CartaCapital
A bola e a vida
Em sua universalidade, o jogo desencanta brasileiros, franceses, alemães…
A Seleção Brasileira foi machucada e eliminada por dois golaços de Haaland. Assim como todos os brasileiros, padeci as dores da derrota. Esporte universal e carismático, o futebol encanta e desencanta a vida de brasileiros, noruegueses, franceses, alemães e tutti quanti. Em sua universalidade, o jogo da bola imita a vida. Desencanta as almas nas derrotas e, logo depois, empolga os espíritos apaixonados dos torcedores com reviravoltas vitoriosas.
Nos anos 30 do século passado, os campeonatos mundiais de futebol e as Olimpíadas serviram de palco para a competição entre sistemas políticos rivais. Correm rumores de que Benito Mussolini teria enviado uma mensagem à seleção italiana. A ordem do Duce clamava aos jogadores: “Ganhar ou morrer”.
A Folha de S.Paulo informa: “A Uefa, entidade máxima do futebol europeu, criticou duramente a decisão da Fifa de apagar o cartão vermelho que expulsou o americano Folarin Balogun, na partida entre EUA e Bósnia, na Copa do Mundo. A decisão foi tomada após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ligar para o comandante da Fifa, Gianni Infantino, pedindo a revisão do caso, alegando que a entidade máxima do futebol mundial havia “cruzado uma linha vermelha” e prejudicado a integridade do esporte.
Nas últimas décadas, na toada da globalização dos mercados e da mídia, o futebol transfigurou-se em mercadoria cobiçada, quase em pé de igualdade com o dólar. O jogo da bola com os pés atrai bilhões de torcedores apaixonados por suas paixões, tão humanas quanto incompreensíveis. Não é surpreendente que a paixão dos apaixonados tenha sido apropriada e domesticada por um formidável aparato midiático-mercadológico coordenado pela Fifa. Afirmo que não se trata de um embuste, de uma falsificação das finalidades “verdadeiras” do futebol, senão de uma forma de ser, de um modo de existência do esporte das multidões.
O escritor argelino – e francês – Albert Camus morreu em um acidente de carro, aos 46 anos. Ele havia ganhado o Prêmio Nobel de Literatura e sempre será considerado um gigante intelectual, mas, no contexto esportivo, é lembrado principalmente por sua frase sobre o futebol: “Tudo o que sei com certeza sobre moralidade e dever devo ao futebol”.
Camus falava do futebol como metáfora da existência humana e do desenvolvimento da identidade pessoal. O escritor reconheceu virtudes no futebol relacionadas ao trabalho em conjunto para um propósito comum. Em meados da década de 1990, talvez ecoando Camus, o ex-jogador Eric Cantona revelou uma vez que parte do segredo do sucesso do Manchester United naquela época era baseada nos integrantes da equipe se respeitando e protegendo uns aos outros.
Camus descreveu uma ética semelhante, de cuidado com os amigos, integridade pessoal e imparcialidade, que fornece uma moralidade descomplicada para viver e estrutura para conduzir relacionamentos humanos. Ele acreditava que o esporte, particularmente o futebol naquela época, englobava uma espécie de virtude da personalidade, que poderia oferecer aos indivíduos uma estrutura mais apropriada para viver do que a política ou mesmo a filosofia jamais poderiam fornecer.
“Tudo o que sei com certeza sobre moralidade e dever devo ao futebol”, dizia Albert Camus
O brasileiro apaixonado pelo “jogo bonito”, Nelson Rodrigues, escreveu no livro A Pátria de Chuteiras: “Qualquer profissão há de ter um sentido ético que a justifique e valorize. O futebol profissional exige dinheiro, mas não só dinheiro. Ele implica algo mais, ou seja: implica os tais valores gratuitos que conferem a um jogo, a uma pelada, uma dimensão especialíssima. Um match representa algo mais do que pontapés. Participam da luta dois clubes e todos os seus bens morais, afetivos, líricos, históricos”.
O saudoso jornalista da revista Veja, nos tempos de Mino Carta, Renato Pompeu observa em seu livro Canhoteiro que, “acima de ter sido a era do rádio e dos jornais esportivos, a era dos bares de calçada e a era da democracia nacionalista, a era Canhoteiro se confundiu, na história da cidade e na vida da grande massa da população, com a era dos ônibus. Além do rádio, que nem todos tinham, e dos jornais, que nem todos liam, a fama de Canhoteiro espalhou-se nas conversas entre os passageiros de ônibus”.
O maranhense e são-paulino Canhoteiro jogava na esquerda. Encantou palmeirenses, corintianos com seus dribles estonteantes, passes precisos e gols maravilhosos.
O Canhoteiro, de Renato Pompeu, é um estudo nostálgico daquele momento da vida brasileira, paulista e paulistana. Digo nostálgico com aprovação, pois o bom ensaio de memórias não deve pretender apenas uma interpretação sociológica, mas muito mais que isso. Renatão conseguiu recuperar, ao menos para quem viveu aquela era, o clima da cidade que começava a tomar consciência de suas transformações e das mudanças que ocorriam no País. Havia, sim, um “progressismo” ingênuo que caminhava lado a lado com a intensa discussão sobre os rumos da modernização. Isso se acentuou nos anos do governo de Juscelino Kubitschek, quando a industrialização de São Paulo avançou, de fato, 50 anos em cinco, com o desenvolvimento da indústria de bens duráveis, sobretudo com a chegada da automobilística e o avanço do setor de bens de capital. •
Publicado na edição n° 1421 de CartaCapital, em 15 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A bola e a vida’
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