Roberto Amaral

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Cientista político, ex-ministro da Ciência e Tecnologia e ex-presidente do PSB. Autor de História do presente- conciliação, desigualdade e desafios (Editora Expressão Popular e Books Kindle)

Colunas

Da Doutrina Monroe ao Make America Great Again: nada de novo no front

Para o império, a América Latina está destinada ao papel de reserva estratégica de sua geopolítica

Da Doutrina Monroe ao Make America Great Again: nada de novo no front
Da Doutrina Monroe ao Make America Great Again: nada de novo no front
O presidente dos EUA, Donald Trump. Foto: Andew Caballero-Reynolds/AFP
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Os EUA completam 250 anos de independência. Nada mais significativo e próprio celebrarem a efeméride sob a regência de Donald J. Trump, o presidente que, em pleno século XXI, representa, fortalece e atualiza a essência arrogante, colonialista e imperialista de sua história, como povo, nação e país. Essa essência ilumina a pretensão ideológica do destino manifesto, definido por Henry Kissinger como “a obrigação dos EUA de disseminar seus valores por todo o mundo” (Sobre a China, 2011).

As bases objetivas do imperialismo estão expressas na Doutrina Monroe (1823), consolidada pelo que ficou conhecido como “Corolário Roosevelt”. Refere-se à era da política do big stick do presidente Theodore Roosevelt (1901-1909), resumível na frase: “Fale com suavidade e carregue um grande porrete”, revista por Trump com a omissão da primeira parte.

O atual governo — intervencionista na América Latina, na Palestina e no Irã, honrando o legado de seus antecessores — não pode ser visto como “um ponto fora da curva”.

A pretexto de fazer face às ameaças do colonialismo europeu, os EUA assumiam (entre os fins do século XIX e os primeiros anos do século XX) o papel autoatribuído de guardas pretorianos das nações americanas, virtualmente transformadas em protetorados. Na verdade, ao proclamar a consigna “América para os americanos”, a Doutrina Monroe estabelecia o vasto espaço de domínio, influência e controle exclusivo — militar, econômico e político — dos EUA, que, a partir do México, chegaria à Patagônia, agindo o país como senhor de baraço e cutelo sobre os três continentes. 

O objetivo das inumeráveis intervenções, sob variados meios e justificativas, foi e tem sido proteger interesses econômicos, políticos e estratégicos da grande potência. “A América para os americanos”, uma pura retórica para sugerir resistência ao intervencionismo europeu, terminou consolidando-se como “A América para os EUA”.

Já em 1848, após uma guerra de dois anos, haviam incorporado 55% do território mexicano. Era o ponto de partida. Como se sabe, iniciava-se ali uma história de ocupações, intervenções, invasões etc., que caminham das ações militares diretas e ocupações prolongadas às mais diversas formas de guerra híbrida (modalidade que combina meios militares e não militares), como apoio a golpes de Estado, operações secretas conduzidas pela CIA, financiamento a grupos armados insurgentes (como os “contras” na Nicarágua), sanções econômicas, bloqueios comerciais, ataques cibernéticos, campanhas de desinformação e pressões diplomáticas, tumultuando a vida política e econômica dos povos e dos países da América Central, do Caribe e da América do Sul. 

Exemplos de guerra híbrida são o bloqueio econômico, político e comercial exercido sobre Cuba desde o fracasso da invasão da Baía dos Porcos (abril de 1961) e, presentemente, a “guerra tarifária” que a Casa Branca aplica contra um sem-número de países, o Brasil inclusive, entre nós sob os aplausos da extrema-direita. No que nos diz respeito, a guerra — que até o momento se dá sem tiros — compreende ainda sanções contra ministros do STF, ataques ao PIX e a designação das grandes quadrilhas de criminosos comuns como grupos terroristas, o que no Niger, na Nigéria, no Iraque, na Somália e na região do Sahel, como na Venezuela, tem ensejado intervenções militares pelo velho império. 

A violência stricto sensu jamais é descartada. No curso da já longa história de preeminência sobre os povos da América Latina, contam-se mais de 70 intervenções, as mais variadas ações clandestinas (como sabotagens e golpes de Estado), pressões políticas ou econômicas, compreendendo mesmo o bloqueio e a expropriação de divisas e bens de outros países depositados em bancos dos EUA. Esse cardápio de violência e desrespeito aos mais comezinhos princípios da convivência entre países independentes chega aos nossos dias com a recente invasão da Venezuela, o sequestro de seu presidente e sua primeira-dama, hoje recolhidos a uma prisão em Nova York, onde respondem a processo criminal segundo as leis dos EUA, numa evidente afronta ao direito internacional e à Carta das Nações Unidas. 

