Política
Os sem religião podem decidir a eleição (e isso é má notícia para Flávio Bolsonaro)
Para o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, 2026 vai repetir a tendência de 2022 – quando os que não professam nenhuma fé foram, ironicamente, os fiéis da balança
A eleição de outubro é analisada com uma lupa e analistas divergem sobre a estratégia perfeita para chegar ao Palácio do Planalto, mas existe um ponto que todos os estudiosos e caciques partidários concordam: todo voto conta. Apesar de o maior esforço das campanhas se concentrar no voto evangélico e católico, que representam 56,7% da população brasileira, os sem religião podem ser os fiéis da balança do pleito.
Na avaliação do doutor em demografia José Eustáquio Diniz Alves, a cizânia entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Michelle Bolsonaro, marcada pela denúncia feita pela ex-primeira-dama e uma posterior reaproximação para a contenção de danos, deve reduzir parte da força que o pai, Jair Bolsonaro (PL), teve entre os evangélicos.
A reconciliação da ex-primeira-dama com o enteado, para Eustáquio, não deve trazer grandes mudanças no cenário geral. “Pode ajudar na conquista de voto, especialmente o do campo evangélico, mas ainda não é certo de que será suficiente para virar o jogo e garantir a vitória dos Bolsonaros. Por enquanto, não muda o quadro global”.
Uma eventual fuga das bíblias, com os evangélicos migrando do PL para outros nomes da direita como Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão), não deve se repetir no confronto direto Flávio-Lula. “No segundo turno, que tudo indica que vai ser Lula e Flávio, ele retoma, recuperando parte desses evangélicos que teriam ido para o Renan, para o Caiado ou para o Zema”. Ainda assim, o teto do candidato deve ficar bem abaixo do que o pai alcançou.
Na avaliação do demógrafo, o desenho de 2026 se aproxima do que aconteceu em 2022, quando Lula (PT) venceu Jair Bolsonaro — mas não do de 2018, quando Fernando Haddad (PT) não conseguiu se eleger. Nestas eleições, há um detalhe que pesa a favor de Lula: enquanto Jair Bolsonaro obteve uma vantagem de 70 a 30 entre os evangélicos tanto em 2018 quanto em 2022, Flávio deve ficar com uma margem menor, entre 60 a 40 e 65 a 35.
“Ele vai ganhar esses evangélicos, sem dúvida. Mas o ponto central é que não atrai na mesma proporção”, afirma Alves. Por isso, em uma eleição que é disputada voto a voto, os sem religião, que tendem a apoiar Lula, ganham um peso decisivo. Estima-se que esse eleitorado represente de 10% a 12% da população brasileira.
Até a eleição de Dilma Rousseff, em 2010, o PT chegava a empatar entre os evangélicos e vencia com folga entre os católicos. Esse padrão se inverteu em 2018, quando Bolsonaro empatou entre os católicos e “deu uma lavada” entre os evangélicos, batendo Fernando Haddad por 70 a 30 nesse segmento.
Já em 2022, o quadro mudou: Bolsonaro repetiu o desempenho evangélico, mas Lula passou a vencer entre os católicos por cerca de 60 a 40. “Quem decidiu a eleição foi o eleitorado sem religião, que geralmente vota no Lula ou nos candidatos do PT”, declara.
Para o demógrafo, a rejeição de parte dos evangélicos a Flávio tem menos a ver com a crise recente do que com a própria identidade política do senador carioca. “Ele [Jair Bolsonaro] atraía esse voto evangélico junto com a Michelle. Flávio não atrai na mesma proporção. Atrai muito, vai ganhar sem dúvidas entre os evangélicos, mas não naquela proporção de 70 a 30”.
Na Quaest de 15 de julho, entre os eleitores que se declaram católicos, o petista vai a 49% e o postulante do PL marca 24%. Já no universo evangélico, Flávio registra 39% das intenções de voto, ante 26% de Lula. O levantamento feito pelo Nexus em julho aponta um cenário parecido — entre os católicos, Lula venceria Flávio por 51% a 42%.
Uma pesquisa divulgada pelo Datafolha de abril de 2026 indicou que, considerando os votos válidos, a disputa entre Lula e Flávio continua aproximadamente em torno de 60% versus 40% entre os católicos e de 30% versus 70% entre os evangélicos.
O senador, por sua vez, superaria o presidente no eleitorado evangélico por 55% a 36%. Lula levaria a melhor entre os eleitores de outras religiões (48% a 41%) e sem religião (55% a 32%).
Diálogo interditado
O PT não tem medido esforços para diminuir a distância e “perder por menos” quando se trata dos evangélicos. De cartas a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, o partido faz afagos a esta fatia da população.
Para Eustáquio, entretanto, a distância entre PT e evangélicos é estrutural, e não apenas fruto de conjuntura eleitoral. Segundo ele, a matriz evangélica é marcada por uma ideologia liberal — no sentido econômico —, avessa à ideia de Estado forte.
“O PT é um partido estatista, que quer resolver a pobreza com maior participação do Estado. Já os evangélicos veem o Estado como o problema, não como a solução”, diz. Esse fenômeno, segundo ele, explicaria também parte do fenômeno eleitoral de Pablo Marçal (PRTB) em São Paulo.
“Ele dialogou com esse eleitorado muito bem na campanha, se não tivesse feito tanta bobagem, talvez pudesse ter ganhado a eleição de São Paulo com esse discurso do empreendedorismo, de apoio ao mercado. Esse é o discurso liberal dos evangélicos”, diz. A isso soma-se o conservadorismo moral: divergências sobre aborto, união entre pessoas do mesmo sexo e o apoio à população trans afastam ainda mais o campo evangélico do petismo (e da esquerda como um todo).
“A disputa vai ser assim: o Lula nunca vai ganhar o voto evangélico na situação atual, nunca vai ganhar. Mas, se perder de menos, já leva vantagem, porque ganha nos outros eleitorados”, declara. “Esse é o esforço. Quando falo ganhar ‘de menos’ ou ‘de mais’, é uma diferença de uns 5% para cá, 5% para lá. E manter o voto dos sem religião — o PT precisa desse voto”, completou.
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