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Até onde Trump vai?
Após o novo tarifaço e as demonstrações explícitas da hostilidade de Marco Rubio a Lula, a questão deixou de ser se haverá ingerência e passou a ser até onde irá a operação em curso
O que se escreve sobre a intervenção norte-americana na eleição brasileira não toleram mais a forma condicional. Após o novo tarifaço e as sinalizações explícitas da hostilidade de Marco Rubio a Lula, a questão não é se haverá uma ingerência explícita, mas até onde vai a operação em curso. Como é próprio do governo de Donald Trump, ela não se preocupa em revestir o arbítrio com a aparência da institucionalidade, dos bons modos ou de algum princípio universal.
Estamos distantes até mesmo da retórica da Guerra Fria ou do período posterior a 1989, quando os Estados Unidos procuravam justificar suas ações com motivações ideológicas pretensamente virtuosas: a defesa da democracia, o combate ao comunismo ou a promoção dos direitos humanos. Trump rejeita abertamente as instituições multilaterais construídas, em grande medida, sob o protagonismo norte-americano no pós-guerra e toma sua própria interpretação do interesse nacional como critério soberano da política externa.
Em relação aos países ao sul dos Estados Unidos, a moda é recuperar a agressividade da Doutrina Monroe, formulada no século XIX e radicalizada pelo Corolário Roosevelt — agora rebatizada, com a habitual falta de sutileza, de “Doutrina Donroe”. O America First e o movimento MAGA favorecem, por um lado, aliados externos identificados com a heterogênea coalizão de ultradireita liderada por Trump. Por outro, buscam sobretudo dirigentes dispostos à submissão explícita, convertendo os interesses nacionais de outros países em simples extensões dos interesses de Washington.
Os efeitos dessa perspectiva são especialmente terríveis nas regiões historicamente tratadas como zonas privilegiadas de atuação política dos Estados Unidos, entre elas a América Latina e o Oriente Médio. Não que Trump se abstenha de intervir em outras partes do mundo — sua atuação na Hungria demonstra o contrário. Mas os limites parecem muito mais largos nos países considerados próximos e já alcançaram, na Argentina e na Colômbia, patamares que pareceriam improváveis poucos anos atrás.
Se Trump foi vitorioso em seus movimentos na Argentina e na Colômbia, acabou derrotado na Hungria e, sobretudo, no Canadá
A ingerência norte-americana é uma constante da história política latino-americana. Assume formas variadas e se organiza por meio de uma miríade de instituições. É difícil contar a história da região sem considerar o papel desempenhado pelo vizinho do norte. A longa duração do fenômeno não deve, contudo, ofuscar as novidades do presente. Duas delas se destacam: a crueza do discurso e a ampliação dos meios disponíveis para interferir na política interna de outro país.
A política externa estadunidense recupera uma retórica típica das fases mais territorialistas do imperialismo. Empregá-la no século XXI, depois de duas guerras mundiais e do desenvolvimento das armas nucleares, porém, produz efeitos muito diferentes. As declarações soam ainda mais agressivas e aumentam a capacidade de coação sobre aliados e adversários.
Na política, é particularmente desastrosa a ideia de que vale mais dizer “a verdade” — ou simplesmente “o que se pensa” — do que calar ou revestir os interesses de alguma linguagem institucional. A passagem do discurso ao ato, da ameaça à guerra, torna-se mais curta quando já ruíram as aparências úteis que sustentam as instituições.
Nenhuma ordem se baseia apenas em boas leis ou ritos bem organizados. A dimensão simbólica é central para a construção dos elementos comuns sem os quais os regimes democráticos não sobrevivem. Sua destruição pode abrir caminho para revoluções, mas também facilita a emergência de movimentos nefastos, como o fascismo. Os fascistas, aliás, sempre compreenderam muito bem os efeitos de arrasar os velhos ritos, as instituições e as aparências compartilhadas.
Ao declarar abertamente seu interesse no resultado da eleição brasileira, Trump não apenas confirma uma velha verdade, conhecida por todos. Ele inaugura uma nova dinâmica política, com consequências potencialmente trágicas para a democracia brasileira.
É preciso tratar, ainda, dos instrumentos hoje disponíveis. As redes sociais e a inteligência artificial ampliaram significativamente o repertório, a velocidade e o alcance de uma intervenção estrangeira em disputas políticas nacionais.
Empresas privadas — muitas delas comandadas por executivos explicitamente alinhados a Trump — controlam boa parte da circulação de informações na esfera pública. Isso lhes permite interferir não apenas nos temas submetidos ao debate, mas também na velocidade, na intensidade e no momento em que parcelas importantes da população entram em contato com determinados assuntos.
A inteligência artificial, por sua vez, permite produzir, em grande escala, conteúdos falsos de aparência verossímil. O problema pode provocar danos graves a qualquer momento, mas se torna particularmente difícil de enfrentar na reta final de uma eleição, quando o tempo necessário para desmentir uma fraude costuma ser maior do que aquele de que ela precisa para produzir efeitos.
A situação já seria perigosa mesmo que não houvesse no Brasil um candidato competitivo disposto a apoiar a interferência norte-americana. O quadro, contudo, é ainda mais grave. A família Bolsonaro não apenas defende abertamente diferentes formas de ingerência como já chegou a mencionar a presença da Marinha dos Estados Unidos na Baía de Guanabara. Ao mesmo tempo, setores relevantes das elites política e econômica se omitem ou até apoiam esse caminho.
Reconhecer a existência de uma intervenção não significa, entretanto, dar como certo o seu êxito. A política é repleta de distâncias entre intenções e resultados, e ações frequentemente produzem o contrário do que pretendiam. Se Trump foi vitorioso em seus movimentos na Argentina e na Colômbia, acabou derrotado na Hungria e, sobretudo, no Canadá, onde sua interferência foi decisiva para virar uma eleição que parecia garantida para os conservadores.
A política brasileira é complexa demais — tanto pela diversidade de seus grupos sociais quanto pela engenhosidade de suas instituições — para se mover apenas segundo os ditames de Washington. Medidas como o tarifaço atingem interesses concretos. Além disso, a consolidação de uma liderança política no Brasil ainda exige algum compromisso mínimo com o País. Romper ostensivamente esse compromisso cobra um preço palpável até de quem, como os Bolsonaro, fez dos símbolos nacionais um elemento central de sua estética política.
A atuação a céu aberto dos Estados Unidos na política brasileira é, de todo modo, terrível para o futuro da democracia. Mesmo que seja derrotada, aponta para um horizonte no qual as articulações políticas internas terão de prestar atenção redobrada aos vínculos internacionais. Trata-se de um desafio novo para instituições concebidas, em grande medida, a partir da dimensão nacional.
O futuro exigirá dos democratas não apenas uma boa dose de virtude, mas também alguma fortuna.
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