Economia
Governo Lula vê jogo de cartas marcadas entre Marco Rubio e Flávio Bolsonaro
A percepção é que a ala ‘ideológica’ da gestão Trump age em sintonia com bolsonaristas para transformar a disputa comercial em pressão contra o petista
A declaração do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, responsabilizando o presidente Lula (PT) pelo novo tarifaço contra produtos brasileiros reforçou, na avaliação de integrantes do governo federal, a conclusão de que a disputa comercial ultrapassou a esfera econômica e invadiu a arena política. A percepção no Palácio Planalto é que a ala mais “ideológica” da administração de Donald Trump trabalha em convergência com aliados brasileiros do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, para desgastar o petista às vésperas da eleição.
A manifestação de Rubio e o rápido compartilhamento por Flávio nas redes sociais seguem a mesma linha de tentar atribuir a Lula a responsabilidade pelas tarifas. Para o governo, a ofensiva busca deslocar o foco do debate e reduzir o desgaste enfrentado pelo senador desde que o tarifaço entrou no centro da campanha presidencial.
A avaliação coincide, em parte, com o diagnóstico da própria campanha de Flávio. Interlocutores do senador consideraram positiva a manifestação de Rubio e organizaram uma reação coordenada nas redes sociais para reforçar a alegação de que a crise comercial decorreria da política externa do governo Lula. A estratégia surgiu exatamente para tentar conter os danos políticos provocados pelo tarifaço.
Nos bastidores do governo, porém, a interpretação é oposta. As medidas adotadas por Washington nasceram de críticas ao funcionamento das instituições brasileiras, especialmente do Judiciário, e não de uma disputa comercial convencional. Nessa leitura, a pressão tarifária é parte de uma tentativa de influenciar decisões internas e de ampliar a influência dos Estados Unidos sobre países da região.
Ainda segundo essa avaliação, os questionamentos norte-americanos ao Pix e às regras brasileiras para plataformas digitais também estariam no tabuleiro, por envolverem interesses de grandes empresas de tecnologia e discussões sobre regulação do ambiente digital.
O governo ainda sustenta que a principal motivação das tarifas continua a ser política, embora reconheça que a política comercial da gestão Trump seja marcada pelo uso de barreiras tarifárias contra diversos parceiros. A expectativa é que Washington mantenha o canal de diálogo formal aberto, mas adie uma negociação mais expressiva até conhecer o resultado das eleições brasileiras, apostando na possibilidade de tratar futuramente com um eventual governo mais alinhado aos interesses norte-americanos.
Apesar dessa leitura, a orientação no governo é manter as negociações com autoridades dos Estados Unidos e ampliar o diálogo com os setores brasileiros mais afetados pelas tarifas, como calçados, móveis, máquinas e equipamentos, em busca de reduzir a lista de produtos atingidos e construir alternativas para minimizar os impactos econômicos.
A estratégia da campanha de Flávio ocorre em meio a sinais de desgaste apontados por pesquisas de opinião. Um levantamento Genial/Quaest divulgado nesta semana mostrou que 51% dos brasileiros concordam com a versão apresentada por Lula, segundo a qual Flávio tem responsabilidade pela escalada que levou ao tarifaço, enquanto 30% atribuem a responsabilidade ao presidente, como defende o senador.
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