Ademais, ao final de um bloqueio naval, apropriam-se do petróleo venezuelano e alardeiam ameaças de sequestro e prisão do ex-presidente cubano Raúl Castro.

Em novembro de 1903, os EUA, após o fracasso das negociações com a Colômbia visando à construção de um canal interoceânico, passaram a intervir na política colombiana, apoiando e estimulando o movimento separatista da Província do Panamá. Prestaram respaldo estratégico e diplomático aos insurgentes, garantiram o reconhecimento imediato do novo Estado e enviaram navios de guerra para impedir o desembarque de tropas colombianas destinadas a sufocar a revolta de 3 de novembro de 1903. 

Dias depois, por razões óbvias, o recém-independente Panamá assinou o Tratado Hay-Bunau-Varilla, que concedia aos EUA, em caráter perpétuo, o direito de construir, administrar, defender e exercer poderes equivalentes aos de um soberano sobre a Zona do Canal. Concluído em 1914, o Canal do Panamá tornou-se um dos principais ativos geoestratégicos do século XX, permitindo a Washington projetar poder naval entre os oceanos Atlântico e Pacífico e consolidar sua influência no hemisfério.

Nos anos da Guerra Fria (1947-1991), essa fúria intervencionista voltou-se contra governos democráticos tidos pelo Departamento de Estado como simpáticos à URSS. Agora, esse intervencionismo seria rotulado como “Doutrina Truman”, homenagem ao presidente que detonou duas bombas atômicas sobre populações civis do Japão (Hiroshima e Nagasáqui) ao final de uma guerra já definida ao seu favor.

O rol de golpes de Estado promovidos é extenso e registra, como os mais significativos, as deposições de Salvador Allende no Chile (1973), a que se seguiu a ditadura comandada pelo general Pinochet (sanguinária e corrupta), e o golpe de 1º de abril de 1964, que depôs o presidente João Goulart e abriu as sendas para uma ditadura militar de longos e custosos 21 anos.

Pete Hegseth — secretário da Defesa (que a atual administração rebatizou como Secretaria de Guerra) — foi explícito sobre o projeto da Casa Branca para nosso continente. Em abril deste ano, em entrevista à Fox News, referindo-se à América Latina, declarou sem rebuços: “Estamos recuperando nosso quintal”.

Para o império, a América Latina está destinada ao papel de reserva estratégica de sua geopolítica, vis-à-vis o crescimento político, econômico, tecnológico e militar da China (a “fábrica do mundo”), liderando a Eurásia, o centro geopolítico mais importante do planeta, reunindo 70% da população mundial, recursos naturais (a maior parte das reservas de petróleo, gás e minerais estratégicos), rotas estratégicas, grandes  economias industriais e importantes centros tecnológicos, financeiros e militares, caso da Rússia, com seu estoque estimado em 5.459 ogivas nucleares, o maior do planeta.

Zbigniew Brzezinski (Conselheiro de Segurança Nacional do presidente Jimmy Carter entre 1977 e 1981), na abertura de O grande tabuleiro de xadrez (1997), apresentava a Eurásia como o  continente  “geopoliticamente axial”, para, em seguida, como que falando para os senhores da guerra, prevenir (ou incitar) seus pares: “Quem lograr exercer predominância sobre a Eurásia terá grande influência sobre a política e a economia mundiais”.

A Eurásia se apresenta hoje sob a liderança da China, que, investe na “Nova Rota da Seda”, projeto de integração planetária compreendendo, na travessia de meio mundo, a construção de ferrovias, portos, rodovias, gasodutos, oleodutos, cabos digitais e corredores logísticos. Ou seja, a “nova Rota” é uma rede geoestratégica e um instrumento de projeção de poder que dispensa milhares de bases militares, navios de guerra e submarinos espalhados por todo o mundo, preço do permanente estado de guerra dos EUA. 

