Segundo a crítica que Penelope Gilliatt escreveu para The New Yorker na semana da estreia, em julho de 1969, o que se passa na tela em algumas cenas são apenas outdoors da Coca-Cola e cafés vendendo torta caseira. A câmera de László Kovács fora desenhada para uma única missão: manter Wyatt e Billy em quadro, na estrada, sempre em frente.

Em 2026, a Route 66, ou rota 66, com seus 3.860 quilômetros ligando Chicago a Santa Mônica, completa cem anos. Seu ápice coincidiu com a ascensão cultural e geopolítica dos Estados Unidos e com o surgimento da cultura do automóvel. Curiosamente, o filme que mais fez pela mitologia da estrada americana como sinônimo de liberdade trata a comida e a bebida como pano de fundo.

Um mês antes da estreia, em 1969, Hopper sentou-se com o jornalista Philip Jenkinson, da BBC, para explicar o que tinha em mente. Disse que queria “basicamente fazer um filme sobre o que estava acontecendo na América naquele momento” e que não via nada parecido nas telas. “Fazem filmes sobre a Guerra Civil, sobre a escravidão, sobre a Guerra da Coreia, mas algo que esteja realmente acontecendo neste instante, muito pouca gente sai por aí para filmar, especialmente em Hollywood.”

A cena mais citada de Sem Destino se inicia com uísque. Na fogueira, o advogado alcoólatra George Hanson, interpretado por Jack Nicholson, ainda ator desconhecido, escalado depois que o primeiro nome escolhido para o papel saiu do projeto após um desentendimento com Hopper. Foi o produtor do filme quem sugeriu Nicholson, contanto que aceitasse trabalhar pelo piso do sindicato, 392 dólares por semana. 

Nicholson disse à revista Time, em 1970, ter fumado cerca de 155 baseados ao longo das várias tomadas da cena. O desafio, contou ele, era lembrar, depois de tudo aquilo, como se comporta um homem sóbrio no início da cena, antes de ficar chapado pela primeira vez diante das câmeras. A produção não usou substituto: “produto autêntico, de alta qualidade e efeito rápido”, segundo reportagem da Reuters de 2010.

Na comuna hippie onde os motoqueiros fazem uma pausa, há uma cena de refeição comunitária. A câmera registra o gesto, a mesa e os rostos, não o que está sendo servido. Mais adiante, num café no Sul dos Estados Unidos, os três viajantes provocam a hostilidade dos locais apenas por existirem — os cabelos compridos e a atitude livre bastam. Antes de maiores confusões, ninguém pede ou consome nada.

O filme arrecadou mais de 60 milhões de dólares globalmente e roubou a cena no Festival de Cannes de 1969, rendendo a Hopper o prêmio de melhor obra de estreante, além de figurar no ranking dos 100 melhores filmes americanos pelo American Film Institute.

A rota 66 não pertence exclusivamente à contracultura dos anos 1960. Em seu romance de 1939, As Vinhas da Ira, John Steinbeck celebrizou-a ao chamá-la de “a estrada-mãe, a estrada da fuga”, dando contorno literário aos migrantes que rumavam à Califórnia em busca de uma realidade diferente.

Essa mesma faixa de asfalto serviu de “escritório” para Vladimir Nabokov. Ele escreveu Lolita entre 1948 e 1953 preenchendo fichas catalográficas no banco do carona, enquanto sua esposa, Véra, dirigia o Oldsmobile preto do casal de Nova York à Costa Oeste. Caçador obsessivo de borboletas e voluntário do Museu Americano de História Natural, Nabokov catalogava espécimes de dia, pernoitava em motéis de beira de estrada à noite, comia nos restaurantes e cafés ao longo da estrada e preenchia fichas de 12×18 cm com anotações que criaram um dos mais famosos e polêmicos romances do século XX. 

Filmes para a família também usaram a estrada. Em 1983, a comédia Férias Frustradas, com a família Griswald indo passar as férias em um parque de diversões na Costa Oeste, tentou reivindicar o apelo da rota. O roteiro de John Hughes cita a distância entre Chicago e a Califórnia e tem algumas locações em pontos da estrada. Em 2006, foi a vez do desenho animado Carros.

Com legislações incentivando a construção de rodovias interestaduais, a rota 66 perdeu sua importância logística e econômica original, sendo oficialmente desativada da malha federal em 1985. O asfalto desgastou-se, mas o mito permaneceu. Hoje, sobrevive em outra escala: resgatada tanto por criadores de conteúdo que mapeiam seus restaurantes remanescentes quanto por viajantes em busca de uma América idealizada.

Tornou-se o monumento de uma travessia em busca de uma identidade, exatamente como antecipava a frase impressa nos cartazes de divulgação de Sem Destino em 1969: “Um homem foi atrás da América. Não a encontrou em lugar algum.” 

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