Política

Como o governo Trump atrapalhou operação da PF contra o crime organizado no Brasil

Segundo o diretor da corporação, a sanção dos EUA contra suspeitos de ligação com o PCC prejudicou investigação

Como o governo Trump atrapalhou operação da PF contra o crime organizado no Brasil
Como o governo Trump atrapalhou operação da PF contra o crime organizado no Brasil
O secretário de estado, Marco Rubio, e o presidente dos EUA, Donald Trump. Foto: Kent Nishimura/AFP
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Em março deste ano, a Polícia Federal pediu à Justiça paulista autorização para fazer uma operação contra suspeitos de lavar dinheiro para traficantes internacionais de drogas. Queria encarcerar algumas pessoas, vasculhar endereços de outras, apreender o que servisse de pista ou prova, bloquear bilhões de reais. Três meses depois, a 7ª Vara Federal Criminal de São Paulo deu sinal verde para a batida.

A PF começou, então, a monitorar os alvos e identificar o paradeiro deles. O trabalho ainda não tinha sido concluído quando, na última quarta-feira 1º, os Estados Unidos anunciaram sanções contra dois brasileiros e três empresas sediadas no Brasil. Um dos atingidos era Victor Henrique de Oliveira Shimada, personagem que estava na lista de alvos daquela operação preparada pela Polícia Federal.

As sanções foram resultado da decisão do governo Donald Trump de tratar duas facções criminosas brasileiras, o PCC e o Comando Vermelho, como terroristas. Por trás da decisão de maio estava o clã Bolsonaro: dois dias antes, o senador e presidenciável Flavio Bolsonaro (PL-RJ) tinha se reunido em Washington com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, o responsável pela nova classificação das facções.

Diante da notícia da medida americana contra Shimada, a PF correu para antecipar a batida autorizada pela Justiça paulista. O motivo é que o alvo poderia ter imaginado que estava na mira de autoridades e seria melhor submergir, se esconder em algum lugar. A polícia estava certa. Quando foi às ruas nesta sexta-feira 3 para prendê-lo, não o encontrou. Shimada agora é um foragido.

“Houve prejuízo à investigação”, disse o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, em café da manhã com jornalistas logo após a deflagração da chamada Operação Exchange. Detalhe: Shimada já era um conhecido da PF. Havia sido preso em dezembro de 2024 por ter feito milhares de transações fraudulentas via Pix e condenado em 2025, quando já estava em liberdade graças a um habeas corpus.

Rodrigues é contra a opção americana de encarar as duas maiores facções brasileiras como grupos terroristas. “Erro grosseiro”, segundo ele. As facções têm objetivos diferentes de terroristas e merecem ser enfrentadas de formas distintas, diz. O que não significa que elas não “aterrorizem” a população brasileira, destaca o delegado. 

O chefe da PF é um crítico também do que chama de “glamourização” das facções. Muitos crimes são atribuídos a elas mesmo que seus autores não tenham ligação com PCC, CV e companhia. Ele discorda ainda da visão de que são máfias, categorização que chegou a ser debatida no Ministério da Justiça e é defendida por um dos maiores investigadores do PCC, o promotor paulista Lincoln Gakiya.

Evitar a contaminação da eleição deste ano pelo crime organizado, como as facções, é uma das preocupações da PF. Essa contaminação pode acontecer, por exemplo, por meio do financiamento de políticos da preferência de uma facção ou da pressão sobre eleitores para que votem em candidatos indicados por esses grupos criminosos.

Além de coibir essa infiltração, a PF tem outros eixos de ação na eleição deste ano, conforme o diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção, Dennis Cali: proteção de candidatos contra atos violentos, e combate a fake news e a caixa 2.

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