Pantagruélicas

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Pai Mãe Irmã Irmão

Em três contos, o cineasta norte-americano Jim Jarmusch mostra que a tentativa de pais e filhos se entenderem importa mais do que o brinde ou o protocolo social

Pai Mãe Irmã Irmão
Pai Mãe Irmã Irmão
Imagem: Divulgação
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Podemos brindar com água? Com café? Talvez com chá? A dúvida permeia as três histórias familiares do drama Pai Mãe Irmã Irmão, mais recente filme de Jim Jarmusch, disponível no Mubi e principal premiado do Festival de Veneza no ano passado. Não é o único elo nos três episódios: um relógio Rolex (falso ou verdadeiro?), fotografias antigas, uma brincadeira de palavras e um trio de skatistas também aparecem, embora os protagonistas, os dramas e as cidades sejam (pareçam) diferentes.

Na primeira história, Emily (Mayim Bialik) e Jeff (Adam Driver) viajam ao interior de New Jersey para visitar o pai (o ator e músico Tom Waits), que está viúvo e desde a morte de sua esposa tem enfrentado dificuldades (nunca explicitadas). Os irmãos discutem como vive o pai, já que ele parece nunca ter tido um emprego. A irmã confessa que mandou dinheiro para ele, mas só o fez uma vez, depois de o marido ter descoberto e brigado com ela. O irmão diz que ajuda, inclusive com o conserto recente do poço de água que abastece a casa em uma distante zona rural. 

Quando chegam, o pai abraça o filho e diz que ele é seu preferido. O filho não percebe brincadeira, diz que ele é seu único filho homem. A filha olha ao redor, o abandono, a paisagem branca do inverno. O pai diz que só tem água para oferecer. 

“Pode brindar com água?”, pergunta o filho. Pouco falam. Décadas de silêncios, estranhamentos, segredos. Quando a filha vê o Rolex do pai, pergunta como ele conseguiu. Ele diz que é falso, ela diz que não. Quando deixam a casa, os filhos partem rumo ao aeroporto, o pai pega o telefone e marca um jantar com alguém no lugar de sempre, com o dinheiro dado pelo filho.

No segundo episódio, as cenas se passam na Irlanda. A mãe (Charlotte Rampling) é uma autora bem-sucedida de best-sellers que vive no luxo em uma mansão. Anualmente, se reúne com as duas filhas – Timothea (Cate Blanchett) e Lilith (Vicky Krieps). Tim é mulher de negócios, sóbria, recatada, Lilith é boêmia, não tem emprego fixo, precisa de dinheiro da mãe para pagar Uber, vive um romance com uma mulher, mas não quer que a matriarca saiba. Ao redor de bolo e chá, vivem o teatro das aparências, em que os diálogos são vazios. Nem a presença de Cate Blanchett se sobressai.

Na última história, os gêmeos Skye (Indya Moore) e Billy (Luka Sabbat) se encontram em Paris. Primeiro, em um café, em que ele pergunta à irmã se podem brindar com o café. Depois, partem para o apartamento dos pais, recentemente mortos em um acidente de avião. Ela não conseguiu vencer o luto e ajudar na retirada dos móveis e das peças do imóvel, tarefa cumprida pelo irmão. Andam pelo apartamento vazio — onde cresceram como crianças ao lado dos pais — e olham antigas fotos. Recordam-se de momentos a quatro.

Em um mundo recheado de filmes de super-heróis, com roteiros cada vez mais didáticos em busca de um espectador ansioso, Jarmusch filma incompreensões, segredos, incertezas, distanciamentos de pais e filhos. Em sua obra, utiliza os pequenos rituais cotidianos para demonstrar que a tentativa de conexão humana, mesmo que desajeitada ou incompleta, é o que resta.

Como uma amiga diz, podemos brindar com o cotovelo, com o pé, com um pedaço de costeleta, um brócolis. O brinde não importa, mas, sim, a tentativa de pais e filhos se entenderem antes que o vazio deixe a incompreensão e a distância ainda maiores. 

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