Justiça
Gilmar rejeita recurso da ‘Folha’ em caso contra o antigo blog ‘Falha de S. Paulo’
A disputa, que se arrasta há mais de uma década nos tribunais, ainda não terminou: o jornal recorreu para reverter a decisão do ministro do STF
O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes rejeitou no início deste ano um recurso extraordinário da Folha de S.Paulo contra o antigo blog Falha de S. Paulo, criado para satirizar o jornal. O veículo apelou para reverter a decisão, mas ainda não houve resposta do relator.
O caso remete a 2010, ano em que os irmãos Mário e Lino Bocchini criaram a Falha. A Folha acionou o Tribunal de Justiça de São Paulo sob o argumento de que o blog confundia seu leitor ao utilizar a marca, o projeto gráfico e conteúdos protegidos do jornal. Seria, alegou a empresa na ocasião, um processo sobre direito de marca, não liberdade de expressão.
Após idas e vindas, o TJ-SP decidiu, por fim, não se tratar de direito marcário: a Falha produzia paródia com base nas matérias da Folha, expressando contrariedade aos conteúdos do veículo por meio do humor. Concluiu também que a paródia encontra suporte no ordenamento jurídico, “nos termos do direito de liberdade de expressão, tal como garantido pela Constituição”.
Ao levar a disputa ao STF, a Folha sustentou ter havido ofensa à livre iniciativa e à proteção da marca e do nome comercial, além de argumentar que o direito à paródia não deve preponderar de modo absoluto sobre esses princípios.
Gilmar, porém, rechaçou as alegações do jornal. Segundo ele, ainda que um dos fundamentos da decisão do TJ-SP seja a natureza de paródia da Falha, a polêmica se resolve definitivamente com base no fato de que o blog não presta um serviço concorrente à marca do jornal.
Diz a conclusão da decisão de Gilmar, publicada em 7 de janeiro:
“Ainda que assim não fosse, os limites da liberdade de expressão na utilização da sátira descrita nos autos estão devidamente disciplinados no art. 47 da Lei nº 9.610/1998, que, no caso específico do direito autoral, define que ‘são livres as paráfrases e paródias que não forem verdadeiras reproduções da obra originária nem lhe implicarem descrédito’, sendo que a aferição do eventual ‘descrédito’ no caso dos autos não prescinde do revolvimento ao acervo fático-probatório”.
No recurso extraordinário ao Supremo, a Folha de S.Paulo alegou que a utilização do domínio falhadesaopaulo.com.br manifesta o uso da marca do jornal “com conotação comercial, associando-a a produto de concorrente seu, qual seja, a revista CartaCapital”.
O blog Falha de S. Paulo mantinha uma lista de favoritos com um link para a página de CartaCapital. A revista, porém, não tinha qualquer ligação com o site.
Não há prazo para Gilmar Mendes decidir sobre a apelação protocolada pelo jornal paulistano.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.
Leia também
Investigada no caso INSS aciona STF por suposto vazamento de áudios para campanha de Flávio Bolsonaro
Por Maiara Marinho
Governo Trump concede green card a Eduardo Bolsonaro, condenado pelo STF
Por Vinícius Nunes
Advogado aciona o STF, diz ser vítima de esquema de clonagem de DNA e pede R$ 12 bilhões
Por CartaCapital



