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O Brasil está preparado para derrotar novamente o bolsonarismo
Faltando pouco para a eleição, pesquisas focais mostram que o mal-estar persiste, mas o modo de elaborá-lo dificulta a captura desse sentimento pela ultradireita
A 30 dias do início da campanha eleitoral de 2026, o Brasil parece mais preparado para derrotar novamente a ultradireita bolsonarista. Essa é a principal conclusão de uma pesquisa realizada pelo Observatório Político e Eleitoral, o OPEL, com 80 grupos focais em 13 capitais brasileiras, entre 29 de abril e 3 de julho.
O ciclo começou, curiosamente, quando Flávio Bolsonaro estava em ascensão e o debate público estava dominado por uma expectativa de retorno ao poder da extrema-direita. Nossa pesquisa pegou esse momento e também a virada a favor do Lula – registrada em um texto publicado em maio e depois foi confirmada nas pesquisas quantitativas.
Por ser uma metodologia qualitativa, os grupos focais presenciais que organizamos não têm a pretensão de precisão estatística, tal como ocorre com os levantamentos quantitativos tipo Quaest, Atlas ou Datafolha. Ainda assim, eles são feitos com recrutamento aleatório – conforme feito nas pesquisas quantitativas – e levando em conta os dados do IBGE e do TSE sobre a composição do eleitorado, com paridade de gênero e proporcionalidade de raça e religião.
Os grupos focais permitem aprofundar aspectos do comportamento político que aparecem apenas de forma superficial nas pesquisas quantitativas. Reunidos presencialmente, os participantes conversam a partir de um roteiro semiestruturado, que abre espaço para reflexões sobre o Brasil, a vida cotidiana e a política.
A primeira conclusão é que as pessoas estão insatisfeitas. O mal-estar se concentra sobretudo em quatro áreas: renda e poder de compra, transporte e mobilidade urbana, saúde e segurança pública. Dessa insatisfação emerge uma crítica dura aos políticos e à política em geral.
São frequentes as declarações que descrevem os políticos como privilegiados, por “terem muitos benefícios” e “trabalharem pouco”, e a política como um ambiente marcado pela corrupção. Outra queixa recorrente é a distância entre promessa e realização: os políticos “prometem e não cumprem”.
Nada disso é propriamente novo. O sentimento antissistema aparece em pesquisas e estudos acadêmicos desde pelo menos 2013. Está presente entre eleitores de esquerda e de direita e não se restringe ao Brasil: manifesta-se também em outros países das Américas e da Europa. A diferença é que o modo como as pessoas estão elaborando suas insatisfações hoje apresenta características que dificultam uma captura desse sentimento pela extrema-direita. Essa é a principal novidade.
Há uma consciência majoritária de que as dificuldades na vida cotidiana não são uma exclusividade do Brasil. Por exemplo, quando falam da saúde, a grande maioria dos entrevistados valoriza o SUS, mesmo com os problemas, e pontua que ele não existe em outros países. Os EUA são citados com frequência como um contraexemplo negativo nesta seara.
O mesmo ocorre com o poder de compra. O incômodo com a inflação é unanimidade. Mas, nos grupos, a maioria das participantes e dos participantes pontua que existem fatores externos que explicam a alta de preços — guerras, questão climática —, com muitas declarações do tipo “não é tudo culpa do governo”.
Há, ainda, uma parcela significativa que argumenta que o custo de vida no governo Bolsonaro estava pior. Pesa também o impacto de iniciativas recentes do governo Lula (Desenrola, CNH para Todos, isenção do IR), algo que atravessa não somente os eleitores do atual presidente.
A segurança pública é outro exemplo importante dessa mudança. Trata-se de uma pauta historicamente explorada pela extrema direita e diante da qual a esquerda costuma demonstrar dificuldade. Nos grupos, porém, a maioria reconhece que o combate à criminalidade é uma responsabilidade compartilhada entre o governo federal e os governos estaduais.
A culpa pelo medo e pela insegurança, portanto, distribui-se entre diferentes esferas de poder, sem se concentrar no presidente Lula. Muitos participantes mencionam o Rio de Janeiro como exemplo de fracasso e lembram que o estado é governado há anos por forças políticas associadas à direita e ao bolsonarismo.
Os grupos também revelaram que o sentimento antissistema passou a conviver com uma forte desconfiança em relação a propostas de “renovação” radical e a promessas de soluções fáceis e imediatas. O fracasso do governo Bolsonaro permanece vivo na memória de grande parte dos entrevistados. A isso se soma uma valorização do Estado e das políticas públicas que afasta a maioria das e dos participantes do grupo de propostas baseadas na meritocracia pura e simples.
O tema das vacinas é perfeito para ilustrar isso. A adesão à imunização é generalizada. Embora perdure, em paralelo, uma desconfiança ainda persistente com o que as pessoas chamam de “vacinas novas”: Covid, gripe e dengue. Essa desconfiança, entretanto, não se consolida como rejeição. Ao contrário, as pessoas que questionam essas vacinas o fazem elogiando o SUS, elogiando a ideia de vacina e afirmando que tomam todas as demais vacinas.
O mesmo vale para a democracia: há, sim, uma crítica, uma desconfiança alimentada pela vida difícil e a incapacidade dos políticos. Ao mesmo tempo, permanece a expectativa — e até certa esperança — de que a vida possa melhorar sem a intervenção de novos “salvadores da pátria”. Ainda há distância até que esse sentimento se torne confiança na democracia, mas o Brasil hoje é um país preparado para dizer não, mais uma vez, ao autoritarismo e ao fascismo – e avançar na construção de um país mais justo e solidário.
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