Gustavo Freire Barbosa

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Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Coautor de “Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução”.

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A Copa de 2026 teve o seu polvo Paul

As casas de apostas substituíram o carismático molusco de 2010 e movimentaram muito dinheiro pelo mundo

A Copa de 2026 teve o seu polvo Paul
A Copa de 2026 teve o seu polvo Paul
Em 2010, ano do primeiro título mundial da Espanha, o polvo Paul ganhou notoriedade mundial ao 'prever' os vencedores das partidas da Copa; em 2026, ele foi substituído pelas casas de apostas – foto: by Patrik Stollarz/AFP
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O polvo Paul foi uma das sensações da Copa de 2010. De um aquário na Alemanha, o molusco “previa” o resultado dos jogos ao escolher entre comer mexilhões depositados em duas caixas, cada uma decorada com a bandeira dos países que estavam prestes a jogar. A caixa escolhida era seu palpite. Nessa brincadeira, Paul acertou tudo, cravando a campanha da seleção alemã e o resultado da final entre Espanha e Holanda.

“O oráculo octópode, que influenciou decisivamente nas apostas, foi ouvido no mundo futebolístico com religiosa reverência e foi amado e odiado e até caluniado por alguns ressentidos, como eu: quando anunciou que o Uruguai perderia contra a Alemanha, denunciei: – este polvo é um corrupto”, escreveu Eduardo Galeano em Futebol ao sol e à sombra (L&PM), talvez sem imaginar que, dezesseis anos depois, a inocência do polvo vidente seria profissionalizada e substituída pelas empresas de apostas esportivas, as chamadas bets.

As bets foram mais dominantes que a vitoriosa Espanha de Lamine Yamal contra a Argentina de Messi. Onipresentes, movimentaram bilhões e tiveram o completo controle das finanças e das publicidades na maior Copa de todos os tempos. Com uma estimativa de 50 bilhões de dólares em apostas e cerca de 500 milhões de dólares apostados por partida, é lícito concluir que a Copa do Mundo de 2026 foi a maior – e talvez a primeira – experiência de jogos de azar envolvendo todas as regiões do planeta.

Alguns atribuem a ampliação das bets ao aumento do número de equipes, com mais de 100 partidas disputadas, quantidade consideravelmente superior às 64 partidas da última Copa. Mas é o cachorro que urina no poste, e não o contrário: o acréscimo de seleções se deu em um contexto onde as bets já estavam consolidadas e projetavam crescimento no mundial deste ano, tendo arregimentado astros do futebol – dentre os quais Harry Kane, Haaland, Neymar e Vini Júnior – para suas campanhas publicitárias. Estima-se que o volume de apostas nesta Copa cresceu entre 50% e 100% em comparação com a Copa do Catar. A maior quantidade de partidas foi, certamente, a música escolhida por quem pagou a banda.

No Brasil, as bets levaram o fenômeno da arenização dos estádios a um novo patamar. Iniciada nos anos 90, a arenização ganhou força nos anos 2000 e se firmou com a copa de Mundo de 2014. Nas novas arenas e estádios reformados não há espaço para as gerais, arquibancadas onde o torcedor pagava mais barato pelo ingresso. A importação do “padrão internacional de segurança e conforto” implicou na destruição literal de estádios tradicionais, como o Parque Antarctica, demolido para dar lugar ao Allianz Parque, e o Machadão, em Natal, apelidado de “Poema de Concreto” em razão de suas linhas e curvas modernistas e substituído pela arrojada Arena das Dunas, em formato de cebola. E sem geral, claro.

As bets foram além e transformaram as arenas higienizadas em casas de apostas. É o caso da própria Arena das Dunas. Construída sobre os escombros do Poema de Concreto, hoje leva o nome de Casa de Apostas Arena das Dunas. O mesmo aconteceu com a Casa de Apostas Arena Fonte Nova, antiga Arena Fonte Nova, anteriormente estádio Fonte Nova, em Salvador. A Vila Belmiro, em Santos, tornou-se Vila Viva Sorte. E assim vai, primeiro afastando o povo dos gramados, depois o endividando e lucrando bilhões enquanto o reduz à miséria.

Eduardo Galeano introduz o capítulo sobre a Copa de 2010 relatando que, no mesmo ano, uma campanha internacional transformou o Irã no mais grave perigo nuclear para a humanidade. Também em 2010, Israel metralhou, em águas internacionais, embarcações que levavam alimentos, remédios e brinquedos à Palestina.

Porém nem tudo permaneceu como estava: o profeta Paul morreu poucos meses após a Copa que o consagrou. Acabou não vendo no que se transformou seu despretensioso lanche de mexilhões.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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