Política
Após tarifaço e caso das urnas, Caiado muda estratégia e passa a mirar Flávio Bolsonaro
O ex-governador de Goiás intensifica ofensiva ao senador após semanas de desgaste da campanha do PL e tenta se consolidar como alternativa conservadora
O pré-candidato Ronaldo Caiado (PSD) mudou o foco de sua pré-campanha presidencial. Depois de concentrar as críticas no presidente Lula (PT) nos primeiros meses da corrida eleitoral, o ex-governador de Goiás passou a mirar diretamente o principal adversário que enxerga no próprio campo conservador: Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A mudança ganhou força após duas crises enfrentadas pelo senador: o tarifaço imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e a reunião com embaixadores em que voltou a questionar o sistema eleitoral brasileiro.
A avaliação entre aliados de Caiado é que a disputa decisiva para chegar ao segundo turno acontece, neste momento, na direita. Por isso, a estratégia deixou de ser confrontar prioritariamente Lula e passou a explorar os desgastes acumulados por Flávio, buscando convencer o eleitor conservador de que o ex-governador seria uma alternativa mais competitiva.
Essa virada de discurso ficou evidente após a reunião de Flávio Bolsonaro com representantes de 42 países. Em vez de comentar apenas o conteúdo das declarações do adversário sobre as urnas eletrônicas, Caiado procurou estabelecer um contraste de prioridades, afirmando que o encontro deveria ter sido utilizado para defender interesses econômicos do Brasil.
Nas redes sociais, escreveu: “42 embaixadores numa sala: Dava para vender soja. Dava para abrir mercado para indústria. Dava para atrair investimento. Escolheram falar de urna eletrônica!”
A manifestação veio um dia depois de Flávio afirmar aos diplomatas, sem apresentar provas, que urnas brasileiras teriam a mesma origem da empresa Smartmatic – declaração já desmentida pelo Tribunal Superior Eleitoral. A pré-campanha do senador afirmou posteriormente que ele não questionou a integridade do sistema eleitoral e reiterou confiança nas eleições brasileiras.
A ofensiva de Caiado já vinha sendo construída desde o anúncio do tarifaço norte-americano. Após a decisão dos Estados Unidos, o pré-candidato criticou a atuação de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e passou a associar o episódio à postura da família Bolsonaro. Depois de ironizar o green card obtido pelo ex-deputado, publicou uma enquete perguntando qual personagem da Disney “vive nos Estados Unidos, é todo atrapalhado e sempre que abre a boca faz alguma besteira”, oferecendo como opções Mickey, Pateta e Pato Donald. Na sequência, escreveu: “A diferença é que o Pateta da Disney é atrapalhado, mas bem-intencionado e inofensivo. Já o da política brasileira tropeça nos Estados Unidos, e a queda pode custar caro ao Brasil, atingindo a indústria, as exportações e os empregos!”. Em seguida, ampliou o foco para Flávio, afirmando que o senador estava mais preocupado com a disputa eleitoral do que com os interesses econômicos do País. A crítica se intensificou depois da carta enviada por Flávio às autoridades norte-americanas defendendo que as negociações sobre as tarifas fossem retomadas apenas após as eleições brasileiras.
Nos bastidores, a estratégia é sustentada por pesquisas que indicam haver espaço para conquistar parte do eleitorado do senador do PL. Um levantamento do Real Time Big Data indica que 67% dos eleitores de Flávio dizem que poderiam mudar de voto para impedir uma vitória do presidente Lula. No mesmo levantamento, Caiado aparece como o principal destino desses votos caso o senador deixe a disputa, sendo citado por 25% dos entrevistados. A pesquisa ouviu 2.000 pessoas de 18 a 20 de julho, tem margem de erro de dois pontos percentuais, nível de confiança de 95% e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-09247/2026.
A mudança representa uma inflexão em relação ao início da pré-campanha. Naquele momento, Caiado evitava confrontar diretamente Flávio, defendia a anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e concentrava seus ataques no governo Lula. Agora, a avaliação de seus aliados é que o caminho para crescer eleitoralmente passa necessariamente por disputar o espaço político ocupado pelo senador do PL. A própria equipe do ex-governador admite que a estratégia é polarizar na direita, explorando as sucessivas crises enfrentadas pela campanha de Flávio.
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.