Ademais, os EUA perdem espaço no Oriente Médio, com sua derrota na guerra contra o Irã: ao fracasso militar soma-se o fracasso político. O regime dos aiatolás, que antes da agressão parecia em crise, ressurge com massivo apoio popular. E permanecem tensas as relações de Washington com a Otan.

Daí o Departamento de Defesa proclamar a retomada de seu “quintal”.

Este papel que nos é destinado, de reserva estratégica, projeta evidentes ameaças à nossa soberania e a um desenvolvimento autônomo, além de pôr em xeque a presença brasileira no tabuleiro internacional.

O atual governo dos EUA já vem claramente intervindo na política de nossos países (como ocorreu recentemente no Peru e na Colômbia), e não esconde seu apoio à extrema-direita brasileira, que, insuperável no servilismo, lhe oferta obediência bovina. A “retomada do quintal” traz em seu bojo o controle ideológico-político dos governos da região. Na América do Sul, os dois únicos países fora dessa órbita são, hoje, o Brasil e o Uruguai.

Muitas águas ainda rolarão antes de outubro. Quem tiver barbas, que as ponha de molho.

* **

Quinta coluna I Após defender, junto à Casa Branca, o tarifaço de 25% sobre as exportações brasileiras para os EUA, o principal candidato da direita à Presidência da República regressa a Washington para pedir que o novo tarifaço, com o qual Trump nos ameaça, tenha seu anúncio adiado para após as eleições brasileiras, assim não prejudicando suas pretensões políticas.

Quinta coluna II Entre outros compromissos assumidos contra os interesses nacionais, o principal candidato da direita anuncia que, se eleito, retirará o Brasil do Mercosul. Trata-se de nada menos que um dos maiores ativos econômicos e estratégicos de nossa política externa: um mercado de quase 300 milhões de consumidores, liderado pelo Brasil, e plataforma para acordos comerciais de grande alcance. O bloco já concluiu acordo com a União Europeia e firmou tratado com a Associação Europeia de Livre Comércio,  além de presentemente abrir negociações com  a Coreia do Sul. Romper com o Mercosul seria trocar um projeto de integração e fortalecimento da soberania nacional pelo isolamento e subordinação do Brasil nas negociações internacionais. É a opção pelo atraso.

Cuba resiste I – Voltando de mais uma viagem à ilha caribenha, Frei Betto (Cuba, nuevas medidas de la Revolución) se reporta ao ilegal e desumano bloqueio econômico e energético imposto pelos EUA ao povo cubano, enfrentando  escassez de combustíveis, alimentos, medicamentos e divisas, numa das mais graves crises desde o “Período Especial”. Para preservar o projeto socialista, relata Frei Beto, o governo de Miguel Díaz-Canel aprovou amplo pacote de 176 reformas que flexibiliza o modelo econômico, com medidas como abertura ao investimento privado e estrangeiro, descentralização da economia, autorização para o funcionamento de bancos privados e transformação de empresas estatais em sociedades por ações. Embora essas mudanças introduzam instrumentos típicos do capitalismo e despertem apreensão quanto ao risco de aumento das desigualdades, o governo sustenta que se trata de um ajuste pragmático destinado a fortalecer — e não abandonar — o socialismo, à semelhança das experiências da China e do Vietnã. 

Cuba resiste II Um fator é óbvio; segundo Frei Beto: “Apesar das múltiplas dificuldades atuais, a resiliência do povo é incontestável. É como se os cubanos, que enfrentaram tantas ameaças e crises do imperialismo ao longo de 67 anos de Revolução, agora estivessem seguros de que não serão derrotados. Como me disse um amigo em Havana: não temos eletricidade, mas nos sobra energia.”

A Faria Lima e o crime organizado O encontro do Banco Master com o Banco Digimais (acusado de gestão fraudulenta, manipulação de balanços e demonstrações financeiras maquiadas para ocultar sua real situação patrimonial) põe na mesma trilha Daniel Vorcaro e o autointitulado “bispo” Edir Macedo, CEO de uma empresa evangélica e de uma rede de rádio e televisão (é o que está à mostra, talvez apenas a ponta de um iceberg). A descoberta das fraudes foi, como no caso do Master, fruto de investigações da Polícia Federal. E expõe a indisposição do Banco Central para fiscalizar o sistema financeiro. Esse desvio de função não será superado enquanto o BC for uma representação da Faria Lima.

(Com a colaboração de Pedro Amaral)

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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