Sociedade
Para cada feminicídio consumado em 2025, houve quase três tentativas, mostra Anuário
O estudo aponta um crescimento de 4% no registro do crime em comparação ao ano anterior; homicídios de mulheres, sem relação com a desigualdade de gênero, caíram
O Brasil registrou aumento dos casos de feminicídio em 2025, em comparação ao ano anterior, segundo dados do 20º Anuário da Segurança Pública, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
No ano, foram 1.571 mulheres vítimas, um aumento de 4% em relação a 2024. Em 96,4% dos casos com autoria identificada, os crimes foram cometidos por homens.
Ainda de acordo com os dados, a maioria das vítimas foram mulheres negras (65,1%), com idades entre 25 e 44 anos (56,5%). No ano, no entanto, o maior percentual do crime se concentrou na faixa etária dos 25 aos 29 anos, com 17,2% do total dos casos.
Mais da metade das vítimas (62,5%) foi morta em casa. Os agressores são, em sua maioria, os parceiros íntimos (60,9%), ex-parceiros (18,9%) e familiares (12,1%).
As tentativas de feminicídio também tiveram alta de 5,9%, com um total de 4189 vítimas sobreviventes. Isso significa que, para cada feminicídio consumado no País, houve quase três tentativas.
O levantamento também mostra que os lares, de forma geral, são mais violentos às mulheres, dada a alta de 2,6% das agressões decorrentes da violência doméstica, com 286.270 registros.
A alta nos feminicídios também foi acompanhado do aumento de outras violências às mulheres, como ameaças, agressões físicas, descumprimentos de medida protetiva e stalking (crime que se configura por obsessão excessiva). Os dados mostram que, para cada feminicídio, o Brasil registrou, em média, 501,9 casos de ameaças, 182,2 casos de agressões físicas, 84 descumprimentos de medidas protetivas e 78,8 registros de stalking.
Em relação aos instrumentos utilizados para o crime, a categoria arma branca – que inclui facas, canivetes, objetos perfurocortantes e instrumentos semelhantes – permaneceu como responsável por mais da metade dos casos (50,8%).
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Os feminicídios por estado
As maiores taxas desses crimes concentraram-se nas regiões Norte e Centro-Oeste, onde todos os estados tiveram esses indicadores superiores à média nacional. Segundo o Anuário, o estado do Amapá liderou o crescimento da taxa (347,7%, alcançando 2,2 vítimas por 100 mil mulheres), seguido pelo Acre (74,3%, taxa de 3,2 – a mais alta do país) e por Rondônia (66%, taxa de 2,9 – a segunda maior do Brasil). Na direção oposta, as maiores reduções foram observadas no Amazonas (-31,7%), Maranhão (-26,2%) e Paraná (-20,7%).
No caso específico das tentativas de feminicídio, os maiores valores foram registrados no Amapá (14,9 tentativas por 100 mil mulheres, quase quatro vezes a média brasileira), em Mato Grosso (12,5) e no Acre (12,3).
Alta de feminicídios x redução de homicídios de mulheres
No relatório, os pesquisadores avaliam o fato de os crimes de feminicídio, em alta, coexistirem com a redução dos homicídios contra as mulheres, que encolheu 5,5% de 2024 para 2025. Um dos pontos considerados pelos pesquisadores é o de que a morte de mulheres em contextos urbanos nem sempre é associada às questões de gênero.
Um dos casos destacados no relatório foi o do estado do Ceará, que registrou a maior taxa de homicídios femininos do país (6,2 vítimas por 100 mil mulheres) e, simultaneamente, uma das menores taxas de feminicídio (1,0), ficando atrás apenas do Amazonas. “É um contraste que não é casual, já que historicamente as forças de segurança cearenses parecem acionar pouco a categoria ‘feminicídio’ na classificação das mortes violentas de mulheres, incorporando a maior parte desses casos ao conjunto dos homicídios femininos”, grafam os pesquisadores.
Em 2025, 44,4% dos homicídios de mulheres registrados no Brasil foram classificados pelas polícias como feminicídio. Em algumas unidades da federação, contudo, essa proporção se aproxima de 70%, como no Acre, no Distrito Federal e em Sergipe. No Ceará, por outro lado, apenas 15,8% das mortes violentas de mulheres receberam essa classificação; o segundo menor percentual foi observado no Rio Grande do Norte (26,0%).
Recomendações
No documento, os pesquisadores reforçam que os crimes de feminicídio costumam ser o último estágio de uma dinâmica cíclica e crescente de abusos, com episódios anteriores como agressão, perseguição e violência psicológica. A defesa é a de que um monitoramento constante dessas ocorrências também se configura como estratégia de enfrentamento aos crimes de feminicídio, que deve se dar não só no âmbito da punição, mas da prevenção.
A recomendação se coloca diante de um cenário limite da capacidade estatal de proteção às mulheres em situação de risco, apesar de considerados os esforços legais. Em 2025, foram registrados 132.025 descumprimentos de medida protetiva, taxa 16,7% superior à de 2024. Foram 362 descumprimentos por dia, 15 a cada hora.
“Enquanto uma em cada nove mulheres assassinadas por feminicídio já tinha uma medida protetiva ativa no momento da morte, o instrumento que deveria garantir essa proteção era violado, em média, a cada quatro minutos”, ponderam os estudiosos.
Por fim, os pesquisadores apontam que enfrentar o feminicídio via políticas públicas de prevenção exige que o crime seja compreendido “menos como um episódio isolado ou como resultado exclusivo de desvios individuais e mais como a expressão extrema de desigualdades de gênero ainda profundamente presentes na sociedade brasileira”.
“Reconhecer essa dimensão estrutural não elimina a responsabilidade individual dos agressores, mas amplia o horizonte das respostas possíveis. Se o problema é também social e cultural, sua prevenção exige mais do que a atuação do sistema de justiça criminal: exige educação, transformação de normas sociais e fortalecimento das políticas de proteção às mulheres”, finalizam.
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